Paulo Leminski

15 melhores poemas de Paulo Leminski

Pedimos a 15 convidados — escritores, críticos, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de Paulo Leminski. Cada participante poderia indicar entre um e 15 poemas. Escritor, crítico literário e tradutor, Paulo Leminski foi um dos mais expressivos poetas de sua geração. Influenciado pelos dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos deixou uma obra vasta que, passados 25 anos de sua morte, continua exercendo forte influência nas novas gerações de poetas brasileiros. Seu livro “Metamorfose” foi o ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Entre suas traduções estão obras de James Joyce, John Fante, Samuel Beckett e Yukio Mishima. Na música teve poemas gravados por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Guilherme Arantes; e parcerias com Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik e Wally Salomão.

Paulo Leminski morreu no dia 7 de junho de 1989, em consequência de uma cirrose hepática que o acompanhou por vários anos. Os poemas citados pelos participantes convidados fazem parte do livro “Melhores Poemas de Paulo Leminski”, organização de Fred Góes, editora Global. Abaixo, a lista baseada no número de citações obtidas.

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Invernáculo

Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

O que quer dizer

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

M. de memória

Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

Parada cardíaca

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

Amar você é
coisa de minutos…

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

Poesia:

“words set to music” (Dante
via Pound), “uma viagem ao
desconhecido” (Maiakóvski), “cernes
e medulas” (Ezra Pound), “a fala do
infalável” (Goethe), “linguagem
voltada para a sua própria
materialidade” (Jakobson),
“permanente hesitação entre som e
sentido” (Paul Valery), “fundação do
ser mediante a palavra” (Heidegger),
“a religião original da humanidade”
(Novalis), “as melhores palavras na
melhor ordem” (Coleridge), “emoção
relembrada na tranquilidade”
(Wordsworth), “ciência e paixão”
(Alfred de Vigny), “se faz com
palavras, não com ideias” (Mallarmé),
“música que se faz com ideias”
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
fingimento deveras” (Fernando
Pessoa), “criticismo of life” (Mathew
Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
“linguagem em estado de pureza
selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
inspire” (Bob Dylan), “design de
linguagem” (Décio Pignatari), “lo
impossible hecho possible” (Garcia
Lorca), “aquilo que se perde na
tradução (Robert Frost), “a liberdade
da minha linguagem” (Paulo Leminski)…

Adminimistério

Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.

Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?

Sintonia para pressa e presságio

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

Não discuto

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

A lua no cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!

Sem título

Eu tão isósceles
Você ângulo
Hipóteses
Sobre o meu tesão

Teses sínteses
Antíteses
Vê bem onde pises
Pode ser meu coração

  • http://www.facebook.com/realmarinaw Marina Dabliú

    ameixas
    ame-as
    ou
    deixe-as

    • Wanderlei G Silva

      Sou só a sombra
      Da minha sombra sem luz.
      Arquétipo falso. Incongruências,
      o que sempre me supus.
      Sequioso de referências.
      Que arquitetem meu eu
      Apócrifo, insólito.
      Se não sou eu, sou quem?
      Ninguém.

  • Angelica Lino

    Eu
    quando olho nos olhos
    sei quando uma pessoa
    está por dentro
    ou está por fora quem está por fora
    não segura
    um olhar que demora de dentro de meu centro
    este poema me olha.

  • reccanello

    “Hoje à noite
    Lua alta
    Faltei
    E ninguém sentiu
    A minha falta”

  • Drica

    “Um demônio em mim

    só fica feliz quando eu escrevo

    Escrever é preciso

    É preciso dizer tanta coisa.

    Ninguém ainda ouviu falar

    daquele canto da cozinha

    onde a vassoura chora

    a perda do seu par.

    Ninguém ainda falou

    daquela ferida que fecha

    quando a boca beija a boca

    e o coração cicatriza

    da dor de sermos pessoas.

    Quem sabe a torneira lá fora

    Um dia fale e diga tudo

    o que a água sente

    quando sai na planta

    tão completamente.”

