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Caindo das nuvens

Caindo das nuvens

Se você escreveu um bilhete num guardanapo com uma esferográfica vagabunda no século passado e guardou numa gaveta, pode pegar e ler o que escreveu sem problemas. Se você digitou a mesma coisa no editor de textos mais foda que havia na época, e arquivou, provavelmente em um disquete, quero ver conseguir ler. Se o disquete ainda funcionar, você vai precisar se equipar de um nerd fuçador de bits pra conseguir ler o tal arquivo.

Raphael Montes: o autor como produtor na era digital Thais Alvarenga / Site Oficial

Raphael Montes: o autor como produtor na era digital

O escritor Raphael Montes incomoda muita gente. Pode ser comparado à imagem do bode no meio da sala. O desconforto está presente em circuitos literários e intelectuais, onde se defende a existência de guardiões da linguagem, distantes do ruído dos algoritmos e das hashtags. Montes rompe com essa imagem, usando método, lucidez e certo deleite. Com apenas 34 anos, oito romances e mais de 1 milhão de exemplares vendidos, ele é um best-seller e um sintoma do estado de coisas.

Entrevista infernal com Ozzy Osbourne, o Príncipe das Trevas

Entrevista infernal com Ozzy Osbourne, o Príncipe das Trevas

Missão dada, missão cumprida. Numa noite comprida, desci aos infernos para entrevistar o cantor Ozzy Osbourne. O editor — aquele demônio! — sacou a arma no saloon e me deu um tiro pelas costas, requisitando que eu me virasse nos trinta para conseguir uma entrevista exclusiva com o roqueiro inglês, recentemente desencarnado. Mais sorumbático do que um político com tornozeleira eletrônica, mesmo falecido, juntei os petrechos cristãos dentro de uma surrada mochila — alho, crucifixo e uma foto do Padre Marcelo antes de usar bomba — e vazei para as profundezas do inferno mais rápido do que o evacuar de um ganso.

O autor que escreveu só dois livros, foi assassinado e influenciou Borges, Nabokov e Philip Roth

O autor que escreveu só dois livros, foi assassinado e influenciou Borges, Nabokov e Philip Roth

Bruno Schulz foi morto com um tiro pelas costas numa rua esquecida da Galícia ocupada. Levava nos braços um envelope que talvez contivesse “O Messias”, o romance inédito que nunca será lido. Mas o essencial sobreviveu. Autor de apenas dois livros curtos, ele moldou uma linguagem que se dobra no tempo, que delira em torno da memória e que ecoa em autores como Roth, Tokarczuk e talvez até Borges. Setenta anos depois, sua ficção continua escapando de classificações. Como se fosse feita não para durar, mas para assombrar.

O jantar mais constrangedor da literatura moderna: o dia em que Joyce e Proust dividiram a mesa — e a antipatia em silêncio

O jantar mais constrangedor da literatura moderna: o dia em que Joyce e Proust dividiram a mesa — e a antipatia em silêncio

Em 18 de maio de 1922, em Paris, dois dos maiores escritores do século 20 sentaram-se à mesma mesa — e nada aconteceu. James Joyce, recém-publicado com “Ulysses”, e Marcel Proust, em seus últimos meses de vida, mal trocaram frases. O jantar no Hôtel Majestic, que também reuniu Stravinsky, Picasso e Diaghilev, entrou para a história justamente pelo vazio que deixou. O que poderia ter sido uma conversa entre titãs tornou-se uma anti-epifania literária. Nesta reportagem, o silêncio entre eles é escutado de perto: como gesto, falha, sintoma — e talvez, destino.