Por que Romero Britto é o Paulo Coelho das artes visuais

Por que Romero Britto é o Paulo Coelho das artes visuais

Conhecendo-se a História da Arte desde a Pré-História até os dias atuais, concorda-se que é impossível encaixar Romero Britto nessa história. Em parte porque sua concepção estética é extemporânea, em parte porque é pastiche. Para uns isso não quer dizer nada (é legítimo), já para outros faz toda a diferença.

Supõe-se, baseado apenas da concepção visual, que Britto faça Pop Art. Então é preciso compreender esse fenômeno estético. A Pop Art surgiu nos Estados Unidos, nos anos 1950. É a expressão mais fiel da cultura norte-americana, industrial e consumista, com suas técnicas de reprodução mecânica da imagem, serializada pelos processos gráficos e pela publicidade. Artistas como Andy Warhol souberam explorá-la com ironia: ao invés de transformar a cultura visual da sociedade de massas num totem a ser adorado, criticaram seus fundamentos sociais e sua capacidade de alienar o indivíduo. Isso é um exemplo do que, em arte, se chama de “problema”, ou “questão”.

Haverá uma questão, em Romero Britto, ou será pura gratuidade?

A cultura norte-americana fora universalizada e aqueles processos específicos, da indústria, foram adotados em toda parte. Alguns artistas brasileiros — Rubens Gershman, Claudio Tozzi, Carlos Vergara e Antonio Dias — exploraram os códigos visuais da Pop Art, sempre daquela maneira irônica. Também tiveram o cuidado de contextualizar tal linguagem para nossa realidade social: a da repressão militar, durante os anos 1960. Mas isso já passou. Da mesma forma que o design anterior dos veículos deixa de existir com as novas versões lançadas pela indústria, não é mais possível ser cubista ou pop autêntico, até hoje. As linguagens estéticas também esgotam-se, segundo a História da Arte. A sociedade muda, inexoravelmente, e com ela suas técnicas e formas de expressão.

O fundamento de cada linguagem artística é o seu contexto cultural, e apenas de acordo com este contexto pode-se falar em autenticidade. A compreensão da luz pelos impressionistas, por exemplo, de acordo com as descobertas da física e da fisiologia no século 19. Um impressionista hoje já não teria nada a nos ensinar. Quem disse que à arte só importa ser bonita?

O segundo ponto a ser considerado, além da extemporaneidade: Romero Britto é pastiche porque imita uma concepção estética superada. Apropria-se dos códigos visuais da Pop Art, especificamente de um pintor que ele admite colecionar: Roy Lichtenstein, talvez o artista pop mais importante depois de Andy Warhol, para o qual a mensagem social não tinha importância, mas que se preocupava em problematizar a própria técnica. Para se conferir a semelhança entre ele e Britto, analisemos um quadro de Britto: vemos linhas em diagonal intercaladas, uso frequente de retículas – os chamados “pontos de Benday”, em geral estourados —, e cores chapadas e berrantes, delimitadas pela linha, elemento tão preponderante quando a mancha (herança dos quadrinhos). Tudo isso fora apropriado de Lichtenstein, sem ter um desenho tão fino quanto o de Lichtenstein.

Ser pastiche não é defeito quando a apropriação é consciente. Artistas fazem isso o tempo todo: se não se conhece profundamente o assunto, nem sempre dá pra separar um Braque de um Picasso, um Derain de um Matisse, um Sisley de um Monet. Tarsila do Amaral, por exemplo, se parece com Fernand Léger. O defeito é não conferir uma personalidade nem esgotar possibilidades ainda inexploradas em códigos visuais semelhantes. A artista brasileira conseguiu fazer isso em relação ao mestre francês, e também Lichtenstein fez, em relação a si mesmo. A obra de Lichtenstein é rica, variada e distinta. Quem se interessar pode comparar alguns quadros representativos desse virtuosismo: “Mulher com Chapéu”, 1962, “Whaam”, 1963, “Cartaz da Paris Review”, 1966, e “Paisagem com Telhado Vermelho”, 1985. Na última tela em questão já predominam as machas, ao invés das linhas, sugerindo o abstracionismo de Willem de Kooning.

A arte de Romero Britto não evidencia essa capacidade de inovação. É sempre igual e monótona. (Percebam que não estou discutindo gosto. Estou discutindo estética.)

O que menos depõe contra Romero Britto é o aspecto envolvente, agradável, de suas pinturas. Certos notáveis — Henri Matisse, Marc Chagal, além do próprio Lichtenstein — são igualmente indicados para a sala de estar. Já a fortuna de Britto e seu estilo de vida não depõem nada contra ele, porque são circunstâncias puramente exteriores. Em regra os artistas adoram a riqueza, e poderíamos citar pelo menos três exemplos emblemáticos, associados ao luxo e à ostentação: Salvador Dali, Damien Hirst e, é claro, Andy Warhol. Mas isso não justifica afirmações como essa, do pernambucano: “Ou você vende, ou você não vende. E eu vendo. E acho isso mais importante”.

Eis uma afirmação de comerciante, não de artista. É como admitir, no caso, o que se está dizendo aqui: que o artista em questão é uma máquina que trabalha por encomenda. Que, portanto, não precisa problematizar o seu ofício, já que o mercado determina por ele o que faz sucesso e o que pintar, portanto. Torna-se apenas uma grife. Não é a postura de Warhol: é a “postura” da tela de serigrafia. Esta mentalidade, exatamente, corrompe os padrões canônicos perceptíveis na História da Arte e constitui a indústria cultural.

Acho que tudo depende do critério, e há apenas dois critérios: o das pessoas para as quais basta apenas “agradar” aos olhos, “ser bonito”, e o critério dos que sabem que a arte é uma expressão orgânica. Portanto, ela não pode apenas ser aparente: precisa também ser autêntica. É o que distingue entre a beleza falsa e a beleza verdadeira. A menos que se consiga provar, é claro, que um diamante sintético é mais valioso que um diamante natural.

Esteticamente Romero Britto é um falso diamante.