Confesso, sem nenhum resquício de vergonha, li Dan Brown e gostei

Confesso, sem nenhum resquício de vergonha, li Dan Brown e gostei

O que “O Código da Vinci” tem a nos ensinar, em termos de literatura? Uma comparação entre Dan Brow e Jorge Luis Borges pode ajudar a compreender as principais qualidades de um best-seller bem escrito

Este pequeno ensaio resulta de uma tentação, talvez de uma heresia: comparar um best-seller, “O Código da Vinci”, de Dan Brown, a um conto da alta literatura, “A Morte a Bússola”, de Jorge Luis Borges. Borges, por convicção, se vale da economia do conto; Brown, da prolixidade romanesca, e aqui termina a diferença mais óbvia. Quanto às semelhanças, um e outro intrigam a religião (Borges o judaísmo, Brown o cristianismo); um e outro partilham o gosto pela trama policial, possuem notável erudição e escrevem histórias fantásticas: a certa altura o protagonista de “O Código”, Robert Langdon, propõe que “a alegoria religiosa tornou-se parte do tecido da realidade”. Indiscutível.

Dan Brown é um escritor talentoso, apesar de recriminado pelo uso de inegáveis fórmulas mercadológicas. O gênero que escolheu o requer. Mas certamente o escritor norte-americano está muito rico para se importar com tais censuras.

A questão é séria: ele mesmo poderia perguntar, com razão, que arte não se baseia em “fórmulas”, ou antes em técnicas. Toda ela se baseia. O que é a literatura pós-Joyce senão, em termos significativos, uma vasta sociedade de epígonos de Joyce? Brown poderia ainda ser acusado por concessões ao senso comum, e receio que mesmo essa acusação seja insatisfatória, uma vez que “O Código da Vinci” abunda, em função daquele eruditismo, inegáveis e complexos conhecimentos histórico-artístico-culturais. Chega a ser mais labiríntico do que o conto de Borges. Não é exatamente um livro fácil, à maneira de outro sucesso editorial recente, “Cinquenta Tons de Cinza”, da também inglesa E.L. James.

James, sim, condiz com a ideia que fazemos do best-seller, pois escreveu um livro francamente ruim, apesar do apelo sexual. Já Dan Brown descreve e narra com mais qualidade, além de (também) abordar o sexo, porém sob aspectos conceituais, como o ritualístico Hieros Gamos. Pornográfica é, talvez, a suposta mentira promovida pela Igreja de Pedro, segundo a “lenda” do Santo Graal.

Ficções, de Jorge Luis Borges: religião, trama policial e erudição

Se o roteiro de “O Código da Vinci” é simples — uma noite e uma manhã, em Paris e Londres, em cinco ou seis locais distintos — o enredo é complexo, constituindo a principal qualidade do livro, e provavelmente do autor. É inteiramente baseado no confronto entre os interesses de uma sociedade secreta e os interesses da Igreja Católica. Há mortes, a polícia francesa intervém e requer, de Brown, a criação de dois extraordinários simbologistas, Robert Langdon e Sophie Neuve. Sophie revelar-se-á ao leitores e a si mesma como a peça-chave da trama, toda ela baseada no polêmico papel da mulher na história do cristianismo, tema de inegável interesse para leitores requintados.

A história da Igreja católica é a história da dominação masculina, que a Reforma liberal, ao invés de combater, apenas recrudesceu. Tendo a mulher lançado o homem no pecado, segundo o mito de Eva, não custaria para que a Igreja fizesse dela um bode expiatório e se propusesse a puni-la. Decorre daí, entre outras consequências, a perseguição às bruxas na Idade Média e a defesa intransigente da virgindade (símbolo de pureza, em oposição ao sexo), seja de Maria, de Cristo ou dos crentes. Portanto, a comprovação de que Jesus tivera uma família destruiria o principal fundamento da fé cristã, uma vez que jogaria por terra a divindade de Cristo, confirmada pelo Concílio de Niceia (século 4 d.C.). Ao negar a sexualidade a Jesus, a Igreja incutiu a noção de que o sexo (portanto a impureza) não condiz com o conceito que seus fieis devem fazer do Messias.

