Filme brasileiro, ganhador de 10 prêmios internacionais e indicado ao globo de ouro, estreia na Netflix Divulgação / Embrafilme

Filme brasileiro, ganhador de 10 prêmios internacionais e indicado ao globo de ouro, estreia na Netflix

O italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) escreveu em “O Leopardo”, publicado postumamente em 1958, que certas coisas mudam para que tudo permaneça igual. No Brasil, as coisas mudam para que tudo sempre fique um bocado pior, sobretudo no que respeita a quem não tem voz, ou seja, quanto mais perseguido, desalentado, impotente o cidadão, mais os donos do poder enchem presídios e centros de “reeducação” dos três pês de que nos falou a seu modo Raymundo Faoro (1925-2003), com a lhaneza e a classe que lhe eram tão peculiares. Héctor Babenco (1946-2016) era mais nosso que muito político gaúcho, fluminense, paulista ou pernambucano.

O marplatense radicado no Brasil e naturalizado brasileiro aos 31 anos, em 1977, via muito além do que a exânime liberdade de imprensa dos anos de chumbo da ditadura militar (1964-1985) autorizava, e também por isso trabalhos a exemplo de “Pixote, a Lei do Mais Fraco” nunca tornam-se obsoletos — até porque o compromisso com o atraso, militante e estrutural, não o permite. Peça de resistência das mais simbólicas de uma obra de riqueza inesgotável, “Pixote” esfrega-nos a miséria que o Brasil ainda é, passados mais de quarenta anos, ainda que, por óbvio, progressos entrem na conta das desgraças que nos assolam desde Cabral. Babenco fez sua parte quanto a nos fazer menos trágicos. Mas falhou.

Todo de branco, sem bonezinho e ostentando uma hirsuta barba preta, o diretor faz correr uma avalanche de números sobre o público em cima do barranco de uma favela da Zona Norte de São Paulo, possivelmente a Brasilândia. Em 1980, o Brasil contava 120 milhões de habitantes; desses, metade tinha menos de 21 anos, a maioridade civil à época, e afinando-se ainda mais o recorte, cerca de 50% eram crianças, ou 28 milhões. Três milhões dessas meninas e meninos, mais de um décimo da mostra, não tinham casa ou origem definida, família então, nem pensar.

São Paulo respondia por mais de 60% do PIB brasileiro — número que se mantém — e por reunir o grosso da indústria, formavam-se em torno das fábricas imensas vilas improvisadas, sem água potável, saneamento básico, coleta de dejetos, energia elétrica. Babenco elabora um argumento no mínimo corajoso sobre a invalidade do Código Penal para indivíduos com idade inferior a 21 anos, que, segundo ele, seriam dessa forma potenciais vítimas de aliciadores. É evidente que o raciocínio apresenta um progressivo esgarçamento lógico, mas com alguma boa vontade, compreende-se perfeitamente o que ele quis dizer.

Enquanto fala, um magote de crianças se aglomera junto às cercas, e numa daquelas casas paupérrimas, de ripas de madeira, piso de terra batida e telhas de amianto, Babenco encontrou Fernando Ramos da Silva (1967-1987), o Pixote do título. O argumento do longa, tirado de “Infância dos Mortos” (1977), é burilado pelo jornalista José Louzeiro (1932-2017), autor do romance, pelo diretor e por Jorge Durán, até que se chega a um salão cheio de garotos assistindo a um filme violento na Febem A narrativa se desenrola em fluxo contínuo, de modo linear, porém nunca tedioso, tentando prever os próximos movimentos de Pixote, apreendido na rua aos onze anos, analfabeto, fugindo do avô que quer salvá-lo sem saber como.

A tal Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor serve, na verdade, de observatório prático de pequenos delitos, que evoluem sem controle, e quando o personagem de Silva foge de lá, depois de sobreviver a uma sessão de extermínio fora do reformatório, vai parar no Rio de Janeiro. Babenco refresca a aridez dos muros cinzentos da Febem obrigando seu protagonista a conhecer a vida como ela é — várias passagens são puro Nelson Rodrigues (1912-1980) mesmo —, convivendo com traficantes e praticando assaltos. Quando faz um bico de avião num inferninho do centro do Rio, termina esfaqueando Débora, a prostituta interpretada por Elke Maravilha (1945-2016). Curiosamente, é também nos braços de uma mulher da vida que se dá o climax de sua vida angustiada.

Marília Pêra (1943-2015) entra na história como a mãe que Pixote nunca pudera ter de fato, até que ela mesma, já sem suportar a própria agonia, o enxota. Antes, Sueli lhe dá o peito, num gesto maternal, mas também profano, e o manda para a vida, para que siga seu caminho. Não chega a ser uma surpresa que Fernando Ramos da Silva morra ao fim de sete anos, perseguido por policiais militares enquanto fugia depois um assalto malsucedido. Ele tinha dezenove anos.


Filme: Pixote, a Lei do Mais Fraco
Direção: Héctor Babenco
Ano: 1980
Gêneros: Crime/Drama
Nota: 10