Cantada não é elogio, é assédio

Cantada não é elogio, é assédio

Quando eu tinha 14 anos, ia a pé para a aula de piano. O percurso da minha casa até a escola de música tinha quatro quarteirões. Um dia, passei em frente a uma construção que estava começando e os homens que trabalhavam nela gritaram coisas estranhas para mim. Levei um susto danado. Na outra semana, o episódio se repetiu. Com medo, passei a ir de ônibus para as aulas: andava três quarteirões para o sentido oposto ao da escola e pegava o ônibus; então descia no próximo ponto, que era cinco quarteirões depois da escola (ou seja, passei a andar oito quarteirões).

Uma vez, quando eu já estava na faculdade, um ciclista subiu na calçada onde eu caminhava e veio direto na minha direção. Eu usava roupas de ginástica com uma camiseta por cima. Naqueles milésimos de segundo em que pensei que seria assaltada (ou atropelada), tudo o que o cara fez foi passar a mão na minha bunda!

Quando iniciei a prática da medicina, um paciente me disse: “Posso pedir uma coisa pra Doutora, com todo respeito, é claro?”. Achei estranho o pedido, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele continuou: “A Doutora poderia tirar o jaleco?”. Tomada de susto e surpresa desagradáveis, emudeci. Aquele homem, bem mais velho do que eu, me pedia algo esquisito enquanto olhava pro meu corpo. “Tudo bem, não precisa ficar sem graça, só queria saber como você é sem o avental branco” — com o tom mais natural do mundo, ele disse ao sair do consultório.

Outro dia, li uma notícia sobre o assédio sexual que uma moça sofreu em seu trabalho. Vira e mexe, leio ou ouço histórias de mulheres que apanham dos maridos, mas mesmo assim não os denunciam. Recentemente, recebi um vídeo feito pelas alunas da Engenharia Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo: elas gravaram frases de cunho machista que ouvem no ambiente universitário. Em entrevista, uma delas disse que “ser mulher dentro da Poli é uma resistência diária”. As moças, além de precisarem provar o tempo todo que são capazes de tirar boas notas, assim como os rapazes, enfrentam preconceito por serem mulheres dentro de um ambiente historicamente masculino.

Este vídeo me lembrou daquele episódio em que o paciente me pediu para tirar o jaleco. Hoje sei que minha mudez foi devido ao constrangimento que senti. Em muitas situações de assédio ou cantadas baratas, as mulheres se calam porque ficam envergonhadas ou porque são tomadas de susto e ainda não sabem o que dizer; outras, porque têm medo ou sentem insegurança de impor o respeito que merecem.

Mas nunca é tarde para expor a nossa indignação quanto ao abuso verbal ou velado que sofremos de alguns homens. Digo “alguns” porque sei que não são todos os homens que desrespeitam as mulheres. Meu avô materno, que era um homem humilde da roça, teve três filhos e sete filhas. Minha mãe conta que ele sempre incentivou as mulheres a terem os mesmos direitos e deveres que os irmãos delas; vovô fez questão de que todos os dez fizessem faculdade e tivessem a carreira profissional que escolhessem. Minha tia mais velha se formou médica na década de 1960, uma época em que as faculdades de medicina ainda eram frequentadas em sua maioria por homens.

Cantada não é elogio, é assédio. As ocasiões em que me senti coagida ou submetida a humilhações de cunho sexual constatam que ainda há homens que não entenderam que nós, mulheres, não gostamos de olhares constrangedores para nossos peitos e nossas bundas, não queremos ser enxergadas como o “sexo frágil” e detestamos ouvir gritos como “ô gostosa!” ou “delícia!” quando eles fazem parte de cantadas baratas e flertes não correspondidos.

Me respeitem! Ninguém tem o direito de me constranger!

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