As 10 melhores canções de Tom Jobim

As 10 melhores canções de Tom Jobim

A falta de cultura assassina os gênios, alavanca os medíocres. Enquanto nação, ainda gatinhamos naquela fase da história em que prevalecem a “extroversão inata” (um excesso de alegria e bom humor que beira as raias da oligofrenia), a fé religiosa intocável que tudo explica (a não ser, a própria burrice) e a ignorância aberrante (falta de educação e cultura). O Brasil é um jovem país. Quem sabe, seremos conduzidos pelos próprios calcanhares ao status de nação desenvolvida, decorridas inúmeras décadas, a contar de hoje, a partir de agora, no exato instante em que cato letrinhas no teclado deste computador. Nossos esqueletos sorridentes haverão de testemunhar essa condição num futuro longínquo, a não ser que, até lá, o Oceano Atlântico já tenha feito o favor de engolir as terras de Santa Cruz com tsunamis de água fria.

Dizem que a voz do povo é a voz de Deus. Será? Pra início de conversa, há quem duvide que Deus exista (adendo dispensável: nunca convide ateus para convescotes. São amargos demais. São pragmáticos demais. Comem de forma comedida demais. Querem dividir a conta sempre em partes iguais. Pior de tudo, acreditam nas lorotas dos garçons, mas não acreditam em Deus. Uns chatos é o que eles são…). Discordo quando alguém diz que Tom Jobim foi um cantor popular. Não. Nem de perto, foi como Roberto, Wando e Sidney Magal. Essa turma fez sucesso estrondoso. Dizer o quê? Aliás, a voz do Tom não era lá essas coisas. Acontece que ele sacava de música como poucos, a ponto de ser chamado pelos seus pares de “maestro soberano”.

Apesar da obra musical vasta, de qualidade incontestável; apesar da competência reconhecida no mundo inteiro por críticos, colegas de ofício e leigos que amam a boa música que se produz no planeta; apesar de ter composto com o parceiro Vinicius a famosa “Garota de Ipanema” (a canção brasileira mais conhecida pelos gringos, ao lado da “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso e “Ai, se eu te Pego”, versão de Michel Teló); apesar de eu estar zoando com vocês, por puro divertimento; apesar de ter sido tema do samba enredo da Mangueira no Carnaval de 1992 no Rio; apesar de todas esses quesitos, para o grande público, Tom não passava (e não passa) de Antônio, ou seja, um ilustre desconhecido.

Abastado desde o parto, deitado eternamente em berço esplêndido, mais rechonchudo e ocioso que um malabarista com crise de ciático, o fleumático editor da Revista Bula incumbiu-me de realizar outra pesquisa entre os leitores. Logo, por medo de levar cinquenta chibatadas na lomba, valendo-me do artifício das redes sociais, requisitei aos leitores que citassem a melhor canção já composta por Tom Jobim. Ninguém aqui pediu ensaio acadêmico ou defesa de tese. Ok, chatos de plantão? Não posso mentir: alguns energúmenos perguntaram-me quem era esse-tal-de-Tom-Jobim; outros, pior ainda, tiveram o descalabro de admitir que não gostavam de nada que ele tivesse composto ao longo de 90 anos de vida. Puta heresia.

A Revista Bula está mal de leitores? Penso que não. Tem muita gente nas redes sociais que só lê os títulos. São especialistas em “primeiros parágrafos”. A isso chamo ansiedade tecnológica ou preguiça mental. Há muita asnice na seara virtual. Nunca antes na história da internet, os imbecis se sentiram tão indispensáveis ao futuro da humanidade e à integridade da camada de ozônio. Pra mim, fedem à merda.

(Segundo adendo dispensável: sim, ando nervosinho à-toa, ultimamente. Não. Não é por falta de boceta. Ontem mesmo comprei uma, caríssima, na Feira de Antiguidades do Bairro de Pinheiros, em São Paulo. De acordo com o vendedor, o raro apetrecho de guardar brincos, joias e colares teria pertencido à Marquesa de Santos. Que se dane a marquesa. Que se dane o vendedor, aquele mentiroso. Que se dane a verdade. Sou um reles colecionador de inutilidades, como chicletes mascados por celebridades e pentes para pentear macacos.)

Mas, não vim aqui para falar dos meus tiques e chiliques, dos meus vícios e manias. Prossigamos com esse preâmbulo, pois, ele já me atazana além da conta. Antes de mais nada, é bom que vocês saibam: “Garota de Ipanema”, a mais óbvia canção do Tom, não ficou entre as escolhidas. Não foi culpa minha, mas, achei bem justo. Tem inúmeras composições mais relevantes jorrando da fonte da qual ela proveio. Durante o escrutínio dos votos (escrutínio… adoro essa palavra… me faz lembrar de escroto, de cretino… tá cheio de cretinos por aí, não é mesmo?), lendo alguns artigos, pesquisando sobre o maestro soberano, finalmente, compreendi por que ele é maior que João Gilberto. Espero que respeitem o meu ponto de vista, ao menos uma vez. João, o ranheta, criou a batida perfeita, foi um porta voz de luxo, disseminou a bossa nova pelo mundo com um banquinho e um violão. Conhecedor profundo da música, Tom criou verdadeiras obras-primas, turbinado pelo sucesso colossal da bossa. Impossível identificar uma única composição que não tenha qualidade. Além do mais, Tom possuía carisma, aquele jeito carioca de enxergar o mundo com suavidade e malemolência. Fico com o Tom. Não bastasse tudo isso, o sujeito gravou com Sinatra. That’s amazing!

Portanto, de acordo com a preferência dos leitores da Revista Bula, um pessoal com gosto musical acima da média nacional, ficou assim a lista das “10 Melhores Canções de Tom Jobim”. Seria incrível se ele estivesse vivo, sentado agora à minha frente, passando os dedos esquálidos entre os cabelos lisos, brancos, bonitos. Eu penso que lhe serviria uma dose de uísque, acenderia o seu charuto e confessaria, embasbacado, que a sua canção de que mais gosto é “Tema de amor de Gabriela”. Mas isso não importa, certo? Vamos, enfim, à lista que, de definitiva, só tem o meu amor e admiração ao brasileiro Antônio Carlos Jobim.