Breve diário do desencanto 2

Breve diário do desencanto 2

O que faço não é importante. E não, isso não é um falso ataque de modéstia também falsa. É um fato. E bem difícil de admitir, então preste atenção: o que faço não é importante. Não tem nenhuma importância, nenhuma relevância. É comum e sou mais ou menos no que faço. Sobrevivo e isso é tudo.

De qualquer forma, não vou ficar falando um tempão do que faço. Pelo menos não agora. Não, não agora.

Você só precisa saber que trabalho em casa. Tenho prazos a cumprir, luto com a impressora, falo sozinha com o teclado que subitamente morre e me desespero quando a luz acaba e tenho trabalho a entregar. Você já viu esse filme mil vezes, morremos todos no final.

Naquele dia eu precisava sair de casa, o que é relativamente raro. Apesar do que dizem de mim (ah, sim, creia), não sou nenhuma espécie de ermitã esquisita. Se bem que o primeiro sinal de que você é esquisito é não se achar esquisito. Mas, olha, não sou mesmo. Eu saio. Faço compras, vou ao dentista, eventualmente tomo café com alguma amiga. Pago as contas. Bom. É isso. Saio de casa. Saio sim. Não todos os dias, mas saio. Não acredite no que você ouve sobre mim. É quase tudo verdade, mas ainda assim você não deveria acreditar.

Acontece que não tenho grande apreço por pessoas. Entende? Não me interesso por elas. Os pequenos dramas, as imbecilidades homéricas. “Comi; não comi; dei; quero dar; comprei um treco novo; estou com um pressentimento; tenho uma namorada que mora na Alemanha, mas preciso esperar meu filhinho crescer para largar minha mulher; sou feliz; sou infeliz; minha filha fez isso; comprei um batom novo; fui fazer terapia; voltei pra terapia; meu terapeuta disse; mandei meu terapeuta para a puta que pariu.” Porra. Tá. Já sei. É todo mundo igual, as histórias são sempre as mesmas. O primeiro sinal de que você é uma pessoa absolutamente comum e meio babaca é não se achar nem comum e nem babaca. Todo mundo por aí falando coisas edificantes e afirmando que dá sua “contribuição”. A obra deles, os filhos deles, a carreira deles são “contribuições”.

Não, não são. Mas precisamos todos de ilusões para viver, todos nós, alegriazinhas, felicidade, a promessa de uma casa bonita, de saúde, daquela viagem, da tal da contribuição e de amor.

Ah, amor. Eterno, imorredouro (eu capricho, convenhamos), perfeito como cristal. Amor, amor, amor. Queremos, claro, que o amor nos faça perder vinte quilos, vire a nossa cabeça, que coloque coraçõezinhos flutuando diante de nossos olhos. Precisamos que o amor nos torne melhores do que somos, porque a verdade é que somos uns bagulhos. O amor, o amor, o amor, o amor vai nos redimir, quem foi que disse isso? Um dia, numa tarde, um instante, os olhos dele nos meus, a voz dele mais alta do que meus pensamentos malvados, a mão dele sobre a minha pele e me tornarei uma pessoa melhor. Claro.

Acabei falando de amor com desprezo. E o primeiro sinal de que você é infeliz é falar do amor alheio com desprezo e mágoa.

Naquele dia eu precisava sair. Porque, como já disse, eu saio às vezes. Mas antes de qualquer outra coisa, deixe-me avisá-lo de que esta história não vai a lugar nenhum. Entende? Não vou descobrir uma trama internacional, nem o sentido da vida e nem, caralha, onde escondi o cartão do banco. Não vou casar, fazer bebês e nem me converter a coisa alguma. Não vou dar o exemplo vivendo de forma estoica e abnegada, desapegando de bens materiais e explicando a você, com detalhes, porque sou um bom exemplo. Não vou ensinar você a como viver sua vida, principalmente porque não sei o que fazer da minha.

Uma história em fascículos, um folhetim, igual à vida de todo mundo. Como Sherlock Holmes, mas sem bibliotecas enormes, ingleses bonitões, século 19, crimes bacanas, vilões de bigodes retorcidos ou punch.

Talvez sejamos só você, eu e meu desaparecido cartão do banco. E não apenas nessa história. Mas no universo. Você, eu e um não existente cartão do ITAU flutuando na imensidão, sem cor, sem ar, sem som, com estrelas cadentes e satélites russos trombando em nós de quando em vez. Para sempre e nunca, quase e definitivamente, sem fazer sentido, sem explicação e sem nenhuma possibilidade de fuga. Esqueci-me de avisar que sou sempre assim, uma otimista.

Bom, naquele dia, eu saí.

Ilustração: Quai du Louvre, pintura de Claude Monet.