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Numa tarde de fevereiro, aos 47 anos, o escritor que fez da solidão literatura despedia-se do mundo

Numa tarde de fevereiro, aos 47 anos, o escritor que fez da solidão literatura despedia-se do mundo

Da infância em Santiago ao retorno a Porto Alegre, a trajetória de Caio Fernando Abreu passa por adolescência em cidade grande, redações, vigilância política, uma temporada de autoexílio europeu e a decisão pública de falar do próprio corpo. Contista e cronista central da virada oitenta-noventa, ele fez da escuta uma ética e do detalhe um abrigo. Aos 47 anos, encerrou a vida numa tarde de fevereiro. O que ficou foi uma voz capaz de ensinar cuidado, nomear fragilidades e repactuar o afeto com quem lê em dias curtos de medo

Ele tinha 44 anos, o corpo em frangalhos e uma lucidez que feria. A cirrose venceu o homem. A poesia venceu a cirrose

Ele tinha 44 anos, o corpo em frangalhos e uma lucidez que feria. A cirrose venceu o homem. A poesia venceu a cirrose

Poeta curitibano de 1944 a 1989, Paulo Leminski cruzou origem polonesa e materna portuguesa, negra e indígena com judô, concretismo e música para lapidar uma voz breve e incendiária. Nas ruas e nos estúdios, uniu filosofia e fala de bar, amizade e risco, alegria e fenda. A redemocratização fervia; o corpo cobrava juros. O alcoolismo apertou, vieram internações, e Curitiba o velou jovem. Ficou a obra enxuta, lembrada por leitores e canções, que segue alterando o ar de quem a encontra, ainda hoje, em escolas, palcos e bibliotecas da capital.

Ler é morrer um pouco e voltar outro

Ler é morrer um pouco e voltar outro

Uma cidade desperta e, entre persianas e passos, leitores atravessam páginas como quem atravessa outra pressão de ar. No ônibus, no sebo, na escola, no hospital, em casa e na biblioteca, a leitura desloca ângulos, aperta músculos discretos, ensina o nome exato de um cheiro. Não consola; afina. Entre tarefas e urgências, ela grava pequenas cicatrizes e redesenha perímetros: impede um grito, autoriza um riso, desalinha o mundo de leve e aprofunda quem o vê.

Ela se jogou do oitavo andar. Era sábado. Tinha 31 anos. Antes, mudou a poesia brasileira

Ela se jogou do oitavo andar. Era sábado. Tinha 31 anos. Antes, mudou a poesia brasileira

Entre uma janela em Copacabana e cadernos que não cabiam no corpo, Ana Cristina Cesar atravessou o Rio setentista, a Inglaterra dos estudos de tradução e uma Paris de luz oblíqua. Fez da intimidade um experimento público, da carta um palco mínimo, da conversa um pulso. Amores, amizades, aulas, leituras: uma vida de precisão e risco. Em 1983, a tragédia interrompe, não encerra. O perfil segue seus passos curtos e firmes, escuta arquivos, vozes e cidade, para entender como a poesia ficou enquanto ela partia e por que ainda fere.

Quando a última livraria fechou, a cidade se despediu de si mesma

Quando a última livraria fechou, a cidade se despediu de si mesma

Depois de cinquenta e três anos de funcionamento, a última livraria da cidade fechou em 2025. O anúncio no vidro simbolizou mais que o fim de um negócio: marcou a perda de um espaço de encontro, cultura e identidade coletiva. Em meio à ascensão do comércio digital, o encerramento deixa uma ausência difícil de preencher. Sem biblioteca pública, a cidade perde também seu único ponto de acesso comum à leitura.