Bem-vindo de volta à criança que você já foi um dia

Bem-vindo de volta à criança que você já foi um dia

Quando crescesse, o pequeno Mendelson queria ser médico. O tempo passou e ele virou homem feito, um doutor na acepção da palavra, com mãos decididas e um sorriso confortável no rosto que inspiravam sossego aos desassossegados. E eles eram muitos, os aflitos. Reunia os requisitos necessários para tomar conta de pessoas. Particularmente, tinha uma paciência de Jó para ouvir lamúrias, arrancar balas e parir bebês. Até ser pego falando sozinho. Uma. Duas. Três vezes. Quem primeiro notou a transformação foi Magra, a esposa. Quarenta anos juntos, comendo sal no mesmo cocho, garantiam a ela astúcia o bastante para inferir que algo de muito errado estava em curso nos seus interiores. Até ele aparecer em casa com um punhado de flores nas mãos, falando em se casar. Aquilo, para ela, foi o fim.

Mendelson contava 75, mesmo assim, não parava de atender pacientes na Liga de Enfermos do Hemisfério Sul, em Palmeira dos Ímpios. Se pudesse escolher, se Deus concordasse com argumentações e com a prática de prerrogativas, Mendelson preferiria bater as botas dando o duro dentro de um posto de doenças coletivas. Sem aquela de morrer dormindo que nem passarinho. Tanta dedicação ao ofício nada tinha a ver com o juramento hipocrático que ele proferiu quando era um jovem bonito, solteiro e cheirava à loção da Johnson & Johnson. Trabalhava por prazer e vício. Quem sabe, fosse também uma fuga velada dos próprios sentimentos.

Demorou quase nada até que o seu nome fosse parar na pauta de reunião disciplinar da comissão de ética daquele modesto estabelecimento sanitário. Não houve nenhuma grave denúncia, em particular. Existiam, isto sim, constatações que saltavam aos olhos de qualquer um. Atos insanos dos mais simples aos mais estapafúrdios. O furto de comida. Um paciente esquecido na maca. Um medicamento prescrito, mas que nunca existiu. O cigarro apagado entre os lábios. Um “Olá, como vai, muito prazer, qual o seu nome” perguntados inúmeras vezes ao longo do dia para colegas de trabalho que se conheciam há tempos. O ressurgimento impensável de parentes que já estavam mortos. A perda do rumo de casa; o apavorante esquecimento do caminho que se deve tomar até chegar em casa. O auge do caos interior é olvidar onde se mora.

Quando os colegas instruíram as autoridades sanitárias pelo seu afastamento compulsório, Mendelson já não contrapunha grande coisa, já não oferecia resistência alguma, estava combalido, na lona, embora, nunca aceitasse que estivesse enlouquecendo aos pouquinhos. Se despertava agitado no meio da madrugada, falando em se vestir e sair para o trabalho, passados poucos minutos de discussão com a esposa, já se declarava voltando do batente, “tarde da noite”; tinha tido um dia duríssimo, que sequer havia começado. Perguntava pelo almoço, mesmo de barriga cheia. Confundia os cômodos de casa. Esquecia onde ficava o banheiro. Urinava pelos cantos. Empestava a atmosfera doméstica. Molestava a esposa com seu pênis murcho e inofensivo. Fazia Magra choramingar todas as vezes que a chamava de mamãe. Começou a ter visões, a enxergar seres imaginários dentro de casa. “Cuidado que é cobra”. Matava improváveis bichos peçonhentos com porretes invisíveis. Era de cortar o coração. Aliás, por recomendação da chefatura, todos os objetos cortantes foram retirados do domicílio.

O casal não tinha filhos. Com a ajuda de amigos, Magra conseguiu interditar Mendelson judicialmente. Por mais deplorável que fosse a situação, mesmo numa currutela simplória como Palmeira dos Ímpios, sempre sobravam canalhas dispostos a trapacear para obter vantagens ilícitas, explorando a inocência, o desespero e a incapacidade intelectual de outras pessoas. Carecia proteger o patrimônio material do casal, que não era lá essas coisas, mas, também não era pouca-bosta, e que tinha sido obtido com muito esforço, passados anos de trabalho duro; ele, como clínico geral do serviço público; ela como professora da rede municipal de ensino.

Nas contas do governo e de qualquer interessado que se atentasse aos fatos, o ensandecido doutor Mendelson deixava de ser um cidadão ciente dos seus direitos e dos seus deveres, para assumir o lamentável protagonismo num mundo irreal e fantasioso que nem ele próprio reconhecia. Se reconhecia, não se lembrava. Por sinal, cada dia reservava um novo devaneio. Magra não gostava que ninguém falasse assim desta forma, mas, o fato é que o marido, aos 75, voltara a se comportar como uma criança. Interrompia-se, portanto, da pior maneira possível, a gloriosa carreira com qual ele tinha sonhado desde os tempos em que era um menino.