Elza Soares, a Billie Holiday dos trópicos

Elza Soares, a Billie Holiday dos trópicos

Com uma dicção estranha e muito magra (45 quilos), a cantora assustou Ary Barroso: De que planeta você está vindo? Elza Soares reagiu rápido: Do planeta fome!

Fico tentado a fornecer um guia de leitura do livro “Elza Soares — Cantando Para Não Enlouquecer” (Planeta, 383 páginas), do escritor José Louzeiro, que morreu em 2017. No guia, privilegiaria os capítulos que discutem diretamente a artista e menos sua vida. Mas, se fizesse isto, contribuiria para privar o leitor de entender, de modo mais amplo, como uma favelada, sem nenhuma estrutura, se tornou uma cantora magnífica — espécie de Billie Holiday, pelo menos em sofrimento, dos trópicos.

Aos 12 anos, Elza Soares foi obrigada a se casar com Lourdes (Alaúrdes) Antônio Soares, de 22 anos. O pai, Avelino Gomes, acreditava que havia sido estuprada. Homem simplório e violento, Alaúrdes passou a estuprá-la, sim, mas depois do casamento. Aos 13 anos, Elza Soares foi mãe. Com Alaúrdes teve cinco filhos, João Carlos, Dilma, Gilson, Gerson e Edmundo. Este morreu de fome. Gerson foi entregue para um casal adotar. No lugar de cuidar da casa, a criança preferia soltar pipa, carregando o bebê numa cesta de vime. Como não queria continuar apenas como “parideira”, arranjou emprego numa fábrica de sabão. Uma vez, como não aceitava seu progresso material e cultural, Alaúrdes atirou na mulher.

Elza Soares — Cantando Para Não Enlouquecer (Planeta, 383 páginas), do escritor José Louzeiro, que morreu em 2017

Sua primeira paixão musical foi a cantora Ângela Maria, que escutava no rádio. Ao ouvir o pai e um irmão, Avelino (Ino), tocarem violão e o avô Antenor “castigando na harmônica”, acreditou que poderia se tornar cantora. O pai e Alaúrdes não queriam que Elza Soares se tornasse cantora. Apoiada pela mãe, Rosária Maria da Conceição Gomes, decidiu enfrentar o patriarcado. Em 1953, ainda menor (nasceu em 1937), decidiu: seria cantora ou mendiga. “Enfiou-se em um vestido que a mãe pegara para lavar e dirigiu-se à Rádio Tupi, a fim de inscrever-se no programa ‘Calouros em Desfile’, comandado por Ary Barroso.”

Com uma dicção estranha e muito magra (45 quilos), a cantora assustou Ary Barroso: “De que planeta você está vindo?” Elza Soares reagiu rápido: “Do planeta fome!” Um músico tentou puxar seu tapete, subindo uma nota, mas Elza Soares cantou “Lama”, de Paulo Marques e Alice Chaves, “com brilhantismo” e ganhou o prêmio.

Com a “fama” recém-adquirida, se tornou crooner da Orquestra Garam de Bailes, do maestro Joaquim Naegli. Os músicos não a queriam, porque era negra. O talento da cantora que faz batucada com a voz desabrochou. “A cancha adquirida na orquestra aproximou Elza dos malabarismos vocais. Imitava outros cantores e os próprios instrumentos musicais, além de movimentar-se no palco como nenhuma intérprete da época conseguia fazer”, conta Louzeiro. O maestro Acyr Aguiar corrobora: “Além de não desafinar, inventava, punha em prática sua criatividade. Lá pelo meio de uma interpretação resolvia fazer duo com o sax, com o pistom ou a flauta. E, se a música permitia, estendia as brincadeirinhas à bateria”. Imitava Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves.

Na Argentina, teria sido aplaudida por Astor Piazzolla. Um dos principais incentivadores da carreira de Elza Soares foi Moreira da Silva, que a apresentou para os profissionais do ramo.

