Um Conan existencialista: pra quem gosta de “Game Of Thrones”

Um Conan existencialista: pra quem gosta de “Game Of Thrones”

LIVRO LIDO

ELRIC DE MELNIBONÉ — A TRAIÇÃO
AO IMPERADOR (LIVRO UM)
Michael Moorcock
Generale

LIVRO ABANDONADO

Nenhum. Mas prometo abandonar algum no mês que vem.

“Elric de Melniboné — A Traição ao Imperador” é esquisito por vários motivos

Michael Moorcock
Michael Moorcock: lenda da literatura fantástica britânica

1 — O livro tem o formato de uma revista em quadrinhos e pode ser confundido facilmente com uma graphic novel. Mas é livro mesmo, daqueles que só tem palavras e nenhuma ilustração.

2 — É difícil achar em livrarias convencionais, pois a distribuição não é o forte da Generale, selo da editora Évora. Mas como eu sou bacana, aí vai o link para compras, caso você se interesse.

3 — E finalmente, o livro é esquisito porque… bem, porque é esquisito mesmo.

Embora seja um ilustre desconhecido no Brasil, o escritor Michael Moorcock é uma lenda da literatura fantástica britânica. Influenciou todo mundo: Neil Gaiman, Alan Moore, Grant Morrison, Douglas Adams, Terry Prachett e George R.R. Martin, criador da série “Game of Thrones”. Moorcock também editou a revista de ficção científica “New Worlds” de 1964 a 1996, sendo responsável pela chamada “new wave” do gênero, que revelou (além dele próprio) escritores como J.G. Ballard (de “Crash”) e Ursula K. Le Guin (de “A Mão Esquerda das Trevas”).

Todos ilustres desconhecidos no Brasil, assim como metade da lista de escritores influenciados por ele, né? Eu sei!

Michael Moorcock também é o criador do agente secreto Jerry Cornelius, uma espécie de versão psicodélica de Austin Powers. O personagem era uma espécie de “open source”, ou seja, o escritor estimulava que outros autores o utilizassem. E é por isso que um dos quadrinhos mais famosos do francês Moebius se chama “A Garagem Hermética de Jerry Cornelius”. O personagem também foi ao cinema em “O Programa Final”, de 1973, dirigido por Robert Fuest, o mesmo do clássico ‘camp’ “O Abominável Doutor Phibes” (1971).

Ok. Deu! Esta coluna está parecendo obra de crítico de música pretensioso e sem noção que só fala de coisa que ninguém conhece. Chega. Vamos falar de Elric de Melniboné, o personagem central do livro.

Elric é o imperador albino de Melniboné, a Ilha do Dragão, que dominou o mundo com mãos de ferro por 10 mil anos. Agora, o outrora orgulhoso reino sucumbe a invasões bárbaras e os nobres culpam o rei por esta fraqueza. Talvez eles tenham razão, pois Elric é um Conan existencialista, que se compadece dos inimigos e sofre muito antes de trucidá-los. Mas é possível ser um filósofo num mundo entupido de feiticeiros, dragões, deuses, demônios e espadas que devoram almas? É isso o que Michael Moorcock se propõe a descobrir.

O livro é pop e é ostenta uma profundidade rasa (hã?!), mas isso não importa, pois o que coloca Moorcock acima de outros escritores de fantasia é sua linguagem poética e a imaginação bizarra.

Veja esses trechos:

Elric de Melniboné — A Traição ao Imperador

“Sua pele tem a cor de um crânio esbranquiçado; e o longo cabelo que escorre abaixo dos ombros é branco como leite. Da cabeça afilada, dois olhos oblíquos observam, rubros e taciturnos, e das mangas largas de seu manto amarelo emergem duas mãos esguias, também da cor de ossos, descansando cada uma em um braço de uma cadeira esculpida em um único e enorme rubi.”

“Friamente, Elric inspecionou os prisioneiros. Não sentia nenhuma simpatia por eles. Eram espiões. Eles sabiam o que lhes aconteceria se fossem pegos. No entanto, um deles era um menino, e outro uma mulher, pelo que parecia, embora estivessem se contorcendo tanto nas correntes que era difícil perceber a princípio. Então, a mulher cuspiu o que restava de seus dentes na direção dele e sussurrou: ‘Demônio!’”

“Nus, os Príncipes Dragões espreitariam a cidade, tomando qualquer jovem mulher que encontrassem e a preencheriam com sua semente, pois era tradição que, se um Imperador morresse, os nobres de Melniboné deveriam criar tantos filhos de sangue aristocrático quanto fosse possível. Escravos músicos iriam uivar no topo de cada torre. Outros escravos seriam mortos e alguns comidos. Era uma dança horrível, a Dança do Sofrimento, e ela tomava tantas vidas quando criava.”

“A mosca pousou na testa de Elric. Era uma mosca grande e preta e seu zumbido era alto e obsceno. (…) E então ela voou e, ainda zumbindo alto, pairou a uma curta distância do nariz de Elric. E então Elric pôde ver os olhos da mosca e reconheceu algo neles. Começou a se dar conta que esta mosca não era uma criatura qualquer. Tinha feições que, de alguma maneira, eram um tanto humanas. A mosca sorriu para ele.”

“Elric de Melniboné — A Traição ao Imperador” é o primeiro livro da saga do guerreiro albino. É uma boa leitura para quem gosta da série “Game of Thrones”, mas não tem o mínimo saco para os hobbits bobocas de Peter Jackson.