Luz em Agosto, o livro emblemático e assustador de William Faulkner, ganha nova edição no Brasil

Luz em Agosto, o livro emblemático e assustador de William Faulkner, ganha nova edição no Brasil

Saiu no Brasil uma nova edição do romance “Luz em Agosto” (1932), do escritor norte-americano William Faulkner. A leitura da obra é uma oportunidade muito boa para quem ainda não conhece o autor, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1949. Também permite conhecer um livro que faz parte de uma das mais interessantes e influentes carreiras literárias do século 20. Talvez Faulkner tenha sido o mais admirado romancista dos últimos 100 anos, virando a cabeça daqueles que escreviam em Paris ou na América Latina. Os franceses absorveram as inovações formais de sua escrita modernista. Já os latino-americanos pegaram a forma e o conteúdo. O contexto do “sul profundo” dos Estados Unidos apontou um caminho criativo para escritores de regiões rurais e arcaicas.

Um dos maiores entusiastas pela obra faulkneriana foi o filósofo francês Jean Paul Sartre, que publicou dois ensaios célebres para analisar romances do autor. A recepção na França teve ecos até no cinema, como mostra um personagem do filme “Acossado” (1960), do diretor Jean Luc Godard, que cita o trecho famoso do romance “Palmeiras Selvagens”: “Entre a dor e o nada, eu prefiro a dor”.

“O homem de ‘Luz em Agosto’ (eu pensara ‘o homem de Dostoiévski’ ou ‘de Meredith’), esse grande animal divino e sem Deus, perdido desde o nascimento e obstinado em se perder, cruel, moral mesmo no homicídio, redimido — não pela morte, não na morte — nos últimos instantes que precedem a morte, grandioso mesmo nos suplícios, nas humilhações mais abjetas de carne, eu o aceitava sem crítica; não tinha esquecido o semblante altivo e ameaçador de tirano, seus olhos cegos”, escreveu Sartre em 1938.

William Faulkner ganha nova edição no Brasil

Pascale Casanova estudou a disseminação da obra Faulkner a partir da França. Segundo ela, os leitores franceses admiraram profundamente aquela escrita vanguardista, com a mistura de tempos (presente, passado, futuro) e os fluxos de consciência dos personagens. A partir das edições francesas, os romances faulknerianos se espalharam pelo mundo, sobretudo por conta da representação do universo “primitivo” e “camponês”.

Caíam bem, diz Casanova, as descrições de “uma civilização tribal, violenta, marcada por mitologias bíblicas, oposta de todos os pontos de vista à modernidade urbana”. Esse mundo arcaico era o Sul dos Estados Unidos. Autores como o espanhol Juan Benet, o argelino Rachid Boudjedra e o peruano Mario Vargas Llosa viam essas imagens como um espelho de seus próprios locais de origem.

“Enquanto [James] Joyce é logicamente reivindicado, na maioria das vezes por romancistas oriundos de universos urbanos muito desprovidos, Faulkner é reconhecido por escritores provenientes de regiões fortemente ruralizadas, com estruturas culturais arcaicas”, assinala Pascale Casanova, autora do livro “República Mundial das Letras”, que analisou os fluxos globais de obras e autores.  

América Latina

Escritores como Gabriel García Márquez e Vargas Llosa reconheceram o peso direto de Faulkner em seus livros. Segundo o autor colombiano, “Luz em Agosto” foi em sua juventude o mais “fiel de seus demônios”, a atormentá-lo na hora da criação literária. Em suas memórias “Peixe na Água”, Llosa lembra que rabiscou e mapeou por completo as idas e vindas no tempo deste romance.

Luz em Agosto, de William Faulkner (Tradução de Celso Mauro Paciornik, Companhia das Letras, 472 páginas)

O que fascinou uma geração de latino-americanos, foram as semelhanças do mundo sulista dos EUA (escravidão, decadência, percepção de atraso, grandes fazendas, racismo) com a realidade do restante das Américas. O olhar faulkneriano foi a lente estética mais adequada para os autores da região enxergarem sua realidade local, como a Colômbia de García Márquez ou o Peru de Vargas Llosa.