Sorte grande Elza Soares tirou quando a cantora Sylvinha Telles a apresentou a Aloysio de Oliveira, diretor da Odeon. Um dos inventores do “movimento” Bossa Nova, Oliveira criou o rótulo “Bossa Negra” para nominar sua música e estilo de cantar.

Em 1959, aos 22 anos, gravou o primeiro disco, na Odeon. “Ninguém interpretara ‘Se Acaso Você Chegasse’, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, com tanta emoção. O disco fez sucesso e a cantora se apresentou pela primeira na televisão, na TV Tupi, e “Sérgio Porto elegeu-a uma das ‘Certinhas do Lalau’”.

Depois de Alaúrdes e Mário Amaro, cozinheiro da Marinha Mercante, Elza Soares iniciou relacionamento com o baterista Milton Banana. Eles se conheceram em Uberlândia e firmaram a parceria musical e amorosa em Goiânia.

No início da década de 1960, Elza Soares iniciou relacionamento com o jogador Garrincha, o mais destrutivo para sua carreira. Mas foi paixão de verdade, inclusive, talvez principalmente, sexual. Os dois ficavam semanas enfurnados em quartos. Ela, fiel; Garrincha, tinha mulher, Nair, e amantes, como a vedete Angelita Martinez e Iracy Maria. Para conquistá-la, Garrincha fingiu que conhecia a música de Billie Holiday. Deu-lhe o LP “Lady in Satin”, com Ray Ellis e orquestra. “Sua voz é mais bonita. Emociona de verdade. Deixa a Billie longe”, disse, meloso, o craque do Botafogo e da Seleção Brasileira. Mais tarde, disse: “Nunca amei ninguém e tô te amando. Pelo amor de Deus, não diz que não!” Elza cedeu. Juntaram-se, ganharam e torraram muito dinheiro, comprando imóveis e farreando. Mais tarde, decadente fisicamente, jogando em times medíocres, Garrincha chegou a agredi-la. Elza Soares lutou para curá-lo do alcoolismo, mas não conseguiu. Chegou a levá-lo para a Itália. Mas acabaram separados. Sua carreira foi prejudicada, porque foi perseguida por ter “tomado” Garrincha da família, mas Elza Soares é o símbolo do eterno retorno, com sua voz rouca, com seu samba meio jazz. É pura alegria, ao cantar, mas sua história de sofrimento a aproxima da cantora americana Billie Holiday.

O malabarista de pés mágicos

Garrincha, o jogador excepcional que fazia malabarismo com os pés, foi radiografado, com paixão e competência, por Ruy Castro na biografia “Garrincha — A Estrela Solitária” (Companhia das Letras). A fonte de José Louzeiro, além de Elza Soares, é o livro do jornalista e escritor.

Garricha e Elza
No início da década de 1960, Elza Soares iniciou relacionamento com o jogador Garrincha, o mais destrutivo para sua carreira

Ao ganhar a Copa de 1962 para o Brasil, na qual, apaixonado, jogou o fino, decidindo as partidas, Garrincha, instado pelo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, a sugerir um presente, pediu um passarinho mainá. Os outros jogadores pediram casas, carros e dinheiro da Caixa Econômica Federal. Ele só queria dinheiro para beber cachaça com os amigos, todos simplórios, e criar passarinhos.

Ganhou o presente e não agradeceu ao líder udenista. Elza Soares cobrou a falta de educação e Garrincha explicou sua filosofia: “Sabe de uma coisa, Crioula? Não gosto de aparecer, não gosto de ser fotografado e muito menos de ficar falando com jornalistas e políticos. Querem saber como faço para inventar os dribles, como bolei o lance tal que resultou no gol contra o time dos gringos. Eu lá sei? É coisa que acontece na hora. Depois não lembro, nem quero”. Como ocorre a outros gênios não intelectuais, Garrincha era profundamente intuitivo e, daí, nada dado a explicações metódicas.