  • mariana

    “Abrindo um antigo caderno foi que eu descobri antigamente eu era eterno” E “Da noite vim para a noite vamos uma Rosa de Guimarães nos ramos de Graciliano”

  • Antonio dos Santos

    Onde nós estamos que já não reconhecemos os desconhecidos?

  • Zanony o poeta

    isso de querer
    ser exatamente aquilo
    que a gente é
    ainda vai
    nos levar além

  • jader g z avila

    a flor
    disse a menina abrindo os braços
    e a flor era ela.

  • Luís Gomes

    “Pense depressa , o que veio? , quem vem ? bonito ou feio? ninguém” Leminski era um rimador ou um poeta? Eu também sou bom de rima. Olhem só:” quem tem muita paixão , certamente também tem compaixão, sendo então uma vez apaixonado só falta prego no caixão.” Alguém aí, que gosta de sorrir, poderia então me ajudar a progredir , pois quero viver de escrever , pode ser?

    • Irani Bilheiro

      Gostei muito da pagina, adoro poesia.

  • Victória Cristina

    Vazio agudo
    Ando meio
    Cheio de Tudo

  • VANILLA

    TOCA-ME ROSA

    Toca-me suave…
    com teus lábios carmesins, como a rosa vermelha,
    e ainda como a rosa,

    é delicado
    detalhado.

    Seus olhos me espetam,
    e corrompem-me em dor,
    quente,
    tentadora,
    sedutora…
    Enfim, seu cheiro doce me atrai para mais perto de seus espinhos
    e mais e mais…
    E me aquece com suas pétalas, seu toque suave,
    e novamente emploro,

    toca-me suave, por que amo sua rosa. Amo você minha rosa!

  • Roberto Roque Antunes Oliveira

    Ela me disse adeus.
    O amor que um dia pensei
    Que era meu.
    E isso me fez tão bem.
    Agora sei:
    Ninguém é de ninguém.

  • Jean Bial

    Pra fazer direito
    não se disfazer de qualquer feito
    pra dizer direito
    com certeza do que foi feito

  • Ricardo Inacio

    Devagar segue o cortejo,pra que pressa,certeza só uma,choro e risos no velório.

  • Jose

    Valeu a lembrança, Glória.

  • Milena Rolim

    HAI (Paulo Leminsk)

    Eis que nasce completo
    e, ao morrer, morre germe,
    o desejo, analfabeto,
    de saber como reger-me,
    ah, saber como me ajeito
    para que eu seja quem fui,
    eis o que nasce perfeito

    e, ao crescer, diminui.

  • Denise lelis

    Falar de sentimento e de vida é aprofundar nas águas solitárias do rio que ain ada assim espelha sua exuberante poesia.

  • Ana Beatriz Lage

    Faltou o

    “OLINDA WISCHRAL”

    pessoas deviam poder evaporar quando quisessem
    não deixar por aí
    lembranças pedaços carcaças
    gotas de sangue caveiras esqueletos
    e esses apertos no coração
    que não me deixam dormir

  • andreina

    eu aprendi nesse poema que tem que ser corajosa
    na vida toda

  • laisa

    amei os poemass muito bem criados

  • helen

    Gostei do poema “Nao discuto”..

  • lucas

    muitos lindos os seus poema chega chorei ;´)

  • BRENDA

    muito bonitu essses poemas !PARABENS!

  • Ian Campelo

    ” essa a vida que eu quero,
    querida

    encostar na minha
    a tua ferida”

    • Elizete

      gostei

  • Yasmin

    Apagar-me
    Diluir-me
    Desmanchar-me
    Até que depois de mim
    De nós
    De tudo
    Não reste mais que o charme.

  • Tomas Leao Martins

    Tudo sucede súbito

  • Gerson Clayton Rodrigues Dos S

    Dia dos finados

    Nas mãos carrego flores que desprezaste

    Trago em mima tristeza de quem te amou

    Ajoelhado no jazigo, tu jamais me amaste.