O Priorado de Sião discorda desta tese e torna-se o inimigo número um da Igreja e de sua doutrina. Seus membros guardariam provas de que Jesus não se absteve da prática sexual, deixando inclusive descendentes, em concordância com certos evangelhos apócrifos. Ao contrário do que defendera Santo Atanásio, em Niceia, Jesus não seria divino coisa nenhuma. Ário, seu opositor, não acreditava na coincidência substancial entre Javé e seu profeta. Em seu conceito havia apenas “Jesus”, o indivíduo histórico, e não “Cristo”, Deus encarnado (sigo, aqui, a distinção teológica feita por Leonardo Boff, no livro “Jesus Cristo Libertador”). As provas dessa humanidade do galileu constituiriam o lendário Santo Graal, coletânea de documentos segundo as quais Jesus não apenas provém de uma linhagem real (a Casa de Davi) como deu-lhe sequência, unindo-se a outra descendente da nobreza: Maria Madalena, da Casa de Benjamim.

O objetivo dos personagens de “O Código da Vinci” é, então, localizar o Graal: o Priorado com a intenção de perpetuá-lo, a Igreja com a intenção de destruí-lo.

Para combater o Priorado, Dan Brown põe em cena o Opus Dei, talvez a mais rica, influente e conservadora prelazia do Vaticano. A entidade será responsável por uma série de assassinatos cujo objetivo é conservar o dogma oficial. Por trás de suas ações está Manuel Aringarosa, cuja intenção é sagrar-se Papa e resgatar a Igreja dos inconvenientes do relativismo moral. Os crimes contra elementos-chaves do Priorado são cometidos por um encarregado de Aringarosa, o numerário albino Silas, um fanático criado pelo cardeal norte-americano desde a adolescência. O antípoda de Silas, senão do próprio Aringarosa, é o historiador britânico Leigh Teabing, desejoso de revelar o segredo ao mundo e desferir o ataque mais contundentes contra a Santa Sé, algo que deixaria o atentado às Torres Gêmeas nos chinelos.

Jacques Saunière, curador do Louvre morto na cena de abertura do romance, era o último grão-mestre vivo, do Priorado. A suposta descendente viva de Jesus é sua neta Sophie Neuve, ou seja, a auxiliar de Langdon é a principal “peça” do Graal, além de criptografa da polícia francesa. A segunda tarefa que lhe cabe, no romance, é colaborar com o historiador de Harvard, especializado em símbolos sagrados. O que vem a se chamar “Código da Vinci” é só um conjunto desses símbolos e monogramas (em geral escondidos em obras de arte), que indicam onde se localiza aquela coletânea de documentos segundo as quais Jesus provém de uma linhagem real e lhe deu sequência, através do conúbio com Madalena. Langdon e Sophie acabam se tornado os únicos fiadores deste segredo, uma vez que Silas matou cada um dos quatro grão-mestres da fraternidade — o último dos quais Saunière.

“A Morte e a Bússola”, de Borges, não é uma peça tão rica em simbolismos quanto “O Código da Vinci”. Trata-se de uma vingança pessoal, tema muito comum na obra do autor argentino, aficionado por crimes de província e bandoleiros.

Conto de inspiração policial (Poe é implicitamente citado), os personagens principais são o detetive Erik Lönnroth e o gângster Red Scarlach. Scarlach igualmente se vale de símbolos e mitos — no caso, judaicos — para arquitetar uma farsa com o propósito de matar o policial que prendera seu irmão. Chegamos a pensar numa conspiração antissemita que, de fato, não existe. Trata-se de jogo, de mero artifício pelo qual o cético Jorge Luis Borges procura encerrar aquela vingança prosaica. A mensagem cifrada que o escritor pretendeu passar é puramente literária, segundo Harold Bloom: “Como todos os contos de Borges, a história de Lönnroth e Scarlach é uma parábola, que demonstra que ler é sempre uma espécie de reescrever. Scarlach controla sutilmente a leitura por Lönnroth das pistas que ele fornece, e assim antecipa as revisões interpretativas do detetive”. (ver “O Cânone Ocidental”).

