A verdadeira Lolita que inspirou Vladimir Nabokov a escrever o livro

A verdadeira Lolita que inspirou Vladimir Nabokov a escrever o livro

Florense Sally Horner, raptada aos 11 anos, seria a inspiração para a personagem Dolores “Lolita” Haze

Mais do que russo (nasceu em São Petersburgo) ou americano, Vladimir Nabokov (1899-1977) é um escritor do mundo. O que não significa sugerir que deixou de ser russo — nasceu na Rússia — ou deixou de ser americano. Alimentou-se das duas tradições culturais para criar uma prosa única. “Lolita” (Alfaguara, 392 páginas, tradução de Sergio Flaksman e posfácio de Martin Amis), de 1958, é seu livro mais famoso. É praticamente uma lenda. Mesmo quem não tenha lido, sabe do que se trata — dados o filme de Stanley Kubrick e centenas de reportagens, resenhas e comentários. O autor do romance, homem circunspecto, deixa a impressão de que é uma incógnita. Na verdade, não é. Ele escreveu sobre si, em “Fala, Memória” (Alfaguara, 328 páginas, tradução de José Rubens Siqueira), e há a estupenda biografia escrita pelo irlandês Brian Boyd (PhD em literatura pela Universidade de Toronto), publicada em dois volumes, “Vladimir Nabokov — Os Anos Russos” (Anagrama, 626 páginas, tradução de Jordi Beltran) e “Vladimir Nabokov — Os Anos Americanos” (Anagrama, 966 páginas, tradução de Daniel Najmías). Não há tradução brasileira. “Véra. Señora de Nabokov” (Alianza Editorial, 744 páginas, tradução de Miguel Martínez), de Stacy Schiff, é uma magnífica biografia de Véra Nabokov, a mulher do autor de “Fogo Pálido”. Trata-se, por sinal, de uma biografia indireta de Vladimir Nabokov. Ganhou o reputado prêmio Pulitzer.

The Real Lolita
O livro “The Real Lolita”, de Sarah Weinman, resgata a história de duas pessoas cuja história teria colaborado para a formatação do romance “Lolita”, de Vladimir Nabokov

Os livros de Brian Boyd e Stacy Schiff, exaustivos a respeito da vida de Vladimir Nabokov e sua extensa obra, são detalhistas sobre o processo de elaboração de “Lolita”. A história é baseada num fato real ou é produto da imaginação poderosa do escritor? Stacy Schiff não menciona nenhuma vez que as personagens Dolores “Lolita” Haze e Humbert-Humbert tenham sido inspiradas nas pessoas reais Florence “Sally” Horner e Frank La Salle. Brian Boyd, numa pesquisa de 1592 páginas, faz apenas uma referência à história supostamente inspiradora (está na página 268 da edição espanhola).

Brian Boyd relata que Vladimir Nabokov leu “notícias sobre acidentes publicadas em jornais, sobre crimes sexuais e assassinatos: ‘um violador de meia idade’ que raptou Sally Horner, uma garota de 15 anos de Nova Jersey, e a manteve em seu poder durante 21 meses, levando-a como ‘escrava’ por todo o país até que a encontraram em um motel do sul da Califórnia”. O nome do homem não é citado. Por que a quase nenhuma importância dada ao caso? Porque, como mostra o biógrafo, o romance de Vladimir Nabokov vai muito além da história de Sally Horner e de seu raptador. Reduzi-lo a isto é reduzir a importância de sua literatura (que nada tem de jornalismo).

A Lolita do mundo real

A história ganha mais informações com o recém-lançado “The Real Lolita” (Harper Collins, 320 páginas), de Sarah Weinman. O livro mereceu comentário de Sérgio Augusto (não cita Brian Boyd), no suplemento “Aliás”, do “Estadão”.

