Neste natal, dê presentes que o dinheiro não pode comprar

Neste natal, dê presentes que o dinheiro não pode comprar

Coloque comida na boca de um adulto. Sorria para elevadores dentro de estranhos. Distribua os seus preciosos “Bom dia!” aos cavalos. Cavalgue de novo os sonhos alados da sua juventude. Escute as histórias que um homem velho tem pra contar. Cuide bem da sua saúde: perdoe um malfeitor. Desça da sua Land Rover e doe um pouco de sangue azul para quem anda enxergando a vida em preto-e-branco. Depressão não é frescura: ofereça uma pouco mais de calor humano a quem se sente invisível. Retribua afeto ao filho homo-afetivo que você está renegando. Faça as pazes com o perdedor que chora baixinho dentro de você. Falhas acontecem: tente outra vez. Leia Drummond para os cegos de ódio. Convença um suicida potencial a adquirir um plano de previdência privada. Por caridade, dê banho n’alguém com quem não queira fazer sexo. Passe batom vermelho nos lábios quentes de uma paciente em coma. Seja o primeiro a chegar para o último suspiro de um ente querido em estado terminal. Vista um morto.

Se a artrose assim o permitir, dance com a sua vó. Visite uma velha coroca que mora só. Se vir minha irmã por aí, diga-lhe que ainda a amo, pois ela ordenou que eu a esquecesse, mas tenho uma memória afetiva lamentavelmente teimosa. Permita que inimigos chorem no seu ombro amigo. Caia no ridículo, vista-se de palhaço para as crianças do hospital do câncer. Nunca mais bata nos seus filhos. Pelo amor de Deus, ouça ao apelo de um ateu resoluto: não compre um IPhone para o seu bebê (brinque com ele à moda antiga). Coloque um livro dentro dessa sua cesta básica. Doe castanhas, mas, doe também poesia. Sei que é difícil (eu mesmo nunca fiz isso), porém, abrace um fiscal antes que ele lhe aplique uma multa.

O ano está acabando, o texto também, comece logo a pensar fora do quadrado. Gaste menos dinheiro. Dê mais crédito a quem está em débito com você. Aceite a loucura como o último recurso de uma mente frágil. Plante uma árvore (você um dia poderá precisar dela para conversar ou se enforcar). Não espere pelos garis da inoperante prefeitura deste município: recolha você mesmo o lixo do parque. Não pise nas pessoas; antes, pise na grana. Pare com essa mania de mandar alguém entregar a ele uma marmita: desça, converse, conheça o porteiro do prédio. Convença o seu vizinho a colecionar selos ao invés de criar de passarinhos em gaiolas. Ame um desconhecido pra valer: jamais lhe dê esmolas. Tome um café com um desesperado. Ofereça um emprego. Adote um garoto negro. Faça cabelo-e-barba do maluco da praça. Se beber, não bata em mulheres. Chame uma puta pelo nome de batismo. Goze a vida de maneira simples. Prefira ir a pé. Durante os fogos, pense em Aleppo. Atropele uma turba de terroristas com seu caminhão carregado de amor. Não insista: fofo é você, eu sou apenas um escritor.

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