Uma comparação entre Dan Brow e Jorge Luis Borges pode ajudar a compreender as principais qualidades de um best-seller bem escrito

Ou seja: é como se a prática literária presumisse uma brincadeira entre o escritor e o leitor, onde um procurasse influenciar as conclusões do outro. O universo mental borgesiano é circular e gira em torno dos processos de interpretação textuais, resultando em novas peças de ficção que, no fundo, seriam variações de um mesmo tema que retroalimentam outras ficções, até o infinito. Não se descobre em “O Código da Vinci” uma intenção literária, puramente estética, semelhante a esta: Dan Brown não liga para questões dessa natureza e não escreve parábolas. Ao contrário do que acontece em “A Morte e a Bússola”, sujeito a múltiplas interpretações, romances como “O Código da Vinci” não se baseiam em preocupações metaliterárias, o que os empobrece do ponto de vista artístico. Não diz uma coisa querendo dizer outra.

É irônico que num romance repleto de símbolos, como o de Brown, figuras de linguagem vitais em literatura, como a metáfora e a metonímia, sejam indiferentes, por simples pragmatismo do autor. Borges, de sua parte, permanece aberto a novas interpretações, sob finas camadas tropológicas.

Falei em gosto pela trama policial para me referir às duas obras. Na verdade, em “O Código da Vinci” esse aspecto é importante, mas tão secundário quanto o inspetor Bezu Fache o é, para o sucesso da trama. Porque a questão principal não é responder quem matou Jacques Saunière, e sim descobrir qual o segredo que o curador assassinado guardava. É por essa razão que o protagonista não é o policial, e sim um simbologista. Brown nem de perto possui a originalidade de Poe: embora pareça ser muito mais imaginativo que o autor de “Os Assassinatos da Rua Morgue”, as bases de sua criação são fontes históricas reais. O livro de Brown é quase uma defesa de caráter historiográfico ao culto da deusa. Em “A Morte e a Bússola”, no entanto, o aspecto policial é o mais relevante, como nos contos tradicionais do gênero. A questão “quem matou?” continua primordial, e a história contada é pura invenção: trata-se, realmente, de uma “parábola”.

Importa dizer que as peripécias dedutivas do gênero policial demandam o frio raciocínio lógico, não a emoção (no máximo, a tensão). Isso torna “O Código da Vinci” infinitamente menos “chato do que os intrincados (e até perturbadores) solilóquios que servem à alta literatura de um Faulkner ou de um Philip Roth. Borges se aproveita inteiramente dessa qualidade fria e racional do gênero policial, tanto quanto Brown. Aliado a esta antipatia pela reflexividade psicológica, conta também em favor do último a ênfase em técnicas de efeito garantido sobre o leitor: além do suspense (cada capítulo encerra uma surpresa), há também a descrição quase sempre primorosa de ambientes e pessoas, dignas dos melhores escritores realistas. Na dúvida, confira-se este exemplo: “Langdon virou-se, vendo uma jovem se aproximar. Percorria o corredor na direção deles com passadas largas e fluídas… Uma certeza perturbadora no andar. Vestida com simplicidade, com um suéter irlandês cor de creme até os joelhos sobre calças colantes de malha preta, era atraente e parecia ter mais ou menos 35 anos. Os cabelos espessos de um ruivo escuro caiam soltos até os ombros, emoldurando seu rosto corado. Ao contrário daquelas loiras pálidas e magricelas que enfeitavam as paredes dos dormitórios de Harvard, parecendo ter saído todas da mesma fôrma, essa mulher tinha um aura saudável, com uma beleza que dispensava adornos e uma autenticidade que irradiava uma segurança notável”. (tradução de Celina Cavalcante Falck-Cook).

