Autor: Marcelo Franco

Homem velho, mês seco

Homem velho, mês seco

“Aqui estou eu, um homem velho, num mês seco.” Sinto-me velho, cansado e saudosista. Talvez isso venha da idade — ou será reflexo destes estranhos tempos? Dinossauro fugido de seu parque jurássico, virei o tio anacrônico que fala, a propósito de tudo, “No meu tempo…”. Não vou dizer que a internet era tudo mato quando aqui aportei, mas que ela era ainda movida a vapor, isso era. Melhorou bastante depois que colocaram válvulas. E mudou muito. Mudou tanto que não encontro as balizas de sempre e me perco constantemente. Abarrotam-nos de informações.

Se tudo é preconceito, xenofobia e fascismo, nada mais o é de verdade

Se tudo é preconceito, xenofobia e fascismo, nada mais o é de verdade

Há labirintos que nos parecem sem saída; confusos, nem sequer podemos, nos ensinam a mídia, nossos líderes e o blogueiro moderninho, sob risco de linchamento pelos Torquemadas da nova Santa Inquisição (Santa Inquisição, vocês sabem, era uma espécie de Facebook da Idade Média), emitir qualquer opinião fora dos cânones pré-estabelecidos por uma soi-disant elite que pensa as relações sociais como reflexo do próprio mundinho.

Morreu Philip Roth

Morreu Philip Roth

O que dizer de um escritor que admiro profundamente? Li todos os seus livros, vários deles excepcionais, e já escrevi antes sobre o impacto que “O Teatro de Sabbath” teve em mim. O livro é, como todo grande romance, cheio de camadas que se sobrepõem. A vida de Morris Sabbath é um longo acúmulo de fracassos. Leio-o, entre outras coisas, como uma reflexão sobre a vida e a morte, e por isso o texto é profundamente humano, demasiado humano.

Existem janelas  para todos nós, aguardando o nosso lado outsider adormecido

Existem janelas para todos nós, aguardando o nosso lado outsider adormecido

Sim, sabemos que janelas e portas são o canto de sereia de deprimidos, suicidas e insatisfeitos com a caminhada, sempre aflitiva, no “jardim dos caminhos que se bifurcam” (todos nós?). Mas esse chamado se faz por oposição, ai de nós: se o que há além delas é uma possível liberdade, dentro existem as paredes que simbolizam as normas que, afinal, devem reger qualquer vida social.

Sobrevivendo ao domingo

Sobrevivendo ao domingo

Amigos velhos, e então, como vai o domingo? Paulo Mendes Campos, cronista tão invejável (invejo quem escreve bem) quanto o urso Rubem Braga, escreveu que, para um domingo perfeito, é preciso “ter na véspera o cuidado de escancarar a janela”. Sim, sim, mas não só as janelas físicas: as metafísicas devem ser abertas ainda com mais vigor aos domingos. Abrir-se, eis um mandamento obrigatório, um, por assim dizer, imperativo categórico.

A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto!)

A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto!)

Há algo de muito íntimo em receber um livro com dedicatória: nestes tempos dominados pelo computador e pela pressa, ler algo escrito de próprio punho por pessoa que se estima pode ser uma experiência rara e emocionante. E há sempre o prazer de tentar descobrir novos significados naquilo que a aparente simplicidade das palavras pode ocultar por tartufice.