A vida é dura como um osso, mas tem lá o seu sabor

A vida é dura como um osso, mas tem lá o seu sabor

Vocês sabem, os cães são criaturas perspicazes, mas, a despeito do que muita gente imagina, eles não entendem tudo o que um ser humano fala e sente. Não. Não é bem assim. Nem a gente mesmo compreende os redemoinhos que esvoaçam por dentro, quem dirá, o adorável melhor amigo de um homem. Pior: ali nos encontrávamos, uns perdidos comendo pizza sob a luz do luar, enquanto arquitetávamos o que fazer para que ele reencontrasse a sua casa, o seu dono, o seu próprio capacho de dilemas. Pena que o bicho refugasse o chope que despejei na concha da mão para que ele lambesse. Ele não lambeu; eu, sim. Parecia um cachorro decente com histórias mais interessantes que a maioria dos homens com os quais eu andava tratando nos últimos dias.

A última entrevista de Nelson Rodrigues

A última entrevista de Nelson Rodrigues

Aos 66 anos de idade, morando em um apartamento em Copacabana, de frente à avenida Atlântica, o velho Nelson apresenta-se com o mesmo tom debochado e exagerado de sempre. Impondo a sua presença e aquele seu jeito peculiar e característico de se expressar e de se fazer entender: olhar insondável e apático; voz grossa e embolada; gestos vagarosos e ornamentais como os de um peixe colorido num aquário. Sem deixar, portanto, de esboçar certo entusiasmo e de exibir uma imagem de opulência física de causar inveja a qualquer um. Apesar de estar com a saúde um tanto quanto abalada, uma vez que ainda se recupera de uma colite ulcerática, doença essa que por pouco não o matou.

Deixe o coração sangrar. É na solidão que você descobre a si mesmo

Deixe o coração sangrar. É na solidão que você descobre a si mesmo

Um dia, chega o período conturbado da vida; uma fase em que os mais sinceros sentimentos despertam de suas profundezas. Fica tudo meio confuso. Diante de porquês sem respostas, a angústia surge impiedosa: atropela certezas e derruba conquistas. Morando só ou acompanhado, sua casa parece grande, gelada e vazia. Sem rumo, você não sabe se vai ou se fica, se resiste ou se se entrega. Por fim, você se abandona. E fica completamente sozinho.

‘O amor é sexualmente transmissível’

‘O amor é sexualmente transmissível’

Parece que o mundo vai acabar. Eu te consumo, te quero com urgência. Tenho pressa em me satisfazer, prontidão em saciar a fome de um tipo veloz de amor, de sexo, de companhia. Eu te uso e você me usa pelos mesmos motivos. Precisamos um do outro para que nos fartemos desse algo possante e magnético que somos nós dois juntos. Tragamos o cigarro da nossa relação acessível, disponível, lasciva e despretensiosa. Nos servimos sem o menor pudor e o mínimo sinal de constrangimento. A premência de viver até a última gota estimula o tesão pela vida em si e pela fugacidade do prazer do instante.

‘O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades’

‘O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades’

Todo ser humano que se presta a viver há de padecer, cedo ou tarde, das imprevisibilidades da vida. A estrada entorta, o leite derrama, o amor esfria ou amarga feito café de ontem. A gente erra, perde, desacerta o passo. É traído pela sorte, toma rasteira, apanha do imprevisto feito condenado. Os planos sofrem fraturas expostas no caminho da estrada real, e nós, momentaneamente privados do prazer, largamos de seguir alegres e contentes no trilho descarrilhado de nossa miserável ilusão.

As cartas perdidas de Caio Fernando Abreu

As cartas perdidas de Caio Fernando Abreu

Decidi achar as cartas do Caio Fernando Abreu no meu arquivo (soterrado de papéis, acumulados em décadas). Ele escrevia normalmente para mim nos anos 1970, quando por um tempo fomos muito amigos e nos correspondemos, ele em Porto Alegre, eu em São Paulo. Biógrafos e estudiosos já me pediram essas cartas. Uma biógrafa chegou a duvidar da existência delas, já que eu não ofereço a aparência de um capital simbólico suficiente para convencer os deslumbrados. Mas por algum motivo não cedi. Agora vou revisitar cada uma delas, sem obedecer a nenhuma cronologia. São todas cartas legítimas, originais, com a assinatura do amigo que já tinha grande prestígio na época e se transformou num escritor cult, numa celebridade nacional, queridíssimo por muitos milhares de leitores.