Em seu estudo clássico “Transculturação Narrativa na América Latina”, Angel Rama deu uma dica para entender a proximidade de Faulkner com García Márquez e o mexicano Juan Rulfo. Segundo ele, é possível considerar como uma região cultural única e contínua a “Plantation America”, do sul dos Estados Unidos, e as ilhas do Caribe com sua produção colonial para os países da Europa.  

Romance da decadência

Nascido em 1897, William Faulkner dizia carregar apenas dois livros no bolso: a Bíblia e algum exemplar de Shakespeare. Praticamente não saiu de onde nasceu, a cidade de Oxford, no estado do Mississipi. Trata-se do “sul profundo” e agrícola que viveu o trauma da Guerra de Secessão, a derrota para o Norte industrial, e que teve a difícil tarefa de incluir social e economicamente os escravos negros e seus descendentes.

Para esse espaço fictício, Faulkner inventou o condado de Yoknapatawpha. É a cidade fabulada, como são a “Duas Pontes” do brasileiro Autran Dourado ou a “Santa Maria” do uruguaio Juan Carlos Onetti. A matéria sulista (brancos decadentes, negros pobres) recebe o mais sofisticado tratamento do romance modernista. É um olhar elaborado para narrar histórias de uma região em abismo.

O auge de Faulkner está nos romances “O Som e a Fúria” (1929), “Enquanto Agonizo” (1930), “Santuário” (1932), “Luz em Agosto” (1932) e “Absalão, Absalão” (1936) — todos bem traduzidos no Brasil. Não se trata de narrativas “universais”, mas um olhar para o mundo a partir das margens de uma sociedade moderna em ascensão. O autor vasculha os resíduos e as fraturas de pessoas naquele universo sufocante.

“A intensidade [de Faulkner] nasce em parte dos fatos da história sulista: o Sul concentrou em um único evento, a Guerra de Secessão, cem anos de história ocidental, enfrentando a absorção do moderno, a derrota e a privação cultural e o processo de industrialização de uma só vez. Donde a história de Faulkner ser apocalíptica: ela existe no contexto de um Éden caído”, aponta Malcolm Bradbury, em seu livro-manual “O Romance Americano Moderno”, que cobre a produção de 1890 a 1970.  

A trama de “Luz em Agosto” insere os personagens no ambiente onde imperam o racismo, uma estranha moral religiosa e as cicatrizes dos conflitos sociais. A narrativa entrelaça as histórias de três figuras: Joe Christmas, sujeito de pele branca que acredita ser negro e provoca a morte de uma mulher; o reverendo Gail Hightower, responsável pelo evento brutal do livro; e a camponesa Lena Grove, que busca o pai de seu filho.

O que rege aquela sociedade faulkneriana não é a lei dos homens e mulheres. É a mistura de costumes rurais e visão deturpada da Bíblia (creio que a genialidade de escritores como Faulkner está na “desleitura” da religião). Em outros termos, o universo sulista encontra-se antes da modernidade, porém experimenta o choque das transformações do presente. Disso só pode resultar o mundo de violência pura, sem fantasias de civilidade.

Nova literatura

Como bem assinalou Pascale Casanova, as narrativas de Faulkner deram a forma e o conteúdo para escritores e escritoras de regiões em franco processo de modernização. Foi um período até de otimismo: a ficção expõe a decadência de uma época, o século 19, que se encerrava. Sociedades novas apareciam no horizonte. Por isso creio que aparentemente o modelo de Faulkner tenha se esgotado.

Em nível global, a ficção contemporânea enfrenta outras questões que não estavam postas na década de 1930: o pesadelo tecnológico, as migrações, os refugiados, a solidão de sujeito. Porém, no andar das coisas, é provável que o mundo retorne para uma situação pré-moderna, parecida com “uma civilização tribal, violenta, marcada por mitologias bíblicas” dos romances faulkerianos.

Caminha-se para uma situação próxima ao que diz a epígrafe do mais recente livro de Don Delillo (“O Silêncio”), emprestada dos escritos de Albert Einstein: “Não sei com que armas se lutará na Terceira Guerra Mundial, mas na Quarta Guerra Mundial será com pedras e paus”. E o destino reservado ao personagem Joe Christmas, de “Luz em Agosto”, é emblemático e assustador.