    Lacrimejam os olhos que não mais te
    olhou

    Puseram-te entre todas num só pedestal

    Vendo em ti a beleza que o corpo oferece

    Recebeste hoje flores em seu memorial

    De aguem que jamaise nunca te esquece.

    Talvez me veja prostrado meio a sepultura

    Na lapide, letras borradas que não se apagou.

    E veja que não te coloquei como escultura

    Mas aqui venho para demostrar meu amor

    Mesmo vetusta não hesiteimeu coração

    Mais o temponão deixa assimcontinuar

    Deixo hoje meu epitáfio a nossa canção

    Pois noutro ano estarei a lhe encontrar

    Autor: GERSON
    CLAYTON RODRIGUES DOS SANTOS. (s.d.).

    Gostou então entre e curta a pagina : https://www.facebook.com/…/Um-toque…/115123118646476…

  • Elizete

    também gosto desse.

  • Gustavo S. Stocchero

    Esse “Bem no fundo” é um dos mais intensos que já li dele.

  • Mayaraa Silvaa

    Adoreiii as poesias:A Lua no Cinema, Razão de Ser, M. de Memória.

  • brenda koenig

    lindo muito bom mesmo ;))

  • Rockeira Apimentada

    Eu gostei muitos dos seus poemas ,e tou escrevendo vários deles pra um trabalho da escola , eu tenho que ler poemas na escola , e escolhi o seu !!!! muito bons eles gostei muito mesmo parabéns por fazer um trabalho tão legal !!!! d +++++ eu gostei !

    • Jean

      O cara tá morto!

  • hemily

    muito otimo lindos

  • Milene Ribeiro

    Lágrimas, apenas!

  • Tallita

    tudo bem, vc tem razão. mas ela tá mandando um recado aqui hhahaha
    sem noção

  • hemilin

    lindo

  • jose

    onde paulo leminski mora?

  • jose

    gostaria de saber para ir na casa dele:)

  • paraiba hu3 da ilha do vala:)

    amo minha paraiba

  • paraiba hu3 da ilha do vala:)

    Bem no fundo

    No fundo, no fundo,
    bem lá no fundo,
    a gente gostaria
    de ver nossos problemas
    resolvidos por decreto

    a partir desta data,
    aquela mágoa sem remédio
    é considerada nula
    e sobre ela — silêncio perpétuo

    extinto por lei todo o remorso,
    maldito seja quem olhar pra trás,
    lá pra trás não há nada,
    e nada mais
    ESSES EU NAO LI hu3hu3hu3hu3uh3 head shotttttt
    mas problemas não se resolvem,
    problemas têm família grande,
    e aos domingos
    saem todos a passear
    o problema, sua senhora
    e outros pequenos probleminhas.

    Dor elegante

    Um homem com uma dor
    É muito mais elegante
    Caminha assim de lado
    Com se chegando atrasado
    Chegasse mais adiante

    Carrega o peso da dor
    Como se portasse medalhas
    Uma coroa, um milhão de dólares
    Ou coisa que os valha

    Ópios, édens, analgésicos
    Não me toquem nesse dor
    Ela é tudo o que me sobra
    Sofrer vai ser a minha última obra

    Invernáculo

    Esta língua não é minha,
    qualquer um percebe.
    Quem sabe maldigo mentiras,
    vai ver que só minto verdades.
    Assim me falo, eu, mínima,
    quem sabe, eu sinto, mal sabe.
    Esta não é minha língua.
    A língua que eu falo trava
    uma canção longínqua,
    a voz, além, nem palavra.
    O dialeto que se usa
    à margem esquerda da frase,
    eis a fala que me lusa,
    eu, meio, eu dentro, eu, quase.

    O que quer dizer

    O que quer dizer diz.
    Não fica fazendo
    o que, um dia, eu sempre fiz.
    Não fica só querendo, querendo,
    coisa que eu nunca quis.
    O que quer dizer, diz.
    Só se dizendo num outro
    o que, um dia, se disse,
    um dia, vai ser feliz.

