Falar de amor não é chover no molhado

Falar de amor não é chover no molhado

Num esforço concentrado de desmonte da tristeza, com a destreza de renascer a esperança por dias melhores, por noites melhores, por homens melhores, suscitando uma pausa no desencanto como consequência da chuva branda, suave e ininterrupta que corrompe o silêncio ao gotejar dos beirais das casas sobre latas, lutos e outros objetos deixados no quintal da solitude, a despir os sentidos, a lavar a roupa suja no de-dentro do peito, a levar a sério a premissa de felicidade ainda que tardia, germinando sementes no fofo da terra e candura no coração das pessoas.

Belchior também é uma voz no coração da Eslovênia

Belchior também é uma voz no coração da Eslovênia

As vozes que povoam minha cabeça humilham qualquer tentativa de explicar a polarização do mundo contemporâneo. Não têm dois lados. Ecoam de parte a parte, como se a caixa craniana vazia fosse. Carregam visões multipolares: uma hora são pinguins saltitantes, feitos antárticos pensamentos, noutra são albinos ursos polares, Polo Norte sofrendo com o aquecimento global. 

Você dá play nesse filme na HBO Max “só pra relaxar”… aí o “cara de Breaking Bad” rouba tudo — e você termina rindo em modo pânico Hopper Stone / Warner Bros. Entertainment

Você dá play nesse filme na HBO Max “só pra relaxar”… aí o “cara de Breaking Bad” rouba tudo — e você termina rindo em modo pânico

Max e Annie têm um hobby que parece inofensivo, juntar amigos, abrir uma caixa de jogo e competir com educação. Só que eles levam a disputa como se valesse troféu, e essa fome de vitória ganha combustível quando surge uma proposta diferente, um crime de brincadeira, uma “investigação” com prêmio, um roteiro pronto para tirar todo mundo do sofá. A troca soa simples até a primeira situação que não estava no combinado, e o grupo descobre que improviso cobra em deslocamento, em constrangimento, em energia e em minutos que somem sem trazer resposta. “A Noite do Jogo” segura o riso junto do risco e não deixa ninguém descansar.

Você abre o Prime Video por Jackie Chan… e cai num thriller gelado de paranoia com Pierce Brosnan Divulgação / Diamond Films

Você abre o Prime Video por Jackie Chan… e cai num thriller gelado de paranoia com Pierce Brosnan

Depois de um ataque ligado a um grupo irlandês, Quan vê a vida desmontar em poucos minutos e encontra portas fechadas quando procura respostas pelas vias oficiais. Sem paciência para o labirinto de balcões, formulários e promessas vagas, ele passa a encostar sua dor em quem tem acesso a nomes e bastidores, mesmo que isso signifique atravessar a cidade repetidas vezes, voltar para casa de mãos vazias e repetir a mesma pergunta até ficar sem voz. Dirigido por Martin Campbell, “O Estrangeiro” troca bravata por insistência e acompanha o preço cobrado em cada tentativa, no corpo e no relógio.

O filme mais bonito que você queria não ter visto — e não dá pra “desassistir” (no MUBI) Divulgação / MUBI

O filme mais bonito que você queria não ter visto — e não dá pra “desassistir” (no MUBI)

No Chile de 1901, três homens recebem armas, cavalo e uma ordem curta, abrir caminho para as cercas de um grande proprietário. Na trilha, a tarefa vira escolha atrás de escolha, por onde passar, quando parar, quanto água dá para poupar, com quem falar e com quem evitar contato. Cada decisão mexe no ritmo do grupo e cobra em tempo de viagem, sono picado e energia jogada fora em trechos errados. Em “Os Colonos”, Felipe Gálvez Haberle encosta a câmera na poeira, na fome e na distância para desmontar o heroísmo de fachada e lembrar que a ocupação começa como trabalho e termina como violência executada em turnos.