Pensei, ao ler Dan Brown, que pudesse me deparar com personagens mal ajambrados do ponto de vista moral e psicológico, domínios por excelência da alta literatura. Talvez tenha me acostumado ao parecer negativo dos comentaristas, a respeito de best-seller’s, e feito generalizações antes de ler. Ou seja: eu fora estimulado a criar um preconceito. Mas a verdade é que há veracidade em cada um dos tipos que Brown põe em ação. Têm, ao lado dos acontecimentos que os enredam de maneira objetiva, uma subjetividade estruturada, por certo mais convincente do que a frouxidão psicológica perceptível no romance de evasão aludido, “Cinquenta Tons”. O que não há, em Brown, é introspecção psicológica, tendência marcante do romance pós Proust, Joyce e Wolf.

O Código da Vinci, de Dan Brown: um autor cheio de suspense e divertido.

Os personagens de Brown existem em função do mistério que os envolve, e não o contrário. Para eles os acontecimentos exteriores são mais importantes do que os dramas pessoais: o que é defeito grave na perspectiva da alta literatura determina o sucesso de um livro feito para o consumo de leitores medianos, aos quais repugna a complexidade íntima.

A conclusão parece óbvia: o mais importante para Brown não é aquela vida interior dos personagens, e sim suas peripécias no mundo, recuperando, quem sabe, a espécie de aventureirismo que agradava aos leitores de um Walter Scott (outro best-seller). O que é arriscado num romance, porém, parece aceitável num conto: Borges efetivamente não tem espaço para adensar as tintas sobre as personalidades de Lönnroth e Scarlach. O contista, com sua autoridade insuspeita, prestigia o acontecimento tanto quanto Brown, o que prova outra coisa, de importância didática: que a literatura não é um terreno óbvio, mas constituído de gradações sutis.

Descobrir o intervalo entre o bom e o ruim não é tão fácil quanto se acredita. Entre a literatura erudita e a literatura popular há muitos meio-tons, um dos quais a história policial, que gerou maus escritores e escritores de qualidade. O argentino é um caso exemplar de boa literatura derivada de um gênero fácil e popularmente digerível. Sabemos que Edgar Allan Poe nunca foi unanimidade no meio dos críticos, mas o respeito de pesos-pesados como Baudelaire, Fernando Pessoa, Machado de Assis e do próprio Borges bastou para deixar os acadêmicos numa saia-justa. Autores de ficção científica, como H.G.Wells e Aldous Huxley, granjearam prestígio semelhante.

Não se discute, aqui, a quantidade de interesses ideológicos (muitas vezes inconscientes) por trás de grupos e instituições de legitimação. Inclusive dos que se escoram em técnicas pretensamente científicas para determinar o gosto comum. Quem disse que os “especialistas” não acabam construindo seus próprios mitos de inclusão e exclusão? Quem disse que a crítica, enquanto metatexto, não entranha juízos subjetivos sob o verniz de ciência? Ela é que diz, por nós, que um livro como “O Código da Vinci” não tem real valor literário, baseada certamente na autoridade da tradição e dos cânones. Em termos muito seguros ela tem razão. Uma das três coisas que “O Código da Vinci” teria a nos ensinar já foi superado, há muito: o enredo. Mas conciliar qualidade com sucesso é um enorme desafio e requer mais coisas, que podem ser encontradas neste livro.

Ao invés de condená-lo, o mais importante é identificar outros elementos primordiais que Brown utiliza, a fim de prender a atenção dos leitores. Afinal, com ou sem enredo, a surpresa (da qual Ian Mac Ewan é outro exímio manipulador) não tem prazo de validade. Já o divertimento não pode ser o pecado mortal da literatura.

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