Histórias distópicas como “Spiderhead” desempenham um papel quase educacional. Sob a camada de narrativas delirantes, improváveis e, por vezes, absurdas, encontram-se verdades profundas que muitos evitam enfrentar, mas que se tornam inevitáveis em situações cada vez mais comuns. Abordando paralelamente as intensas e perigosas emoções que guiam nossas vidas, o filme de Joseph Kosinski, conhecido por “Top Gun: Maverick” (2022), foca na propensão humana à autodestruição e à manipulação dos ambientes ao seu redor, incluindo sua biologia e pensamento. Conforme argumentado por Schopenhauer há dois séculos, a incapacidade fundamental do homem em fazer escolhas corretas tende a arruinar tudo.
Baseado no conto “Escape From Spiderhead” de George Saunders, publicado em 2010, onde prisioneiros aceitam ser cobaias de um novo fármaco destinado a suprir a falta de emoção na vida das pessoas, Kosinski transforma a essência fatalista do texto em imagens de alta energia e humor. O filme destaca a agenda oculta de uma organização aparentemente benéfica que, em um futuro próximo, visa controlar o comportamento dos prisioneiros propensos à discórdia e violência, mantendo-os sob vigilância constante. Inspirado por “1984”, de George Orwell, os personagens estão continuamente sob os olhos de câmeras rigorosas, especialmente durante os experimentos conduzidos por Steve Abnesti, o milionário que financia e dirige a loucura com mão de ferro.
Chris Hemsworth interpreta de forma convincente o antagonista, um personagem charmoso e sinistro, em uma tentativa de conquistar novamente papéis dramáticos e avançar sua carreira, como quase conseguiu com “Rush — No Limite da Emoção” (2013). Tal como no filme de Ron Howard, Hemsworth ofusca o desempenho dos coadjuvantes e supera o próprio enredo, uma adaptação notável do conto de Saunders, que parecia difícil de filmar, mas foi transformado em um sucesso cinematográfico graças ao roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick.
O filme segue 25 experimentos, organizados de forma prosaica em uma cartela de bingo, exigindo certa indulgência do público. Abnesti precisa apenas testar a substância N40, que promete comercializar uma droga capaz de fazer as pessoas experimentarem os riscos do amor. A pesquisa avança sem grandes problemas até que Heather, interpretada por Tess Haubrich, reage de maneira inesperada, desencadeando uma série de eventos que levam Jeff, vivido por Miles Teller, a decidir abandonar a equipe. A aproximação com Lizzy, interpretada por Jurnee Smollett, sugere uma relação espontânea e autêntica, sem necessidade de manipulação.
Kosinski, um dos cineastas mais promissores de sua geração, reafirma sua posição com “Spiderhead”. Combinando direção de atores e uso de avançados efeitos visuais, o filme é, no mínimo, perturbador. Uma continuação seria bem-vinda.
Filme: Spiderhead
Direção: Joseph Kosinski
Ano: 2022
Gêneros: Ação/Ficção científica/Mistério
Nota: 9/10