Depois da Copa de 1962, com Garrincha em decadência, “a carreira artística de Elza Soares ficou de lado”. “Passei a viver em função de Garrincha, que conheci numa sexta-feira 13. (…) Nunca fui supersticiosa, mas, quando as coisas já estavam bem enroladas, passei a pensar que o carma negativo existe e o meu era ser apedrejada, enquanto trabalhava pela saúde e pela fama do ídolo brasileiro que todos amavam, que o Botafogo amava, mas ninguém fazia nada para ajudá-lo a livrar-se do alcoolismo.”

Em 1965, Garrincha foi vendido para o Corinthians. O time chegou a ganhar um título, mas o jogador, fora de forma e com o joelho machucado, acabou voltando para o Rio. Louzeiro conta uma história curiosa. O Corinthians não ganhava campeonato há muito tempo e Elza Soares e amigos consultaram o macumbeiro Alberto. O “milagreiro” disse que havia “um sapo-de-chifre enterrado no campo do clube, debaixo da trave”. Elza e amigos entraram no Parque São Jorge, à meia-noite, e, depois de muito cavar, descobriram o sapo. O time ganhou o torneio Rio-São Paulo. Até o técnico Oswaldo Brandão acreditava em Alberto.

Em 1970, para fugir das perseguições — sua casa chegou a ser metralhada e ela era achincalhada por radialistas e jornalistas —, Elza Soares e Garrincha foram para a Itália. Mas o contrato com o Milan não foi assinado e ele acabou jogando num time amador. Totalmente fora de forma e inchado. O relato da cantora: “As coisas foram bem até 1971. Ganhei bastante dinheiro. Estava com um contrato semestral de US$ 60.000 com o Franco Fontana, um dos maiores empresários italianos. (…) A imprensa me badalava e os italianos gostavam de me ver cantando o samba e mostrando o rebolado da mulata”. Mas perdeu o empresário quando a Associação dos Artistas decidiu impedir seus espetáculos. Elza Soares devolveu a Ferrari, casacos de pele e joias. Neném, como Elza Soares chamava Garrincha, não parava de beber.

Quando Elza Soares disse que não lhe daria mais dinheiro, porque gastava tudo com bebida, Garrincha ficou violento e a chamou de vagabunda. “A cantora plantou-lhe a mão na cara, ferindo-o com as unhas. Mané rebateu o golpe com um soco, quebrando-lhe alguns dentes.” À noite, Elza Soares daria uma entrevista à RAI e teve de pedir ao casal Maria Eunice e Araújo Netto, o jornalista, para auxiliá-la a conseguir um dentista. Ermanno Ricci fez uma prótese provisória e a cantora concedeu a entrevista. Alegre, divertida e espirituosa, como se nada tivesse acontecido. Elza Soares era assim: em público, esquecia a infelicidade doméstica e cantava e falava de modo esfuziante. Daí o acerto do título do livro do Louzeiro: “Elza Soares — Cantando Para Não Enlouquecer”. A música, mais do que a necessidade de sobreviver, deve ser o verdadeiro anti-depressivo desta artista magnífica.

Louzeiro conta que Elza Soares decidiu, um dia, inventar um novo compositor, Garrincha, que era avesso a escrever e a pensar. Pressionado, compôs “Receita de Balanço” e “Pé Redondo”. A cantora gravou, mas não fez muito sucesso. Maridos e namorados de Elza Soares sempre exploraram sua boa vontade, amizade e capacidade de amar. Pelo menos dois eram envolvidos com drogas.

Elza Soares queria que Garrincha estudasse e convocou o jornalista Arthur Poerner para ensiná-lo. Com boa vontade, Poerner tentou, mas Garrincha fazia tudo para não aprender, para fugir do “professor”. O jornalista relata que o jogador bebia sempre. “Elza se comportava diferente. Era vegetariana e abstêmia.” “É uma lady, uma Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald.”

Elza Soares e Garrincha ficaram juntos 16 anos. Foram anos de muito sofrimento e paixão. Um foi o grande amor do outro. Garrincha era extremamente mulherengo. Até os gays o apreciavam. Louzeiro conta que era bem-dotado e tinha uma espécie de hiper-sensibilidade: estava sempre pronto para o sexo. No final da vida, devido ao alcoolismo, ficou impotente. Morreu pobre, praticamente abandonado.

