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Os 10 melhores finais de livros da literatura universal

Dando sequência à série de melhores trechos de livros, pedimos aos leitores, colaboradores, seguidores do Twitter e Facebook que apontassem quais eram os melhores finais de livros da literatura universal. Dos 33 livros citados, selecionamos os 10 que obtiveram mais citações, são eles “Crime e Castigo” e “Notas do Subsolo”, de Fiódor Dostoiévski; “On The Road”, de Jack Kerouac; “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez; “1984”, de George Orwell; “A Espera dos Bárbaros”, de J. M. Coetzee; “Nada de Novo no Front”, de Erich Maria Remarque; “Lolita”, de Vladimir Nabokov; “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald, e “O Estrangeiro”, Albert Camus. Dois autores: Fiódor Dostoiévski e Gabriel García Márquez, que aparecem na lista atual, já apareceram na lista de melhores começos, publicada anteriormente. 

Nada de Novo no Front 
(Erich Maria Remarque)
“Estou muito tranquilo. Que venham os meses e os anos, não conseguirão tirar nada de mim, não podem tirar-me mais nada. Estou tão só e sem esperança que posso enfrentá-los sem medo. A vida, que me arrastou por todos estes anos,  eu ainda a tenho nas mãos e nos olhos. Se a venci, não sei. Mas enquanto existir dentro de mim — queira ou não esta força que em mim reside e que se chama “Eu” — ela procurará seu próprio caminho… Tombou morto em outubro de 1918, num dia tão tranquilo em toda a linha de frente, que o comunicado se limitou a uma frase: “Nada de novo no front”. Caiu de bruços, e ficou estendido, como se estivesse dormindo. Quando alguém o virou, viu-se que ele não devia ter sofrido muito. Tinha no rosto uma expressão tão serena,  que quase parecia estar satisfeito de ter terminado assim.”
On The Road
(Jack Kerouac)

“Assim, na América, quando o sol se põe, eu me sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e consigo sentir toda aquela terra crua e rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão, até a costa oeste, e a estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior? A estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria, reluzindo pela última vez antes da chegada da noite completa, que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia, e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice. Penso então em Dean Moriarty, penso no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos, penso em Dean Moriarty.”
A Espera dos Bárbaros
(J. M. Coetzee)

“No centro da praça, algumas crianças estão construindo um boneco de neve. Acerco-me, temendo assustá-las, mas tomado de uma inexplicável alegria. Não se assustam, estão ocupadas demais para sequer me notar. Terminaram o grande corpo redondo e, agora, estão fazendo uma bola para a cabeça! — Alguém tem de ir buscar as coisas para a boca, o nariz e os olhos — diz o menino que os lidera. Ocorre-me que o boneco de neve precisará de braços também, mas não interfiro. Colocaram a cabeça sobre os ombros e, com seixos, fazem os olhos, as orelhas, o nariz e a boca. Um deles o cobre com o boné. Não está mal o boneco. Não se trata da cena com que costumo sonhar. Como tantas outras vezes atualmente, deixo-os, sentindo-me tolo, como um homem que há muito se extraviou, mas que ainda insiste em seguir pela estrada que não o levará a parte alguma.”
Cem Anos de Solidão
(Gabriel García Márquez)
“Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra.”
1984
(George Orwell)
“Já não corria nem dava vivas. Estava de volta ao Ministério do Amor, tudo perdoado, a alma branca de neve. Estava na tribuna dos réus, confessando tudo, implicando todos. Ia andando pelo corredor de ladrilhos brancos, com a impressão de andar ao sol, acompanhado por um guarda armado. Por fim penetrava-lhe o crânio a bala tão esperada. Levantou a vista para o rosto enorme. Levou quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh mal-entendido cruel e desnecessário! Oh teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gin escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente vencida a batalha contra si mesmo. Amava o Grande Irmão.”
Lolita 
(Vladimir Nabokov)
“Nenhum de nós estará vivo quando o leitor abrir este livro. Mas, enquanto o sangue ainda pulsa nesta mão com que escrevo, você faz parte, como eu, da bendita matéria universal, e daqui posso te alcançar nas lonjuras do Alasca. Seja fiel a teu Dick. Não deixe que nenhum outro homem te toque. Não fale com estranhos. Espero que você ame teu bebê. Espero que seja um menino. Esse teu marido, assim espero, sempre te tratará bem, porque, se não, meu fantasma o atacará como uma nuvem de negra fumaça, como um gigante insano, e o destroçará nervo por nervo. E não tenha pena do C.Q. Era preciso escolher entre ele e o H.H., e era desejável que H.H. existisse pelo menos alguns meses a mais a fim de que você pudesse viver para sempre nas mentes das futuras gerações. Estou pensando em bisões extintos e anjos, no mistério dos pigmentos duradouros, nos sonetos proféticos, no refúgio da arte. Porque essa é a única imortalidade que você e eu podemos partilhar, minha Lolita.”
Notas do Subsolo
(Fiódor Dostoiévski)