    M. de memória

    Os livros sabem de cor
    milhares de poemas.
    Que memória!
    Lembrar, assim, vale a pena.
    Vale a pena o desperdício,
    Ulisses voltou de Tróia,
    assim como Dante disse,
    o céu não vale uma história.
    um dia, o diabo veio
    seduzir um doutor Fausto.
    Byron era verdadeiro.
    Fernando, pessoa, era falso.
    Mallarmé era tão pálido,
    mais parecia uma página.
    Rimbaud se mandou pra África,
    Hemingway de miragens.
    Os livros sabem de tudo.
    Já sabem deste dilema.
    Só não sabem que, no fundo,
    ler não passa de uma lenda.

    Parada cardíaca

    Essa minha secura
    essa falta de sentimento
    não tem ninguém que segure,
    vem de dentro.
    Vem da zona escura
    donde vem o que sinto.
    Sinto muito,
    sentir é muito lento.

    Razão de ser

    Escrevo. E pronto.
    Escrevo porque preciso,
    preciso porque estou tonto.
    Ninguém tem nada com isso.
    Escrevo porque amanhece,
    E as estrelas lá no céu
    Lembram letras no papel,
    Quando o poema me anoitece.
    A aranha tece teias.
    O peixe beija e morde o que vê.
    Eu escrevo apenas.
    Tem que ter por quê?

    Aviso aos náufragos

    Esta página, por exemplo,
    não nasceu para ser lida.
    Nasceu para ser pálida,
    um mero plágio da Ilíada,
    alguma coisa que cala,
    folha que volta pro galho,
    muito depois de caída.

    Nasceu para ser praia,
    quem sabe Andrômeda, Antártida
    Himalaia, sílaba sentida,
    nasceu para ser última
    a que não nasceu ainda.

    Palavras trazidas de longe
    pelas águas do Nilo,
    um dia, esta pagina, papiro,
    vai ter que ser traduzida,
    para o símbolo, para o sânscrito,
    para todos os dialetos da Índia,
    vai ter que dizer bom-dia
    ao que só se diz ao pé do ouvido,
    vai ter que ser a brusca pedra
    onde alguém deixou cair o vidro.
    Não e assim que é a vida?

    Amar você é
    coisa de minutos…

    Amar você é coisa de minutos
    A morte é menos que teu beijo
    Tão bom ser teu que sou
    Eu a teus pés derramado
    Pouco resta do que fui
    De ti depende ser bom ou ruim
    Serei o que achares conveniente
    Serei para ti mais que um cão
    Uma sombra que te aquece
    Um deus que não esquece
    Um servo que não diz não
    Morto teu pai serei teu irmão
    Direi os versos que quiseres
    Esquecerei todas as mulheres
    Serei tanto e tudo e todos
    Vais ter nojo de eu ser isso
    E estarei a teu serviço
    Enquanto durar meu corpo
    Enquanto me correr nas veias
    O rio vermelho que se inflama
    Ao ver teu rosto feito tocha
    Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
    Sim, eu estarei aqui

    Poesia:

    “words set to music” (Dante
    via Pound), “uma viagem ao
    desconhecido” (Maiakóvski), “cernes
    e medulas” (Ezra Pound), “a fala do
    infalável” (Goethe), “linguagem
    voltada para a sua própria
    materialidade” (Jakobson),
    “permanente hesitação entre som e
    sentido” (Paul Valery), “fundação do
    ser mediante a palavra” (Heidegger),
    “a religião original da humanidade”
    (Novalis), “as melhores palavras na
    melhor ordem” (Coleridge), “emoção
    relembrada na tranquilidade”
    (Wordsworth), “ciência e paixão”
    (Alfred de Vigny), “se faz com
    palavras, não com ideias” (Mallarmé),
    “música que se faz com ideias”
    (Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
    fingimento deveras” (Fernando
    Pessoa), “criticismo of life” (Mathew
    Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
    “linguagem em estado de pureza
    selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
    inspire” (Bob Dylan), “design de
    linguagem” (Décio Pignatari), “lo
    impossible hecho possible” (Garcia
    Lorca), “aquilo que se perde na
    tradução (Robert Frost), “a liberdade
    da minha linguagem” (Paulo Leminski)…

