O que o Parkinson e a força de minha avó me ensinaram sobre a vida

O que o Parkinson e a força de minha avó me ensinaram sobre a vida

“Meus cadernos de poesia, por favor.” Todas as manhãs, em mantra diário, minha avó faz o pedido à minha tia. Lorna cumpre o ritual. Busca os escritos, os coloca sobre o colo de minha avó e a ajuda a folhear as páginas amareladas preenchidas à mão com versos de Drummond, Augusto dos Anjos, Casimiro de Abreu… algumas vezes recitam juntas, em emoção pujante, a genialidade das rimas que clareiam a alma. Outras tantas, apenas silêncio. Minha avó olha os cadernos, certifica-se de que estão em bom estado e se acalma na certeza de que ali, em folhas empoeiradas, permanece intacta a ponte que a liga a um passado menos duro que os dias atuais. Sem conseguir escrever mais, ela respira um pouco de saudade, revive um pouco de beleza.

Há duas maneiras de se encarar o fim. Uma é morrendo. A outra é recusando a primeira. Minha avó escolheu a recusa e tem bancado a escolha. Há 20 anos minha família se viu obrigada a conviver com a palavra “degeneração”. A nós, no entanto, foi destinada a parcela menos severa do problema. Minha avó foi forçada a aceitar a convivência de fato dolorosa. E aceitou. Não se trata de resignação. Esse termo não combina com quem resolveu lutar todos os dias pela vida, como se esta ainda fosse uma opção divertida. Mas até em gente assim, que consegue animar a mente enquanto o corpo dá adeus, o Parkinson é avassalador.

O mundo, então, começou a tremer. Cortar a carne, segurar o copo, abotoar a camisa… as tarefas mais triviais foram interrompidas. Tudo começou a cair. Os objetos das mãos, o corpo diante do primeiro obstáculo mais rígido que seus movimentos. Eu vi a mulher vigorosa, que aos 60 anos jogava vôlei comigo, curvada na cama, pele agarrada aos ossos, pernas pedindo ajuda para encontrar uma posição que amenizasse a dor. Rapidamente falar também se tornou um desafio. O mais penoso para a outrora oradora da turma, mãe comunicativa, amante incorrigível do deboche propalado em alto e bom som. A batalha passou a ser o esforço constante para abrir a garganta, desenrolar a língua.

Mas se o Parkinson lhe roubou o paladar, o ritmo e o equilíbrio, por favor, que não lhe roube a fala. E isso vó Cida não tem permitido. Como conversa! E como ri… de si, dos outros, da vida, mesmo quando tudo está na contramão. Às vezes canta: “reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Malabarista na corda bamba das dores físicas e emocionais, dribla o peso que o destino impôs ao optar pela leveza do humor frouxo. Com unhas pintadas e lenço colorido no pescoço, pede para passear. Durante o trajeto — de um quarto ao outro na cadeira de rodas — acena com mãos trêmulas a quem estiver no caminho, feliz por sair do sofá. Feliz por ser quem é e estar onde está dentro das possibilidades presentes.

Às vezes chora, em expressão inevitável das angústias que sente. Mas, na maior parte do tempo, extrai do que sobrou o melhor que consegue, sendo autora e não refém da própria história e nos fazendo entender que a vida é escolha. Sem força para levar comida à própria boca, sempre repete que quando eu for visitá-la fará meu doce preferido. Também diz que vai comprar um cachorro e cuidar dele. Para mim, não há sinais de insanidade nos anseios que ela alimenta, incompatíveis com sua condição física. Para mim, são exatamente eles que configuram a vontade que ela tem de viver, agarrada a suas referências afetivas mais preciosas.

Sabemos que as dores têm aumentado e o Parkinson — ainda sem cura — piorado. Isso levando-se em conta o que se sabe. Muito provavelmente o que sente de pior minha vó guarda em segredo altruísta. E entre abraços nos netos, palavras de afeto, piadas, poemas e entusiasmo contagiante, ela tem salvado nossos dias azedados pela ineficiência que temos em lidar com nossas limitações mais bestas. Com sua força, ela tem nos ensinado a ser mais fortes também.

Certa vez, tremendo muito, minutos depois de sentir uma forte dor nos braços, minha vó me perguntou como eu estava. Eu disse: “estou ótima”. “Pois então estamos quites”, ela emendou, de forma sincera. Não por se esquecer da doença ou da peleja diária que o Parkinson impõe. Não por ser imune ao drama de perder autonomia e liberdade enquanto a degeneração avança. Mas por conseguir, com sabedoria rara, desfrutar da felicidade acessível antes de lamentar a que escapou das mãos.

 

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