Autor: Karen Curi

Esqueça os contos de fadas. A vida real é um conto de falhas

Esqueça os contos de fadas. A vida real é um conto de falhas

Sabe aquela história da princesa que foi resgatada no alto da torre pelo príncipe encantado e foram felizes para sempre? Conversa para boi dormir. A gente cresce ouvindo sobre um mundo perfeito, até o dia em que encaramos a realidade e nos damos conta de que a vida não é um conto de fadas. Pelo contrário, ela está mais para um conto de falhas. E o que fazer quando descobrimos que o “felizes para sempre” de fato acaba ou simplesmente não existe? Ora, aprender a viver com menos romantismo e mais ceticismo, com menos idealização e mais evidências.

Mulheres não precisam de terapia, precisam ir juntas ao banheiro!

Mulheres não precisam de terapia, precisam ir juntas ao banheiro!

“Se homem fosse coisa boa, Deus não teria lhe arrancado as costelas!”, escutei vindo do banheiro ao lado, enquanto me dedicava ao quase gozo de esvaziar minha bexiga saturada de teor alcoólico. Aliás, seria impossível não ouvir o tom esganiçado de uma mulher em estado ébrio. Confesso que achei, no mínimo, pertinente e pitoresco. Do lado de fora, gargalhadas estridentes, frases incompletas, pensamentos desconexos. Aquelas línguas em brasa chicoteavam o sexo masculino. Do lado de dentro, declarações de amor que dariam inveja a Shakespeare, rimas com “nu” e “menu” que constrangeriam até mesmo Nelson Rodrigues. Senhores, sejam bem-vindos ao banheiro feminino.

Daqui a pouco sorrir vai ser ofensa para quem não tem dente

Daqui a pouco sorrir vai ser ofensa para quem não tem dente

Eu não sei por que, mas quanto mais o mundo cresce, mais as cabeças diminuem. E não é microcefalia, é ignorância congruente mesmo. Sim, estamos em processo de evolução, aprendemos a separar o lixo e a não desperdiçar a água — viva o homem moderno! Somos primatas com o dom da retórica comovente e persuasiva, discursamos sobre igualdade e fraternidade, mas cá entre nós, é tudo da boca para fora. É só para sair bonito na foto. Porque no fundo as pessoas são intolerantes, porque se supõem melhores do que as outras, e porque acreditam ter razões para opinar sobre tudo e sobre todos.

O namoro acabou, mas a nossa música continua tocando

O namoro acabou, mas a nossa música continua tocando

A vida dá voltas e, no vai e vem da valsa, vamos agregando semelhantes e somando desafetos. Nos unimos quando reconhecemos no outro um pedaço nosso. Talvez porque fazemos uma ideia encantadora de nós mesmos e, por isso, nos agrada tanto encontrar algo de bom e familiar ali, bem diante do nariz. Mas, do mesmo jeito que nos atraímos por conexão e reconhecimento, nos separamos pela desarmonia e diferença.

Não adianta ir à igreja e não cumprimentar o porteiro

Não adianta ir à igreja e não cumprimentar o porteiro

Alguém pode ser exímio conhecedor da palavra, um grande entendedor dos livros sagrados, ter a língua afiada com as passagens das sagradas escrituras. Alguém que pensa ser fiel, irmão, que prega no templo ou na rua, que doutrina os nossos ouvidos com sua convicção inflexível. Alguém, tão pecador quanto eu. Isso mesmo, meu caro. Suas rezas em brado não irão livrá-lo das precariedades humanas.

Seja sua própria âncora. Se não te faz bem, cai fora

Seja sua própria âncora. Se não te faz bem, cai fora

O tempo não para. A vida não pausa. Dizem que o que é nosso está guardado, mas os donos da mesma retórica dizem, também, que milagres não caem do céu. Então, por via das dúvidas, entre ir ou ficar, eu decido partir. Prefiro pecar por excesso a errar por falta, e fazer a parte que me compete com a pressa dos que correm atrás da própria felicidade. Fujo da vida ao mesmo tempo em que me apresso para viver.

Feliz Dia dos Namorados ao namorado que eu ainda não tenho

Feliz Dia dos Namorados ao namorado que eu ainda não tenho

Ou a vida não tinha passado por mim, ou eu ainda não tinha passado pela vida. Das duas, uma. Tanta gente celebrando o amor, jurando a eternidade em olhares líquidos e beijos inebriantes, entre alento, calentura e umidade. Como eu gostaria de estar ao teu lado e fazer as tolices românticas das quais me rendo à graça, cometer as sandices de um amor escandaloso e escancarado, me entregar como propriedade exclusivamente tua e te chamar de meu no alto da autoridade de um reinado só nosso. Se existe a tal da inveja branca, essa é a minha. Assumo, sem o menor pudor, do quanto eu gostaria de ter você aqui comigo, mesmo sem — ainda — ter te conhecido.

Esperar dói, mas desistir dói mais ainda

Esperar dói, mas desistir dói mais ainda

Temos pressa. A comida é fast, o e-mail é urgente, o macarrão é instantâneo, a reunião é de emergência. Se o livro é chato, paramos de ler. Se o filme é ruim, mudamos. Se não gostamos da música, trocamos. Não aguentamos esperar ao telefone, nos irritamos quando não nos atendem imediatamente no restaurante, na loja, na fila do supermercado, na consulta médica. Porque a nossa fome é maior, a nossa saúde é mais importante, o nosso apuro é impreterível. Não suportamos atrasos, mesmo que — sem admitir — sempre estejamos atrasados.

O homem só percebe o quanto é humano quando sente dor

O homem só percebe o quanto é humano quando sente dor

De que adianta mudar a foto de perfil quando surge alguma campanha, quando, na verdade, nós não nos mudamos por dentro? Não nos trocamos, não nos reformamos. Levantamos bandeiras pelas mais diversas causas e não ajudamos quem está ao nosso redor. Sequer olhamos para o lado. Nos preocupamos com a aparência externa, enquanto deveríamos nos atentar às melhorias internas. O objetivo deveria ser nos tornar indivíduos melhores, cidadãos mais evoluídos, ao invés de parecermos superiores apenas. É muita aparência para pouca essência. No final, sobram os discursos genéricos e ocos, sem movimento e sem atitude.

Mudo de opinião como quem muda de roupa. Se nem eu me entendo, como pode alguém saber tudo de mim?

Mudo de opinião como quem muda de roupa. Se nem eu me entendo, como pode alguém saber tudo de mim?

É inadmissível a ideia de que uma pessoa julgue me conhecer e tenha a autoridade para me definir e saber das minhas vísceras só porque ela sabe o meu signo. Me dá vontade de perguntar: Você não quer que eu passe um café, que te conte um pouco da vida? Não. Ela não quer. Já me classificou, me pôs na prateleira dos que são assim e assado. Não há o que eu faça ou fale ao meu respeito. Nada a fará mudar de opinião sobre mim.