“Deixem-nos sós, sem livros, e imediatamente ficaremos confusos, perdidos — não saberemos a quem nos unir, o que devemos apoiar; o que amar e o que odiar; o que respeitar e o que desprezar. Até mesmo nos é difícil ser gente — gente com seu próprio e verdadeiro corpo e sangue; sentimos vergonha disso, achamos que é um demérito e nos esforçamos para ser uma espécie inexistente de homens em geral. Somos natimortos, e há muito tempo nascemos não de pais vivos, e isso nos agrada cada vez mais. Estamos tomando gosto. Em breve vamos querer nascer da ideia, de algum modo. Mas basta, não quero mais escrever “do subsolo”… Entretanto, aqui não terminam as “notas” desse paradoxista. O autor não resistiu e prosseguiu com elas. Mas nós também pensamos que é possível terminar por aqui.”
Crime e Castigo
(Fiódor Dostoiévski)
“Ela esteve também comovida todo aquele dia e, à noite, voltou a ficar doente. Mas era feliz a tal ponto que quase a assustava a sua felicidade. Sete anos, só sete anos! No princípio da sua felicidade, houve alguns momentos em que tinham estado dispostos a considerar aqueles sete anos como sete dias. Ele nem sequer sabia que a vida nova não lhe seria dada gratuitamente, mas que ainda teria de comprá-la caro, pagar por ela uma grande façanha futura… Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, completamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa… mas a nossa presente narrativa termina aqui.”
O Grande Gatsby
(F. Scott Fitzgerald)

“E, quando lá me achava a meditar sobre o velho, desconhecido mundo, lembrei-me da surpresa de Gatsby, ao divisar pela primeira vez, a luz verde e existente na extremidade do ancoradouro de Daisy. Ele viera de longe, até aquele relvado azul, e seu sonho de ter-lhe parecido tão próximo, que dificilmente poderia deixar de alcança-lo. Não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as escuras campinas da república se estendiam sob a noite. Gatsby acreditou na luz verde, no orgiástico futuro, que ano após ano, se afastava de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços… E, uma bela manhã… E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.”
O Estrangeiro  
(Albert Camus)
“Pela primeira vez, em muito tempo, pensei em mamãe. Pareceu-me compreender por que, ao fim de uma vida, arranjaram um ‘noivo’, porque recomeçara. Lá, também lá, ao redor daquele asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma trégua melancólica. Tão perto da morte, mamãe deve ter-se sentido liberada e pronta a reviver tudo. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me senti pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.”
  • Leila Manttovanni

    Essas escolhas sempre surpreendem e decepcionam.
    Óbvio que dificilmente o meu cânone será o mesmo de outrem, mas
    Não posso deixar de registrar minha decepção em não ver o Paraiso Perdido de
    Milton nos textos relacionados. Um dos mais bem escritos e mais bem construidos.
    Deixo o registro aqui, para quem quiser ler ou reler, a beleza e a emoção da “possibilidade” sentida pela primeira vez entre os humanos.

  • Robert

    Faltou Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

  • Ricardo

    Quando vi o titulo do post pensei: listas sempre são incompletas, é lógico que vão esquecer do melhor, afinal Macondo sumiu do mapa…
    Que delícia estar errado! As cinco últimas páginas de “Cem Anos de Solidão” é a melhor coisa que já li.

  • Maria Alice Henne

    Para mim está faltando o final do livro A Tregua de Mario Benedetti

  • Leonel Julio Farah

    Não acredito que o final de “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, não entrou nesta lista.

  • Leonel Julio Farah

    Não acredito que o final de “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, não entrou nesta lista.

  • Sueli Madeira

    Como é possível não estarem na lista “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, ambos de Machado de Assis ? São finais esplêndidos!

  • Leandro

    Nabokov também estava na lista de melhores inícios.

    • Danilo del Monte

      E GG Márquez também.
      Ambos com o mesmo livro, não?

  • diogo henrique

    alem dos livros citados abaixo. e o final surpreendente de joão batista grenouille em Perfume. de Patrick Suskind?

  • Luiz Ricardo Linch

    Aqui vai o favorito dos que me lembro:

    “Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não ia ela também para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor no meio das trevas, fera cega e surda, indômita, rodava, atulhada dessa carne para canhão, desses soldados já estupidificados de fadiga e embriagados, que cantavam.”
    Émile Zola, “A Besta Humana”

    Eu me sinto como um desses soldados, para mim é o retrato perfeito da modernidade.

  • João

    O final de Crime e Castigo é tããão pior que o resto do livro…

    • Serj Delunes

      Crime e Castigo é muito bom, por sinal Dostoiévski é sensacional, quem não têm capacidade de ler vai achar ruim mesmo.

  • josluizsarmento

    E o fim de “Moby-Dick”?

    • M Gabriel Santos

      Infelizmente são poucos os espíritos sensíveis leitores de Moby Dick… O maravilhoso final do livro não apareceria em qualquer lista hehehehe

    • Gabriel Pinheiro Gois

      Realmente, taí um final que apenas os de temperamento mais sensível e observador são capazes de contemplar em sua magnitude.

