Autor: Marcelo Franco

Náufragos sobre balsas de bambu

Náufragos sobre balsas de bambu

Tudo na vida é foco, não? Sim, e por isso vamos fixando posições nesta nossa triste existência, fingindo que não somos náufragos sobre balsas de bambu (com um tigre na outra ponta do barco ou da balsa, como no filme). Foco é um tipo de certeza; navegar, afinal, com ou sem tigres, é preciso, e viver não é preciso — não é preciso e dói, de uma dor doída, aqui no lado esquerdo do peito.

Nenhum Brasil existe e Minas não há mais

Nenhum Brasil existe e Minas não há mais

As facilidades da vida moderna (e, contraditoriamente, também as suas agruras) parecem ter tornado a pacata vida burguesa uma paisagem permanente. Já a arte contemporânea, em tudo oposição ao que faziam os mineiros, é esse grande pós-nada e, ainda assim, é best seller nas livrarias, lota cinemas e é vendida a preços estratosféricos nas galerias. Nosso tempo é o de vanglória por conta de textos de 280 caracteres.

Pedro Nava e o resfriadinho de 1918

Pedro Nava e o resfriadinho de 1918

Neste confinamento forçado, todos — inclusive o degas aqui — já escrevemos sobre o livrinho de Xavier de Maistre, “Viagem em Volta do Meu Quarto”. Virou clichê, assim como recordar Camus e o seu “A Peste”. É justo, é muito justo, é justíssimo, diria aquele personagem interpretado por José Wilker. Mas e Pedro Nava descrevendo a devastação da gripe espanhola? Nada, nadica, nonada? Pois faço aqui a merecida lembrança daquele que nos deu uma das nossas grandes obras em prosa.

Mil livros espanarei

Mil livros espanarei

Sempre que afirmo algo parecido, me aparece um sacripanta qualquer para sugerir a contratação de alguém que organize os tantos livros. Não respondo: quem confunde a opção de uma forma de vida com algum tipo de obrigação institucional que mesmo as bibliotecas privadas deveriam ter, segundo esses conselhos, entendeu pouco ou nada dos prazeres que tiramos dos nossos, digamos, desarranjos neuronais causadores do cacoete de acumulação.

Há exatos 121 anos nascia Ernest Hemingway

Há exatos 121 anos nascia Ernest Hemingway

Entrou cedo em minha vida, o grande americano, com “O Sol Também se Levanta”, título e livro ecoando o “Eclesiastes”. Como muitos antes de mim, refiz em Paris os passos dos personagens e até andei buscando vestígios do próprio Hemingway em Pamplona. Não os encontrei, talvez por culpa dos hectolitros de sangria numa tarde calorenta.

Arrivederci, Ennio

Arrivederci, Ennio

Os beijos não são apenas beijos, obviamente; são a infância do personagem principal, Salvatore Di Vita, e, portanto, também a nossa; são os caminhos que Salvatore não tomou e, assim, também os caminhos que todos nós não escolhemos; são a certeza de que a vida, a nossa e a de Salvatore, é mesmo improvisada e com partes excluídas por contingências que nos doem.

A carne é fraca e já li todos os livros

A carne é fraca e já li todos os livros

Hoje, aqueles sete anos, eles só, existem na minha lembrança, mas existem como sete ferretes e doendo sete vezes sete quarenta e nove vezes sete trezentos e quarenta e três ferros pungindo em brasa. Para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. Querida, ao pé do leito derradeiro.

Prece ao heróis que lutaram contra a barbárie nazista

Prece ao heróis que lutaram contra a barbárie nazista

Tudo muito humano, demasiado humano. Mas houve mais, muito mais: Anne Frank no seu esconderijo, durante anos, em Amsterdã. Von Choltitz, o general alemão que desobedeceu à ordem de Hitler para destruir Paris. Pessoas que deram fuga aos judeus; judeus vivendo em florestas, formando comunidades clandestinas. Londres resistindo heroicamente, durante meses, sob bombardeios diários.