Autor: Graça Taguti

Quando a vida marca gol contra o que você faz?

Quando a vida marca gol contra o que você faz?

Difícil responder de imediato. Sobretudo quando os imprevistos puxam o tapete da gente. As pegadinhas do acaso nos deixam de mãos nuas. Nossas pretensas certezas vão de repente para o ralo. Tudo pode acontecer a qualquer hora. Mas a gente nunca acha que o destino, ou o que seja, armará feio para o nosso lado. É o outro quem se arrebenta, machuca, quebra a cara, a coluna, fica em coma, adoece inexplicavelmente. É o outro quem morre.

Mãos ao alto! Isto é um abraço

Mãos ao alto! Isto é um abraço

É um desejo, quase um cansaço. Mãos ao alto! Isto é um amor escondido, um carinho perdido, uma promessa de estrelas. Prepare-se logo para novos assaltos, iluminados como jamais viu. Invasões nas quais trocam-se armas por flores, gritos por sussurros, defesas por clamores. Novas aventuras se aproximam. Nesse mundo de pedras e podres, alguém prega novos momentos e encontros brandos, assinalados um a um, no livro branco da paz. A imundície foi posta a nocaute.

Desligue o celular e olhe o céu

Desligue o celular e olhe o céu

Os dias transcorrem, a alegria pisca à nossa volta, a paz acena lá de longe com um lenço branco. A felicidade passa por nós e sussurra algumas palavras em nossos ouvidos, ocupados demais com fones sofisticados e outras traquitanas tecnológicas para ouvi-las. Neste movimento de autorrecolhimento ou auto expulsão simultânea dos clamores do mundo exterior, nos enredamos em um útero ou uma bolha de propriedade exclusivamente nossa. Espaços volitivamente autistas. Impenetráveis.

Contradições acima de qualquer suspeita

Contradições acima de qualquer suspeita

Quem nunca afirmou detestar mulheres louras e, de repente, começa a desfilar com uma pantera platine blonde- tintura irretocável, nos volumosos cabelos? Te amo, te odeio. Não suporto peixes, adoro linguado assado. Não tolero homens falantes. Ah, me apaixonei por um deputado honestíssimo. Precisa ver como ele discursa. Pintar a boca de vermelho, jamais! Quero esse batom molhado cor de sangue, máxima duração. Lindo. Não imagino ter filhos e nem terei.

O que foi dito bêbado foi pensado sóbrio

O que foi dito bêbado foi pensado sóbrio

Ah, quantos de nós temos coragem de traduzir em palavras as explosões de afeto, fúria ou ódio, claramente estampadas em nossos olhos. Quantos de nós se escondem atrás dos véus da conveniência, ardilosas maquiagens, máscaras de bem-se-relacionar no cotidiano, guardando tudo o que nos ameaça ou fragiliza no quarto escuro de emoções cansadas, amassadas e contraditórias. Francamente. Quase não há espaço para o amor e a ternura se acomodarem junto ao medo, a insegurança e a frieza, pois o quarto é diminuto — do tamanho de uma solitária prisional.

O silêncio também é resposta

O silêncio também é resposta

O silêncio diz muito mais do que se costuma ouvir de bocas aflitas, que jorram aos borbotões palavras atrapalhadas. Discursos tolos, sem aroma, nem sumo. Por vicio ou pretensa natureza, estamos acostumados a nos relacionar com a boca. Dela emanam sons filosóficos, conexos ou desconexos. Em sua maioria vazios como bolinhas de sabão. Falas de acompanhar a gula de bolinhos de bacalhau, chopes gelados em série, alargando barrigas carentes e solitárias companhias.

Depois da tempestade vem a bonança

Depois da tempestade vem a bonança

Se pegarmos carona na geografia iremos relembrar dos países mais propensos a serem atingidos por furacões, dentre as habituais intempéries. Os Estados Unidos, Canadá, a Austrália e o Japão colocam-se no topo da fila. Agora imagine que, por hipótese, você e eu habitemos a América do Sul. Para nós soa estranho, longínquo, ficcional até aventarmos uma tragédia dessas. Furacões, tornados, ciclones. Todos sinônimos, nos dicionários dos sustos.

O que você viveu ninguém rouba

O que você viveu ninguém rouba

O que você viveu ninguém rouba. Seus amores secretos, tempestades e estiagens, sonhos alagados de ideais, as vezes tão pueris e ingênuos. Seu pendor artístico, os gestos incompletos, sorrisos entregues às luzes do anoitecer, pálpebras que piscam com suavidade, mistérios da alvorada. Todas estas riquezas lhe pertencem. Esta é a sua abastada herança, que se manterá pulsante, enquanto você, com suas vestes de carne fresca ou amadurecida, deslizar entre a terra dos homens.

Ninguém consegue viver de janelas fechadas

Ninguém consegue viver de janelas fechadas

Imagine abrir sua janela ao acordar e, do mesmo modo que as lagartas magicamente se borboleteiam pelas paisagens da vida, encontrar uma fruta que se oferece a você. Clama por seu gesto de sorvê-la inteira. Entregando assim sua gratidão a um dos tantos presentes que a natureza diariamente lhe dá, sem exigir nada em troca. Saber receber é uma arte. Abrir os braços, o sorriso, o corpo e o coração e dispor-se aceitar quem estende o afeto a você. Receber exige coragem. Integridade. Desejo. Iniciativa. Transparências do querer genuíno.

O coração anda molhado. Mas a boca está seca

O coração anda molhado. Mas a boca está seca

Muitos de nós vivem com o peito mais encharcado que roupa esquecida na máquina de lavar, com a torneira aberta. Mais inflado que chester do almoço de domigo.Tem afeto chorando lá dentro, declaração de amor enxovalhada. Raiva presa com rolha na garganta. Desejos desnutridos. Saudade e lembranças mergulhadas em um balde de água sanitária. Tudo para esquecer, eliminar manchas de experiências marcantes e sensações da história pessoal.