Romance na Netflix que você não vai querer assistir com outra pessoa, além do seu amorzinho Laura Campanella / Bronze Filmes

Romance na Netflix que você não vai querer assistir com outra pessoa, além do seu amorzinho

Casamentos acabam, como também chegam ao fim amizades, namoros, casos e sociedades. Respeitar os ciclos da vida, a natureza única de certas relações, aceitar que em cada uma há mistérios que talvez nunca se revelem, desejos confusos, ambições megalômanas, é um passo firme, decisivo, no rumo da felicidade, que surge para cada um do jeito que só ela entende.

A maioria das comédias românticas ignora esse pressuposto básico para a boa vida, e “Apaixonada” faz o mesmo quase todo o tempo, armando uma saída ex deus machina para Bia, a lamurienta mocinha de Giovanna Antonelli, na undécima hora. Antonelli tem um faro certeiro nesse tom. Quem acompanhava as telenovelas da Rede Globo de Televisão decerto lembra-se de Jade, a anti-heroína de “O Clone”, novela de Glória Perez com Jayme Monjardim como diretor de núcleo, exibida entre 1º de outubro de 2001 e 14 de junho de 2002.

Bia, a protagonista do filme de Natalia Warth, parece uma Jade sem muito do glamour do folhetim e do carisma de Antonelli, bem-explorado ao longo daqueles 221 capítulos. Causa espécie que, Warth, vinda da turma de colaboradores da emissora, não consiga dar um sopro de ânimo nem à personagem central nem à história, preferindo apenas materializar as imagens sugeridas por Cris Souza Fontês em “Apaixonada Após os 40”, romance publicado pela mineira em 2020.

Júlia, a filha da Bia interpretada por Rayssa Bratillieri, desce com o carregamento das malas com que irá para a Argentina, onde vai para estudar. A diretora-roteirista enche essa primeira sequência com os elementos visuais providenciados pela direção de arte de Priga Costa, numa tentativa deliberada de estabelecer a estética caótica que marca esse prólogo e se espraia em todas as direções, suavizado pelas falas naturalistas do roteiro de Ana Abreu, Sabrina Garcia e Rodrigo Goulart.

Como se pode desconfiar, a partida da garota seria um bom pretexto para que Bia, dona de uma confeitaria na Zona Sul do Rio de Janeiro, e o marido, Alfredo, de Danton Mello, insosso a não mais poder, redescubram os sabores mais picantes do relacionamento, há muito esquecidos sob uma grossa camada de desencontro e desencanto, mas Alfredo prefere o divórcio. 

Esse primeiro ato deveria contar com a experiência de Antonelli a fim de dar cabo das muitas deficiências do filme, a começar por uma explicação um pouco mais minuciosa quanto às razões que levaram o personagem de Mello a medida tão extrema, intempestiva até.

O que se tem, no entanto, é a junção de mais tipos inconvencionais e caricatos à história, a exemplo de Dora e Jeff, os amigos de Bia vividos por Polly Marinho e Pedroca Monteiro, perdendo-se a chance de elaborar a contento as nuanças de Pablo, a aspiração romântica da confeiteira, com Rodrigo Simas no piloto automático. A beleza plástica do filme pode ser atrativo suficiente para que se chegue ao derradeiro dos 94 minutos — mas só se você é muito, mas muito fã do elenco.


Filme: Apaixonada
Direção: Natalia Warth
Ano: 2024
Gêneros: Comédia/Romance
Nota: 7/10

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.