A história real de Philippe Pozzo di Borgo e Abdel Sellou foi retratada em muitos filmes, sendo o mais famoso deles, “Intocáveis”, de 2011. A partir desta produção, diversos diretores de muitas nacionalidades pensaram em contar uma versão própria. Uma delas é a do cineasta argentino Marcos Carnevale, “Inseparáveis”, de 2016. Mas essa leitura é bem diferente da francesa, que tem a atuação encantadora e carismática de Omar Sy.
Na versão da França, de Olivier Nakache e Éric Toledano, Abdel é Driss, vivido por Omar Sy, o funcionário irreverente e carismático de Philippe (François Cluzet), um magnata que tem o corpo inteiro paralisado por um acidente com um cavalo. Driss deve ajudá-lo a fazer as tarefas mais básicas do cotidiano, como tomar banho e se alimentar, mas, conforme convivem, desenvolvem fortes laços de lealdade e amizade.
Carnevale parece não ter entendido muito bem a personalidade de Abdel, o cara da vida real, mas entendeu a mensagem, que é o mais importante. Em vez disso, ele traz um Tito (Rodrigo de la Serna), que seria uma representação cinematográfica de Abdel, desagradável, mal-educado e assediador de mulheres. Ele trabalha para o milionário Felipe (Oscar Martínez), um homem culto, inteligente e que, como o Philippe da história real, ficou tetraplégico depois de um acidente.
Provavelmente deve ter parecido engraçado para Carnevale usar algumas piadas desrespeitosas para representar a personalidade rebelde e engraçada de Abdel. Esse é o maior defeito deste filme, que poderia ter seguido o mesmo rumo quase que impecável de “Intocáveis”. O diretor e roteirista tenta justificar as falhas de caráter de seu personagem pelo seu passado traumático e problemático.
Mas nem tudo é tão ruim. A essência é a mesma de todos os outros filmes, mostrar como a amizade entre eles afetou positivamente a vida de ambos. Felipe vive dentro de uma bolha. Sempre viveu, mesmo antes de seu acidente. Em um mundo onde status social é tudo, é preciso ter os modos certos, o requinte e a fineza para pertencer. A chegada de Tito é como desafiar a gravidade. Ele faz com que Felipe quebre todas as regras primordiais de seu universo.
[adsense]
Com Tito não há modos, requinte ou fineza. Ele está constantemente zombando de obras de arte, colocando os pés sobre o balcão do mezanino do teatro durante a ópera, xingando as pessoas e caçando brigas. Para Felipe, a presença de Tito é como fugir da realidade. É uma forma dele escapar para um mundo onde tudo é possível. Infringir as regras o faz se sentir vivo novamente.
O filme de Carnivale é problemático, mas não se perde da mensagem principal sobre a importância da amizade e sobre como ela transforma a vida das pessoas. Ter um amigo é como ter uma ponte que nos conecta para fora de nossa ilha. É uma ligação com o mundo. É importante não perder essa ponte para o mundo, porque isolados em nossa própria ilha, a vida é um tanto quanto solitária e desesperadora. Quando Felipe perde os movimentos, pensa ter perdido tudo, mas a amizade com Tito o faz lembrar de que ele ainda está vivo.
Filme: Inseparáveis
Direção: Marcos Carnevale
Ano: 2016
Gênero: Drama/Comédia
Nota: 7/10

