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Comendo a dor pelas beiradas no fogão azul de quatro bocas

Comendo a dor pelas beiradas no fogão azul de quatro bocas

Já fazia dias que Edu não dormia bem. Vinha notando mudanças no comportamento do pai. Nestor fora clinicamente desenganado pelos médicos, ou seja, a tendência, na medida em que o tempo passasse, era que os neurônios dentro da sua cabeça continuassem a se deteriorar, tornando-se ainda mais aloprados, confundindo as sinapses como se fossem fios desencapados, a ponto de o cérebro desentender se o indivíduo estivesse morto ou vivo, alegre ou triste, faminto ou saciado.

Jacques Fux e as irmãs Dutilh: documentos de família viram literatura — e ferida histórica

Jacques Fux e as irmãs Dutilh: documentos de família viram literatura — e ferida histórica

Os começos, assim como os finais, nos fazem olhar para a vida de forma diferente. De um lado, promessas de páginas em branco que escreverão, se der certo, uma história que valha ser lembrada. Do outro, o risco de que tudo o que se passou seja enterrado e esquecido. O esquecimento que encerra a morte, mas que, ao mesmo tempo, apaga a vida para sempre. A morte dos mortos.

O mistério do cometa

O mistério do cometa

Volta e meia, um desses telescópios gigantes que existem por aí detecta algo diferente, e todo mundo fica ligado. Há algum tempo, apareceu uma parada com o estranho nome de Oumuamua, e um monte de gente teve certeza de que era uma nave alienígena. O tal objeto acabou passando direto pelo Sistema Solar e saiu das conversas nas redes sociais, mas muita gente continuou certa de que era uma nave gigante, apesar de os cientistas garantirem que era um cometa.

Cartas do pai reaparecem décadas depois — e viram o livro mais íntimo (e inquietante) de Cristovão Tezza

Cartas do pai reaparecem décadas depois — e viram o livro mais íntimo (e inquietante) de Cristovão Tezza

“Visita ao Pai”, eleito o melhor livro brasileiro de 2025 em enquete da Revista Bula, marca um passo decisivo na obra de Cristovão Tezza. Partindo de cartas, cadernos e anotações do pai morto quando o autor era criança, o livro transforma o arquivo íntimo em investigação literária. Sem sentimentalismo, Tezza evita a biografia pronta e trabalha com a ausência, com os silêncios e com o que a memória distorce e rearranja. É assim que o Brasil aparece, nos detalhes de época.

Falar de amor não é chover no molhado

Falar de amor não é chover no molhado

Num esforço concentrado de desmonte da tristeza, com a destreza de renascer a esperança por dias melhores, por noites melhores, por homens melhores, suscitando uma pausa no desencanto como consequência da chuva branda, suave e ininterrupta que corrompe o silêncio ao gotejar dos beirais das casas sobre latas, lutos e outros objetos deixados no quintal da solitude, a despir os sentidos, a lavar a roupa suja no de-dentro do peito, a levar a sério a premissa de felicidade ainda que tardia, germinando sementes no fofo da terra e candura no coração das pessoas.