A cantora que usou o jazz para ser sambista

Os melhores capítulos do livro de José Louzeiro são aqueles que abrem espaço para críticos de músicas analisarem a cantora Elza Soares. Louzeiro escreve: “Hoje, está para a nossa música popular autêntica como Bessie Smith e Ella Fitzgerald estão para o blues”.

Elza Soares
Elza Soares se apresentando no IV Festival de Musica Popular Brasileira, da TV Record

Ruy Castro, um dos maiores estudiosos da música brasileira, principalmente da Bossa Nova, diz: “Elza é extraordinária. Para mim é deusa”. “Elza vem de uma época de amadorismo na música popular. Essa coisa de ganhar muito dinheiro, ficar rico, foi da geração de Chico e Cateano para cá. Os mais antigos, o pessoal da Bossa Nova, por exemplo, a geração do Menescal, do Carlinhos Lyra, por mais dinheiro que pudessem ganhar naquela época, jamais ficariam ricos. A música não era uma atividade profissional. Os cachês não eram tão valorizados. Em compensação, havia das pessoas uma relação meio de amor com a música. Não existia essa coisa mercantilista, como se tornou da geração seguinte em diante. Não estou fazendo nenhuma crítica, só estou constatando”, historia Ruy Castro. Elza Soares, conta Ruy Castro, “foi das primeiras cantoras que, praticamente, estrearam em LP de 12 polegadas”.

Quando Elza Soares, que nunca estudou música, se tornou uma grande cantora? Possivelmente, quando começou a cantar com uma orquestra, usando a voz como um instrumento musical a mais. Louzeiro explica que foi o baterista Milton Banana “quem preparou Elza para fazer aqueles balanços no palco, uma espécie de swing da pesada”.

Luiz Carlos Saroldi, que foi responsável pelo programa “Noturno”, da Rádio JB, comenta: “Agora, com a idade, [Elza Soares] baixou para o tom médio, o que muito me agrada; acho-a mais acessível, denota forte plasticidade e contagia. O samba cantado por Elza incorpora um componente meio blues, pois é desafio e lamento”. Para Saroldi, “Elza Soares nunca foi cantora de Bossa Nova, mas cantora de voz, de grande potencial vocal”. A cantora estaria mais próxima de Lena Horne, “mulher de palco”, do que de Billie Holiday, aposta Saroldi. “Há aquele negócio do som rouquenho, que deve ter sido uma bolação do próprio Aloysio Oliveira, inspirado em Louis Armstrong, mas isso virou efeito curioso, alegoria vocal. Me lembro de uma gravação dela na fase em que lançou ‘Maria, Mária, Mariá’, do Billy Blanco (1961/62). Era empolgante porque passava toda aquela energia, aquela vitalidade negra da Elza, coisa rara.” Elza Soares é elétrica, às vezes passa a impressão de que, se tocarmos nela, levaremos um choque.

Elza Soares
Ricardo Cravo Albin: trata-se de uma cantora solitária, no conjunto estelar da música brasileira. Não tem seguidoras

O crítico e musicólogo Roberto Moura garante que “Elza Soares talvez seja uma das três maiores estilistas da música brasileira”. Porque criou uma “marca”. “Existe a intérprete da voz pura, da nota muito bem colocada, alguma coisa no padrão de uma Ângela Maria ou Elis Regina, mas há, ao lado dessas intérpretes, a estilista, não necessariamente apolínea, não necessariamente bonita na forma, mas que se torna tocante pela originalidade como recurso.” Moura afirma que “Elza Soares tem um timbre raro, um balanço absurdo. Sua permanência é singular. (…) ‘Se Acaso Você Chegasse’ é alguma coisa muito séria. Ela já chegou pronta, brilhando na Odeon, com a música do Lupicínio Rodrigues”.

