Morrer de amor é o que mais se parece com viver para sempre

Morrer de amor é o que mais se parece com viver para sempre

Aqui deste canto suspenso do mundo, bicho triste, enxerido e só, saio à janela e escapo um instante de tanto dever doméstico, a louça, a roupa, o lixo, as contas, e espio um casal lá embaixo. Um belo e simples casal feliz na manhã de seu amor, sentado no banco morno do jardim apanhando sol.

Certo é que o “belo e simples casal feliz” é por minha conta, mera expressão de minha boa vontade. Porque eu sequer os conheço, não enxergo seus rostos daqui e tampouco sei se o romance anda no começo, no meio ou no fim. Portanto, não sei se são belos, simples e felizes. Mas passa aqui dentro uma emoção estranha e um desejo louco de sabê-los assim.

Sua conversa mansa, os gestos calmos, o riso franco, o recato elegante das mãos ora dadas, ora postas sobre o joelho do outro, ora desenhando círculos no ar, ora investidas em carinhos na face alheia, tudo isso parece coisa de namoro novo, encabulado, tateando o chão ao redor depois do tombo no escuro. Mas bem podia ser o remanso de quem por sorte e por empenho superou a tormenta da paixão, a fogueira barulhenta do entusiasmo primeiro, a agitação mental perturbadora. E agora vive a paz que vem depois da intempérie.

Seja quem for esse casal, novo ou velho, no início, no meio ou no fim, eu torço por eles. Que não lhes falte amor, dinheiro, assunto. E se faltar, que encontrem juntos ou não o caminho de cada um.

Mal sabem eles, mas seu namoro no banco cumpre agora uma adorável e grandiosa missão. Seu amor puro e simples trouxe a este canto suspenso do mundo uma esperança vaga e um sonho insano. Agora salto com eles rumo a terras distantes, viagens eternas, domingos à tarde, sol quente e brisa morna ventando saudade. Sigo em sua companhia. Essa gente que ama para viver, ama porque deseja ficar viva. E porque morrer de amor é o que mais se parece com viver para sempre.

Então vamos, casal amigo, povoar o mundo de boas lembranças. Vamos que é tempo de reunir os outros, fazer grupos, desorganizar a ordem das coisas. Vamos a Brasília criar o Ministério do Amor! E entre as velhas pastas da educação e da cultura, da saúde e do bem-estar social, teremos uma nova agenda de investimentos amorosos!

A partir desse dia, a prerrogativa única de toda decisão será forte, franca e irrevogável: “faça-se tudo com amor ou não se faça nada!” É isso! Nós acertamos!

Aos poucos, o crime nas ruas vai desaparecer por pura falência de intenções criminosas, as brigas no trânsito se extinguirão em seguidos surtos de civilidade, as guerras fracassarão dos dois lados por avalanches de deserção militar, a tolerância, a compreensão e o respeito jorrarão pelas ruas em caminhões pipa e a vida será muito mais simples e cheia de amor. Tudo isso porque tem um casal ali embaixo, amando seu amor simples e… partindo de repente, sabe-se lá para onde. Esperem, amigos! Eu ainda nem comecei!

Mas eles se foram. Eles se foram, sim.

Até já, belo e simples casal feliz. Guardo comigo o nosso sonho. Porque aqui neste canto suspenso do mundo vive ainda uma esperança boa. Eu ainda tenho esperança na vida. Ela continua ali, me esperando com a louça, a roupa, o lixo e as contas. Bem ali.