Somos nós que mudamos os livros que lemos, inserindo neles as nossas vivências

Somos nós que mudamos os livros que lemos, inserindo neles as nossas vivências

Sim, os livros me deram rumos e gostos literários, mas meus defeitos e idiossincrasias estão ainda aqui, bem cultivados e inflacionados, obrigado, obrigado. Nenhuma mudança sísmica como aconteceu na vida dos autores desses textos; no máximo, orçamento deficitário para manter o vício das leituras desorganizadas e doenças respiratórias causadas pelo acúmulo de poeira nas pilhas de livros ainda por ler. Creio, inclusive, que somos nós que mudamos os livros que lemos, inserindo neles as nossas vivências (Otto Lara Resende dizia que todo leitor sempre lê a si mesmo, ou algo assim). Mas vá lá: se o freguês quer, assim é (se lhe parece) — escreverei sobre os livros que “mudaram” a minha vida.

3764
Troco uma dúzia de amantes por um único amor

Troco uma dúzia de amantes por um único amor

Quem já não sonhou em ter alguém que realizasse todos os seus prazeres? Imagino como seria ter um escravo de amor que obedecesse às leis de um romance inventado por mim, que comigo protagonizasse as mais incríveis cenas profanas, que não me castrasse os impulsos nem me regulasse a libido. Um devoto a mim e à minha maneira de ser e querer do meu jeito, mesmo quando eu não quisesse ser nada, senão eu mesma e a minha mesmice.

712
‘Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu’

‘Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu’

Olhar através do buraco da fechadura parece um tanto excitante. Há em nós um espectador “voyeur”, passeando pelas inúmeras janelas indiscretas da internet e das relações cotidianas. Vídeos vazados, nudes, batida de carro, briga de vizinho — dramaturgia sedutora e instigante estimulando a mirada. Para alguns, não há diversão maior do que a novela da vida alheia. É inegável: observar o outro secretamente é tão provocante quanto acompanhar a dança que o olhar da câmera do Hitchcock executa.

1144
Ser feliz não é direito. É obrigação

Ser feliz não é direito. É obrigação

Todos os dias, em cada canto do mundo, alguém espera ser recompensado pela batalha diária, pela bondade, pelas boas intenções. Mas como disse meu amigo, ser feliz não é troféu por mérito, é comprometimento. É recusar afundar miseravelmente a própria história em lamentos e dores. É esperar menos dos céus e mais de si mesmo. Nas salas de aula dos cursos de filosofia e nas capas dos livros de autoajuda, do alto da torre Eiffel ou embaixo do viaduto do Chá, nos vídeos motivacionais do YouTube e nas rodas de amigos está lá, batendo ponto, o desejo de encontrar a fórmula mágica para transformar em contentamento as agruras diárias.

Declaração de voto: Beethoven prefeito!

Declaração de voto: Beethoven prefeito!

Ele foi o maior pianista não apenas do seu tempo; ele foi o maior pianista de todos os tempos. Ele foi capaz de, surdo, reger suas sinfonias e arrancar aplausos arrebatados do público. Ele revolucionou tudo o que fez na vida. Só ele agora pode salvar a política da nossa cidade da mediocridade, da fealdade e da corrupção. Vote em quem já provou que é capaz de revolucionar. Os outros candidatos até podem ser bons, mas só ele é gênio. Só a arte dele sobreviveu aos séculos. Só ele é verdadeiramente imortal.

O desafio de achar graça na própria vida e deixar de acreditar que a do outro é melhor

O desafio de achar graça na própria vida e deixar de acreditar que a do outro é melhor

Com o tempo, percebemos que não há semideuses, isso é uma grande bobagem. Tudo o que existe são pessoas que, em maior ou menor grau, lutam contra suas limitações e procuram extrair o melhor da vida. O maior desafio é conseguir enxergar que felicidade pode residir também na regularidade. É perceber que filme e pipoca podem trazer tanta plenitude quanto se acabar numa balada chique com um copo de champanhe na mão. É possível viajar o mundo em hotéis 5 estrelas e, ainda assim, sentir-se infeliz, enquanto um churrasquinho modesto com cerveja aguada e bons amigos pode render a mais genuína plenitude. Porque ser feliz depende muito mais do leitor do que da leitura.