O musicólogo critica os que a aproximam de Billie Holiday: “É claro que Elza tem uma história de vida muito triste, como Billie, mas seu canto é extremamente alegre. Raramente a vi passando uma carga negativa ou pesada, como Billie”. Moura avalia que a cantora nada tem a ver com Bessie Smith. A interpretação sobre a música de Billie Holiday talvez seja por demais ortodoxa, porque, se é triste, oriunda de uma história pessoal complexa e complicada, sua música provoca mais prazer do que dor. Há, por assim dizer, uma alegria por baixo da dor. Billie Holiday espantava a tristeza do seu ser ao cantar. A música era sua (psica)análise. Mas aqui não é o lugar adequado para discordar do especialista.

Sérgio Cabral, que biografou cantores e compositores, sustenta que Elza Soares “é uma cantora de um ritmo fora do comum, uma voz poderosa. Tem timbre, tem tudo”. Sua “voz natural alcança notas difíceis e alcança bem. Nunca desafina. (…) Elza tem um potencial de voz tão privilegiado que pode cantar em qualquer tom. Acompanha qualquer modulação. É capaz de, em certos momentos, nem perceber que mudou de tom, pois faz isso naturalmente. Se a modulação for para cima, vai subindo e sai da frente. Ela tem instrumento vocal para cantar, e muito bem, a música norte-americana. (…) Absorveu certos cacoetes e até o bébébé de Louis Armstrong. Agora, com o blues, não vejo relação. Blues é mais lamento, estilo de Alaíde Costa e Aracy de Almeida. (…) Tenho um disco, gravado na década de 1970, com ela e Miltinho nos mais sublimes improvisos, ambos brincando com o ritmo”. O crítico assinala que Elza Soares é o que sobrou do samba.

Um dos grandes estudiosos da música brasileira, Ricardo Cravo Albin diz que, quando começou a ouvir Elza Soares, ficou impressionado. “Elza Soares, simplesmente endiabrada, com um claro sentido de improvisação, nos remetia ao jazz. Além disso, enveredava com estonteante desenvoltura pelos breques de um Louis Armstrong.” Um dos grandes momentos de Elza Soares, na visão de Albin, foi a gravação de “In the Mood”, “traduzida como ‘Edmundo’, sucesso de Glenn Miller”. O ator Warren Beatty, segundo Albin, ficou “impressionado com a performance de Elza Soares”. Certamente se perguntou: o que esta jazzista de Nova Orleans faz cantando em português? Elza Soares às vezes lembra Alberta Hunter, com aquela voz forte, que, embora extremamente feminina, tem um quê de voz masculina.

Albin diz que, “do ponto de vista vocal”, Elza “é um tenor, com aquela garganta privilegiada. Começou fazendo esquetes, imitando Louis Armstrong, e se tornou um exemplo isolado em matéria de imitação. Em voz feminina de cantora imitando Armstrong é única. Yma Sumac é um vocal, porque dava algumas oitavas acima, o que é extraordinário, pois é voz absolutamente de sino, estridente. Mas Elza joga seu potencial com uma bossa que a coisa parece saída do útero. Uma conjuminação de garganta e útero, que resulta em um som abismante e magnético. (…) Trata-se de uma cantora solitária, no conjunto estelar da música brasileira. Não tem seguidoras. (…) Fazer o que ela consegue, somente a Leny Andrade se aproxima, por ser cantora de jazz. Ela é cantora de samba, de música brasileira, com o fascínio da improvisação. Não tem escola, por isso tornou-se a grande solitária”.

Elza Soares está para a música popular autêntica como Bessie Smith e Ella Fitzgerald estão para o blues

O maestro Rildo Hora conta que, “dentro da Odeon, o comportamento de Elza e Miltinho era uma coisa impressionante. Gravavam sem play-back, isto é: tirava-se o som na hora, os dois saíam cantando. (…) No que diz respeito à voz, não chega a ser soprano, mas tem uma tonalidade alta, para a média das cantoras brasileiras, que lhe permite fazer duetos com cantores. Curioso, também, é que canta com muita facilidade em falsete. Aí, então, faz o que quer com aquela garganta. (…) Ela canta no tom que o maestro quiser”.

