A série da Netflix que tem 100% de avaliações positivas

A série da Netflix que tem 100% de avaliações positivas

Sexo é sempre sujo, desperta conflitos internos poderosos e inspira todo o cuidado, uma vez que tem o condão de iludir os mais imaturos. A mera referência à conjunção física entre duas pessoas, cada qual com suas vontades, suas necessidades, suas expectativas, seus medos, é matéria de reflexões as mais profundas. Em assim não sendo, “Sex Education”, série disponível na Netflix desde janeiro de 2019, não teria alcançado tamanho sucesso. A ironia maior por trás da aceitação de história de um adolescente, cheio de neuroses e vítima de todas as crises existenciais típicas de qualquer ser humano nessa faixa etária, que vira um consultor sexual de renome — ainda que sua identidade permaneça uma incógnita para seus pacientes — é justamente essa: o terapeuta, Otis Milburn, não passa de um moleque de 16 anos, um tanto sufocado pela mãe superprotetora, a verdadeira sexóloga da trama, e, também por isso, que não consegue dar vazão a suas necessidades mais básicas. Na primeira temporada, Otis sequer conseguia tocar o próprio pênis; à medida que a narrativa ganha corpo (e, claro, que o tempo passa), o garoto vai ganhando confiança e é capaz de proezas um pouco mais dignas de registro.

Em seu “História da Sexualidade”, o pensador francês Michel Foucault (1926-1984) aborda a ideia de liberação sexual do ponto de vista sociológico, dando ênfase à discrepância entre o que pregavam os valores burgueses e o que de fato acontecia entre dois adultos quando ninguém os via. Foucault compreende o prazer sexual visceralmente irmanado à personalidade mesma do sujeito, isto é, quanto mais liberal uma pessoa se considera no meio social em que está inserida, menos reprimida se mostrará na cama. No Ocidente, ao longo dos séculos 18 e 19, continua Foucault, as pessoas foram se permitindo definir com base em suas preferências sexuais, o que implicou numa verdadeira catequese quanto a incutir o discurso que se voltasse para alguma forma de balizamento do processo, de definição de limites, seja pela escola, pela Igreja, pela família ou mesmo pelo Estado, os tais aparelhos repressivos de que falou o filósofo marxista francês Louis Althusser (1918-1990). Sexo se tornava um instrumento de poder, largamente usado para dominar determinados grupos populacionais, infundir respeito sobre os demais e doutrinar os mais incautos e menos perspicazes. Assim se deu com a pregação feminista, de certo núcleo homossexual e, se se quiser, mesmo dos próprios homens heterossexuais, em especial os de classe média e caucasianos, aterrorizados com as conquistas de um e outro público. No caso do movimento gay, o terceiro terço do século 20 concentrou grande parte das reivindicações daqueles cujo amor não ousava dizer seu nome, muitas delas tornadas realidade no decorrer das próximas décadas, aparadas na lei, inclusive. Com tanto avanço, com tanta mudança, com tanta gente descolada e adepta dos mais diversos malabarismos sexuais — e a sigla com que passaram se denominar os não-heterossexuais (que eu não me atrevo a reproduzir aqui, uma vez que a cada dia ganha uma letra nova) — é prova disso, por que ainda existe tanta euforia quando se fala de sexo?

Santo Agostinho (354-430), o legítimo sedutor arrependido, era um atormentado na medida em que especulava sobre as necessidades carnais do homem, pensava em que termos sexo poderia se ligar a amor, e vice-versa, e como todo gênio, não raro morria na praia. O pensamento de Agostinho, exposto significativamente em suas “Confissões” (400), entendia o amor como um extravasamento da paixão, não o contrário, ou seja, seria impossível se começar uma relação amorosa tomando por base apenas a atração física, o desejo. Agostinho, que apesar de santo nunca fora ingênuo, sabia muito bem que o desejo fomenta o amor e o amor dá asas ao desejo, sendo ambos parte natural da condição humana, mas é loucura querer estabelecer alguma substância a um amor que se fundamenta no apetite sexual. A beleza de ser gente é poder fazer escolhas e, no que tange ao amor e ao sexo, ao homem compete postergar o prazer imediato em nome da realização amorosa suprema, idealmente simbolizada pelo matrimônio.

Quanto mais fugimos da ideia do amor casto, puro, desinteressado e, por que não?, virginal — o único capaz de revelar as verdades essenciais da vida —, mais nos perdemos, o que nos leva aos escritos de Arthur Schopenhauer (1788-1860). O alemão, tido por muitos como o mais pessimista dos filósofos — discussão que, por si só, rende um caminhão de teses, dado o caráter assumidamente lúgubre e mesmo tétrico das obras do também alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) e do dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855), nessa ordem —, foi magistral ao apontar no homem a impossibilidade de desenvolver os gostos certos e fazer a opção adequada, porque dotado de sua natureza humana e, portanto, falha já no ovo. Se pudéssemos, cada um de nós escolheria nascer privilegiando o amor sobre o sexo; conduzir nosso desejo num determinado viés, a fim de eliminar a chance de sermos motivo de estranhamento, rechaço, repúdio, nojo; e alcançar por resultado o casamento com o amor de nossas vidas, eterno, por óbvio. Como todo mundo sabe, a vida definitivamente não é assim; entretanto, somos capazes de manter nossos ímpetos sob controle, por mais que isso custe. Se alguém me perguntasse hoje que ideia eu tenho de mundo ideal, diria que seria a imagem de um adolescente, do sexo masculino, que se nega a fazer sexo por ainda não ter encontrado o amor. Só nisso, 80% das grandes questões da humanidade estariam resolvidas.

Como se trata de uma utopia — eu, como Agostinho de Hipona, sei que isso nunca vai acontecer —, o enredo de “Sex Education” cai como uma luva para uma sociedade que se jacta de liberal, mas permanece presa nos mesmos dogmas de há 1.500 anos, com o sinal trocado. Ai do menino de 16 anos que não se declare um mulherengo experimentado, que passa o rodo e deixa um rastro de corações partidos pelo caminho. Otis, nos episódios de abertura de “Sex Education”, até tenta nadar contra a maré, mas, coitado!, tem de desenvolver sua cota de compulsão sexual — e a culpa não é dele. Jean Milburn, mãe do protagonista, é, tecnicamente, a estudiosa do assunto, mas parece ter ainda menos idade que o filho, conforme se denota de seu comportamento de fêmea, de “devoradora de homens”, como a classifica Otis. Jean é a egocêntrica clássica, vaidosa, pedante, “hipócrita”, também nas palavras do personagem de Asa Butterfield, que não quer saber de compromisso porque empenhada em dar ao garoto toda a atenção possível, mas que não se furta a bisbilhotar sua vida, o que lhe presenteia com a rendosa ideia de escrever um livro expondo a insegurança (natural) de Otis para o sexo. Alguns sabidos veem no tipo representado pela brilhante Gillian Anderson — que deu vida à primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher (1925-2013) em “The Crown”, vencedora do Emmy de Melhor Série Dramática em 2021, irreconhecível — o arquétipo da mulher trabalhadora, libertária, culta e moderna, que faz o que lhe dá na veneta, e assunto encerrado. Em mim, gente como Jean Milburn só consegue provocar os instintos mais primitivos.

Sexo demanda consentimento, uma boa dose de empatia e, claro, saber o que se quer. “Sex Education” expõe, de modo irônico, toda a problemática que pode haver por trás de uma transa que, por mais simples que pareça, implica em consequências. Até para se fazer sexo é preciso educação.