    Adminimistério

    Quando o mistério chegar,
    já vai me encontrar dormindo,
    metade dando pro sábado,
    outra metade, domingo.
    Não haja som nem silêncio,
    quando o mistério aumentar.
    Silêncio é coisa sem senso,
    não cesso de observar.
    Mistério, algo que, penso,
    mais tempo, menos lugar.
    Quando o mistério voltar,
    meu sono esteja tão solto,
    nem haja susto no mundo
    que possa me sustentar.

    Meia-noite, livro aberto.
    Mariposas e mosquitos
    pousam no texto incerto.
    Seria o branco da folha,
    luz que parece objeto?
    Quem sabe o cheiro do preto,
    que cai ali como um resto?
    Ou seria que os insetos
    descobriram parentesco
    com as letras do alfabeto?

    Sintonia para pressa e presságio

    Escrevia no espaço.
    Hoje, grafo no tempo,
    na pele, na palma, na pétala,
    luz do momento.
    Soo na dúvida que separa
    o silêncio de quem grita
    do escândalo que cala,
    no tempo, distância, praça,
    que a pausa, asa, leva
    para ir do percalço ao espasmo.

    Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
    eis que a luz se acendeu na casa
    e não cabe mais na sala.

    Não discuto

    não discuto
    com o destino
    o que pintar
    eu assino

    A lua no cinema

    A lua foi ao cinema,
    passava um filme engraçado,
    a história de uma estrela
    que não tinha namorado.

    Não tinha porque era apenas
    uma estrela bem pequena,
    dessas que, quando apagam,
    ninguém vai dizer, que pena!

    Era uma estrela sozinha,
    ninguém olhava pra ela,
    e toda a luz que ela tinha
    cabia numa janela.

    A lua ficou tão triste
    com aquela história de amor
    que até hoje a lua insiste:
    — Amanheça, por favor!

    Sem título

    Eu tão isósceles
    Você ângulo
    Hipóteses
    Sobre o meu tesão

    Teses sínteses
    Antíteses
    Vê bem onde pises
    Pode ser meu coração

  • bla bla bla

    ele nasceu em Curitiba e morou em varias cidades mas agora ele ja esta morto então

  • Tallita

    “Sem noção é quem tem a mente só voltada à criticar os demais, e esquece que é cheio de falhas também”
    Toda razão.
    Fofo da parte dela. Bacana da sua.
    Espero que ela continue a ler esses e tantos outros autores, e se possível, pesquisar um pouco sobre os mesmos. É interessante conhecê-los (escritores em geral) além de seus poemas e histórias também (não tô falando de fofocas ou coisas do tipo, obviamente). Enfim, o interesse alheio não é da minha conta.
    Até.

  • Ricardo da Mata

    Besteira, só gosta disso quem foi manipulado pelas universidades e não
    conhece poesia de verdade.

  • Ana Paula Louvisi

    Respiro poesia <3

  • Natan Damasceno

    “Amar você é coisas de minutos…” se lido do fim p/ o início é tão bom qnt se for lido do início p/ o fim! #LendoPoemasDeTrásPraFrente

    • Cintia

      Verdade Natan *-* obrigada

  • Thor Menkent

    Se estes são os quinze melhores poemas deste poeta, percebo que parte de seu reconhecimento deva ter vindo da política, e não da esplende capacidade de brincar com as palavras!

  • Daniela

    :)

  • =)

    Falo bonito ;)

  • Letícia Almeida

    O que quer dizer é um dos poemas mais lindos da vida! Leminski acaba comigo.

  • mislaine senem

    adorei poemas muito top!

  • ewertton

    gostei dos poemas

  • larissa

    adorei o da lua