Rildo Hora avalia que, apesar das “tiradas jazzísticas”, Elza Soares “não” é “cantora de jazz, mas, sim, sambista que ouviu jazz, e aí está o barato. Ela pegou a influência do negro norte-americano, abrasileirou; ouviu os blues de Nova Orleans, transformou-os em cantos da senzala”. O maestro também discorda de que tenha a ver com Billie Holiday. A diferença principal é que Billie Holiday sucumbiu. Elza sobreviveu a perseguições e a maridos e namorados destrutivos. Antes de tudo, é, como diria Euclides da Cunha, uma forte. No dizer do maestro, só duas cantoras se aproximam de Elza Soares: “Carmen Miranda e Elis Regina, cantando ‘Upa Neguinho’”.

O cantor e pandeirista Miltinho, parceiro de Elza Soares em quatro LPs, “Elza-Miltinho & Samba” (Odeon), repete a opinião dos críticos, acrescentando sua interpretação: “Se Elza fosse americana, seria Ella Fitzgerald. Jamais alguém fará o que ela faz cantando. Não é só sambista, não. Canta samba-canção como ninguém. (…) Neste país, onde jamais teremos uma nova Elis Regina, também nunca mais existirá outra Elza Soares. Elas são únicas. Inimitáveis!”

O cantor Moreira da Silva, um dos patronos da artista nos tempos mais difíceis, conta que, “na primeira vez em que” ouviu “Elza cantando”, ficou “abismado. Tudo nela me impressionava: a postura decisiva e alegre, o olhar firme, aquela rouquidão sensacional. Aí eu disse comigo mesmo: essa garota vai em frente”.

Billy Blanco, de quem Elza Soares gravou “Maria, Mária, Mariá”, “Acho que sim” e “Amor Perfeito”, relata que a cantora esmerava-se nas interpretações, “repletas de jazz, muita bossa e criatividade, mas sempre obedecendo, rigorosamente, ao compositor, respeitando nota por nota. Ela cantava uma vez, repetia de maneira quase perfeita, na terceira já dava para gravar. Um fenômeno”.

O crítico Tárik de Souza anota que, “se alguém merece e dignifica o título de sambista — com uma bateria na garganta, os pés de passista e a mobilidade vestual do porta-estandarte —, esse alguém é Elza. É curiosa a relação da cantora com o jazz. Nota-se em suas gravações, inclusive a que estourou logo de cara, ‘Se Acaso Você Chegasse’, uma ligação empírica com o gênero de Nova Orleans, mas nada que se compare à fusão programática empreendida pela Bossa Nova. Elza parece ter ‘linkado’ jazz & samba via África, sem intermediação harmônica europeia. Seu scat inclusive está mais para Louis Armstrong do que para Miles Davis. Não por acaso, um de seus discos recebeu o nome hoje politicamente incorreto de ‘A Bossa Negra’”.

Souza diz que “o potencial vocal de Elza não tem sua força maior na extensão, mas na coloratura, na riqueza humana do timbre crestado, no uso consciente da rouquidão como suporte de balanço e carimbo de vivência. Elza muitas vezes sugere as notas em vez de as ferir. Há até um disco excelente em que ela duela com a bateria de Wilson das Neves. (…) No jazz talvez fosse possível compará-la ao bebop vocal de Sarah Vaughan e no Brasil situá-la entre as grandes damas negras Clementina de Jesus e Carmen Costa. Mas qualquer comparação soa forçada, porque na verdade Elza é única. E, por enquanto, não deixa discípulas diretas”.

Louzeiro assegura que Louis Armstrong “era grande admirador” de Elza Soares. Só não acrescenta a prova. Quem ouve Elza Soares não precisa se tornar fã, mas não tem como deixar de dizer que se trata de uma cantora do primeiríssimo time do cancioneiro popular internacional.

O livro de Louzeiro é uma grande e bela homenagem à cantora e, também, à cultura brasileira.