A história da Lolita real sai do “rodapé” da biografia de Brian Boyd e ganha o centro do palco. “Dolores ‘Lolita’ Haze teria sido inspirada numa garota de 11 anos chamada Florence ‘Sally’ Horner, raptada em 1948 pelo pedófilo Frank La Salle, mecânico cinquentão, que a manteve em cativeiro quase dois anos”, relata Sérgio Augusto.

Florence “Sally” Horner e Frank La Salle teriam inspirado as personagens Dolores “Lolita” Haze e Humbert-Humbert, do romance “Lolita”, publicado há 60 anos

“O caso, amplamente explorado na imprensa, dada a frequência com que tarados molestavam e sequestravam meninas em toda a América no final dos anos 40 (uma a cada 43 minutos, segundo o FBI), teve desfecho feliz: Sally logrou fugir e La Salle foi preso e condenado. Feliz em termos. Sally morreria num acidente de carro, aos 15 anos de idade”, conta Sérgio Augusto.

“Sally era morena, praticamente da mesma idade de Lolita, e também filha de mãe viúva e chantageada com uma ameaça de internamento numa escola correcional. Seu sequestro seguiu o mesmo modus operandi que Nabokov desenvolve em seu romance. Weinman encontrou anotações e recortes de jornais sobre o caso nos arquivos do escritor, até mesmo um registro da morte de Sally, em agosto de 1952”, assinala Sérgio Augusto. “Há claras — e, às vezes, diretas — referências ao drama de Sally e a La Salle em ‘Lolita’. No capítulo final, atormentado pela culpa, Humbert-Humbert se compara a La Salle e confessa sua desconfiança de que também possa ser condenado a 35 anos por estupro.”

No final de seu artigo, Sérgio Augusto, um dos mais importantes jornalistas culturais do país — ao lado de Ruy Castro —, faz a coisa certa: escreve que, “do ponto de vista literário”, as “especulações e paralelismos” não têm importância “nenhuma”. “Nabokov talvez nem precisasse de Sally Horner para criar sua paradigmática ninfeta, pois já localizaram referências à sexualidade precoce de meninas pré-púberes em pelo menos seis de suas criações ficcionais, entre contos, novelas e romances.” Brian Boyd revela que Vladimir Nabokov fez ampla pesquisa sobre a sexualidade de pessoas do sexo feminino “de 6 a 19 anos”. Não deixou nem mesmo de pesquisar as gírias dos jovens.

Um livro icônico

Vladimir Nabokov

“Lolita” permanece causando escândalos. A paixão — abusiva, frise-se — de um homem maduro por uma adolescente, praticamente uma criança, é mesmo chocante, ainda que o romance se trate de alta literatura, de um refinamento ímpar. Brian Boyd afirma que se trata de um “estudo de um caso de abuso sexual”, mas “também consegue, contra todas as expectativas, ser uma apaixonante e comovedora história de amor. Humbert exalta Lolita com o máximo de delicadeza e fervor, e a utiliza com o máximo de determinação”. O biógrafo cita um comentário do crítico Lionel Trilling (1905-1975), que afirma permanecer “válido”: “Na narrativa recente, nenhum amante pensa na sua amada com tanta ternura, nenhuma mulher tem sido tão encantadoramente evocada, com tanta graça e delicadeza, quanto Lolita”.

A biografia de Brian Boyd explica com rigor, e de maneira apaixonada — o que não quer dizer irracional —, tanto a vida quanto a literatura de Vladimir Nabokov. A história da composição do romance “Lolita”, de tão ampla e perspicaz, supera treminhões de críticas literárias. Mesmo se Sally Horner não tivesse existido, os leitores teriam o “clássico” Lolita em suas mãos. Porque a recriação do caso, devido uma imaginação poderosa e uma capacidade de criar impressionante, praticamente produziu outra história — muito mais rica e reverberante. Sobretudo, gestou um livro que se tornou, digamos, icônico. Lolita, a personagem e o livro, é uma figura tão emblemática quanto Marilyn Monroe, John Lennon e Che Guevara. Graças ao romance e, sobretudo, ao belo filme de Stanley Kubrick.