  • Ana

    Adorei o final do livro de Susana Tamaro “vai onde te leva o coração”

    “E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não te metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te e vai para onde ele te levar.”

  • Anderson Araújo

    O final de Dona Flor e seus dois maridos é sensacional também.

  • Gabriel Pinheiro Gois

    Realmente, o final de “O Estrangeiro” é ao mesmo tempo aterrador e libertador por sua exposição dura da condição humana perante à indiferença cósmica e a ausência de sentido em tudo isso que chamamos de vida. Não atoa, essa é uma daquelas obras cuja releitura faz-se necessária em diversos momentos da vida.

  • walkiria

    Gente, cadê o final do ULISSES do James Joyce????????????????É o final mais curtido de todos os tempos.

  • Marcela Sant’anna

    faltou O apanhador no campo de centeio…

  • eryk

    Cara o final de HP é bom para caramba, mas não é épico quanto esses. E aliás o final de HP já estava na cara!

  • Leonardo Paiva

    Memórias Póstumas e Dom Casmurro mereciam estar nessa lista.

  • evandro

    Gabriel Garcia Márquez deveria ter dois lugares nessa lista: “Cem anos de solidão” e “Ninguém escreve ao coronel”.

    Finais fantásticos

    • Fernanda Cedraz

      O final de “Ninguém escreve ao Coronel” realmente deveria estar na lista! Sensacional!

  • Maria, Marta ou Eva, Tanto Faz

    Nem uma mulher, esta
    revista e seus adeptos parecem sofrer do grande mal… Uma grande pena que mais
    de metade da humanidade não tenha escrito nada que lhes tocasse (nem começado nem
    terminado um romance com brilho)… Mas fica-me a esperança que escrevesse o
    resto do livro com grande brilho. Ela. Porque às vezes o brilho escondido é o
    que mais alumia e fala e diz… Mas se calhar os júris nem abriram o livro porque
    era dela. Há pouco foram os “10 melhores poemas brasileiros de todos os tempos”…
    Todos deles. E agora a repetição dessa pobreza que só pode vir de uma grande má
    informação e falta de consciencialização, de consciência, de visão, de abertura
    sem pressuposição. Ele apagando tudo que ela escreve e tem escrito ao longo dos
    séculos porque eles e elas apagam-na sem grande cerimonial, ou sem um olho mais
    inquisidor que desvendaria montes e montes de camadas sedimentadas nos vários planos
    desta nossa sociedade que continua dormindo. Continua dormindo apesar de
    cantarmos liberdade e igualdade e de termos ao nosso dispor tanta e tanta informação,
    tanto e tanto livro. Uma grave pobreza. Fosse eu rainha e tivesse de facto vara
    de condão, ainda havia de mandar um grave dilúvio para lavar, lavar pedras e
    pontes, e depois no fim, dentro da água brilhante e movediça, tomar uma banho e
    sentir que o mundo estava a nascer. Haveria de sorrir então e dar gargalhadas
    cristalinas como quando era menina e tudo, tudo me parecia possível, porque as
    minhas células ainda estavam limpas. Limpas.

  • João

    Eu gosto do final de “Eurico, o Presbítero” do Alexandre Herculano… em uma página o mocinho se deixa matar pelo bandido, o vilão se dá bem e a mocinha tem um surto psicótico e acaba louca. Fim!!!

  • Emmanuel Pedro

    A Revolução dos Bichos – G. Owell???

  • Victor

    Seguindo a ordem indicada de capítulos pelo escritor, Cortázar faz um final absurdamente brilhante em “O jogo da amarelinha”!

  • Esther Alcântara

    A lista é ótima, mas, claro, seria impossível listar todos os grandes finais! Um final que me lembro de ter me tocado muito foi o de “Os trabalhadores do mar”, de Victor Hugo. É um dos finais mais lindos que já li – fica a sugestão! Esse também é um dos livros que mais amo da literatura universal. E leio bastante, embora tenha tanto a ler ainda que queria ter muitas vidas para isso.

  • Sani Gimenez

    O final do Estrangeiro é magnifico, aliás o livro todo. Mas quero citar aqui dois livros que tem finais lindíssimos são: O amor nos tempos do cólera de Gabriel Garcia Marques e o final do livro Todos os homens são mortais de Simone de Beauvoir.

  • Luiz Ricardo Linch

    Ana Paula, que texto incrível!
    Ainda não li esse livro, mas a qualidade literária de Zola é estonteante!

  • Douglas Rodrigues

    Apesar do desfecho do meu livro favorito constar na lista [Lolita], senti e confesso a falta da conclusão do clássico de Victor Hugo, “Os Trabalhadores do Mar”. Final arrasador.

  • Max

    O final de “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley é muito foda!!!

    “O Perfume” de Patrick Suskind, é um excelente final! E votaria fácil como top 10 dos melhores começos de livros!! :)

  • João Victor ‘Snaga’

    Nâo se arrependerá!

  • Tíci David

    O final de Cem Anos de Solidão é mágico…assim
    como tudo o que o antecede, aliás. Terminei de ler Lolita ontem e o final foi o desfecho perfeito, não tinha como imaginar outro, de qualquer forma.