Em uma comunidade planejada que parece saída de um comercial dos anos 1950, Alice (Florence Pugh) vive ao lado do marido, Jack (Harry Styles), acreditando ter alcançado a vida ideal: casa impecável, rotina organizada e um casamento estável. Esse cenário é o coração de “Não Se Preocupe, Querida”, dirigido por Olivia Wilde, que se passa em um condomínio isolado onde homens trabalham em um projeto misterioso enquanto suas esposas mantêm o lar funcionando. O que começa como um retrato de perfeição doméstica rapidamente se transforma em inquietação quando Alice passa a questionar o que, exatamente, sustenta aquele mundo.
A rotina é quase coreografada. As mulheres limpam, cozinham, dançam juntas e aguardam o retorno dos maridos, que saem todos os dias para trabalhar no chamado Projeto Vitória. Jack evita entrar em detalhes sobre o emprego, mas garante que tudo faz parte de algo maior, algo que vai “mudar o mundo”. Alice, no início, aceita essa explicação com a confiança de quem acredita estar protegida. Afinal, há conforto, estabilidade e uma sensação constante de pertencimento. E, convenhamos, quem não hesitaria antes de mexer em algo que aparentemente funciona tão bem?
Mas pequenas rachaduras começam a aparecer. Uma vizinha se comporta de forma estranha. Outra desaparece. Comentários soltos não se encaixam. Alice percebe que há perguntas que simplesmente não podem ser feitas, e esse silêncio coletivo começa a incomodá-la mais do que qualquer resposta poderia. O que antes era acolhedor passa a parecer ensaiado demais, como se todos estivessem representando papéis bem definidos, e ninguém pudesse improvisar.
É nesse ponto que a presença de Frank (Chris Pine), líder carismático do Projeto Vitória, ganha força. Ele surge como uma figura de autoridade que fala com segurança e promete propósito, como alguém que sabe exatamente o que está fazendo, e espera que os outros confiem sem questionar. Alice, no entanto, não consegue mais aceitar esse pacto implícito. Ela começa a observar, testar limites e, principalmente, insistir. E insistir, naquele lugar, tem um custo.
A relação com Jack também muda de tom. Ele, que antes parecia apenas um marido dedicado, passa a agir com cautela, às vezes desviando, às vezes impondo limites mais claros. Não é que ele se torne outra pessoa de repente, é que Alice começa a enxergar o que já estava ali. E isso torna tudo mais desconfortável. O lar, que deveria ser um espaço seguro, vira um campo de tensão silenciosa, onde cada conversa pode terminar em recuo ou confronto.
Há algo quase irônico na forma como o filme constrói esse ambiente. As festas são animadas, as músicas são alegres, os figurinos são impecáveis, mas basta um olhar mais atento para perceber que ninguém ali está completamente à vontade. É como rir em um jantar onde todos fingem que nada está errado, mesmo quando está evidente. Esse contraste entre forma e conteúdo é um dos motores do suspense, que cresce sem precisar recorrer a sustos fáceis.
Alice, então, dá um passo além: decide ultrapassar os limites físicos daquele espaço. Não se trata mais apenas de entender o que acontece, mas de verificar até onde vai o controle exercido sobre ela. E é aí que o filme ganha ainda mais tensão, porque a dúvida deixa de ser abstrata e passa a ter consequências concretas. O ambiente reage, as pessoas mudam de comportamento, e aquilo que parecia uma escolha individual se transforma em um problema coletivo.
O mais interessante é que “Não Se Preocupe, Querida” não trata apenas de um mistério a ser resolvido, mas de uma dinâmica de poder que se revela aos poucos. O controle não está em um único lugar, nem depende apenas de uma figura central. Ele se espalha nas relações, nos hábitos, nas expectativas. E quando alguém decide sair do roteiro, todo o sistema precisa reagir.
O filme acompanha essa escalada de desconfiança com um olhar atento para os detalhes, um gesto fora do lugar, uma resposta que não convence, um silêncio que pesa mais do que deveria. Alice não aceita mais viver no automático, e essa escolha, por mais simples que pareça, muda tudo ao seu redor. Porque, naquele mundo, entender demais pode ser tão perigoso quanto não entender nada.
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