Tim Burton dirige “Sombras da Noite” com Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Helena Bonham Carter e Eva Green à frente de uma história que começa em Liverpool, passa pelo Maine e ressurge em 1972. Barnabas Collins nasce na família que funda Collinsport e ergue Collinwood, envolve-se com Angelique Bouchard, se apaixona por Josette e paga caro por isso, transformado em vampiro e enterrado vivo por quase dois séculos. Quando volta à superfície, encontra a mansão em ruínas, os descendentes presos a uma convivência de segredos e a mesma inimiga instalada, agora com força na cidade. A volta para casa já vem contaminada.
Burton encontra logo de saída seu melhor terreno em Collinwood. A mansão aparece como casarão gasto, sombrio e ainda imponente, onde Elizabeth Collins Stoddard tenta sustentar uma rotina quebradiça entre Roger, o menino David e a psiquiatra Julia Hoffman, todos cercados por decadência financeira, constrangimento doméstico e hábitos que perderam o sentido. A chegada de Victoria Winters como governanta embaralha ainda mais esse espaço, porque Barnabas vê nela a lembrança de Josette, e a casa passa a concentrar luto antigo, desejo mal resolvido e gente que parece andar o tempo todo sobre tábuas frouxas. Antes de qualquer outra coisa, o filme mora ali.
Esse retorno de Barnabas rende as passagens mais vivas. Libertado por operários em 1972, ele atravessa a mansão, a cidade e os objetos do presente como alguém que não reconhece quase nada, das vozes ao comportamento da própria família, e boa parte do humor nasce desse deslocamento. O vampiro não entende o tempo em que caiu. Quando Burton insiste nesse descompasso entre corpo antigo e mundo novo, “Sombras da Noite” encontra um registro mais interessante, em que a piada não apaga inteiramente a melancolia de um sujeito arrancado de seu século, de sua casa e de sua vida anterior.
Angelique e o excesso
Há mais peso, porém, na origem desse desastre. Angelique não surge apenas como amante rejeitada, mas como a bruxa que amaldiçoa Barnabas, atinge os Collins e reaparece em 1972 como rival no negócio pesqueiro que antes sustentava a família, o que dá à disputa uma base material e também afetiva, feita de rancor, posse e memória. Barnabas tenta restaurar a fortuna da casa com poderes e recursos escondidos, enquanto a presença de Victoria reabre a lembrança de Josette e transforma cada passo dentro de Collinwood numa mistura de retorno, erro antigo e desejo que nunca saiu do lugar. O passado continua andando pelos corredores.
Burton sabe vestir muito bem esse material. Maquiagem, decoração, fotografia, a imponência cansada de Collinwood e o contraste entre o Maine ancestral e os anos 1970 seguram a atenção mesmo quando o rumo vacila, e Eva Green ocupa esse desenho com uma energia feroz que impede Angelique de virar simples adereço. Ao mesmo tempo, a mesa da família esquisita, o romance projetado em Victoria, a revanche econômica contra a rival e os gags de deslocamento temporal começam a disputar o centro da história, como se cada cômodo da mansão puxasse o longa para um lado diferente. Nem tudo encontra o mesmo compasso.
Na reta final, fogo, confronto amplo e barulho empurram “Sombras da Noite” para um terreno mais espalhafatoso do que misterioso. Isso não apaga o que o filme tem de mais forte, Barnabas andando por corredores gastos, tentando entender a família que restou e a cidade que já não lhe pertence, mas enfraquece o encanto de uma história que parecia crescer melhor no escuro, entre silêncios, retratos e madeira velha. O que permanece com mais nitidez é essa figura cruzando Collinwood entre cortinas pesadas, quadros escurecidos e pó suspenso na luz fria do corredor.
★★★★★★★★★★


