Pequenos movimentos das coragens nossas de cada dia

A premência de atos de coragem se manifesta em nossas vidas desde o instante do nascimento. Ambos, o bebe e sua mãe, precisam de imensa determinação e desejo, para trocar, abandonar um ambiente aquoso, seguro e acalentador pela vinda à luz na terra dos homens. Mudar de hábitos, largar ambientes mornos por outros desconhecidos — ainda que anunciem o bônus de certa prosperidade, demanda entrega e decisão.

Oração de boas-vindas a uma criança que chega

Vem, pequeno artista, vem pintar o sete deste lado de cá. Vem que o rumo certinho das coisas carece de desarranjo. Vem mudar os prazos, acelerar o ritmo, parar o tempo. Vem que a vida é agora, e é hora de viver entre nós. Vem encher a casa de visitas e presentes e conversas em voz baixinha para não lhe atrapalhar o sono. Vem lembrar o que de fato importa, que na vida somos todos visitantes afoitos. Vem acordar o mundo em meio à noite e despertar a ternura que resta lá fora.

Prestemos atenção, pois o céu acaba de beijar a terra

O céu beija a terra e afaga as arestas do planeta muito mais vezes do que se imagina, no decorrer desta nossa curta existência. Quando o sol, ainda se espreguiçando cumprimenta gentil as novas alvoradas. Durante uma pesca silenciosa, quase um mantra para um pescador eterno banhado de luz em seu trajeto marinho. No exato instante em que uma flor, ainda em botão, larga seu título de menina — moça e desabrocha para as abelhas se banquetearem de alentos.

Elogio das pessoas imperfeitas deste mundo

Acontece em todas as festas. Depois dos risos, dos perfumes recendendo, das chegadas pirotécnicas, dos abraços e dos beijos em boa dose, depois das fotografias e de todo o protocolo festivo, chega o instante estranho em que o volume da música diminui, os convivas populares desaparecem e ali permanecemos apenas nós, as pessoas imperfeitas deste mundo. Agora somos nós e nossos defeitos.

400 mil imagens de obras de arte em alta resolução para download gratuito

O Metropolitan Museum of Art, de Nova York, um dos maiores e mais importantes museus do mundo, disponibilizou 400 mil obras de arte para download gratuito, sem necessidade de cadastro ou autorização do museu. As obras disponibilizadas compreendem 12 séculos de história da arte. As imagens podem ser consultadas (por meio da busca) por categoria, época, escola, nome do autor ou título da obra.

Chico Buarque 70 anos: a entrevista que faltava

Chico estava muito bem humorado, afinal de contas, era um churrasco em comemoração aos seus 70 anos, e havia um sem número de amigos esparramados por todos os lados, exceto eu, um enxerido enviado especial da Revista Bula. Notei que ali no banco de reservas, enquanto Chico tratava o estiramento muscular, seria o momento ideal para iniciarmos a entrevista. O ídolo concordou. Brindamos com canecos de chope — aliás, um dos melhores anti-inflamatórios que se tem notícia no Rio de Janeiro, além da própria paisagem — e começamos o bate-papo. Vocês vão notar que a poesia não diz tudo, mas explica muita coisa.

A inveja é um tapa na cara

Além de pegar a gente pelo pé, a inveja tem cara pra tudo. Cara de pau, de múmia, de paisagem, de quem-não-tá-nem-aí para as demandas do vizinho. Cara de quem só vive lá em cima, no alto do Himalaia — quase perto do olimpo. Cara de nariz em pé e torcicolo na ativa. Quem nasceu pra rei nunca esquece a majestade. Nossos tetravôs já sentenciavam. Quem se acha não se perde, nem fica dando bobeira ou ouvidos tortos para os Zé Manés plantados em cada esquina.

A esperança é um ato de resistência. Resista

Você que de quando em vez chora à noitinha, na solidão da alcova. Você que se arrebenta no cumprimento das obrigações. Que perde um tempo danado desviando das porradas de todo dia. Você que tem medo do arrependimento um minuto depois de tomar uma decisão. Você que esconde seu pavor de morrer só, de não ter onde cair morto, de lhe faltar um gato para puxar pelo rabo.

Chico Buarque, 70 anos: as 10 canções fundamentais de um gênio da música

Na semana em que Chico Buarque completa 70 anos, a Revista Bula convocou os seus leitores para um atrevimento, uma diversão, uma homenagem dentre tantas que virão, a escolha de uma seleção musical para o justo tributo a uma joia da MPB: pedimos para que os nossos leitores elegessem, dentre centenas de composições estupendas, as dez melhores canções de Chico em todos os tempos, as essenciais, as mais belas, as que tocassem fundo na alma, um suposto repertório para Deus ouvir — caso Chico nele acreditasse — durante a happy-hour celestial.

Quando a vida marca gol contra o que você faz?

Difícil responder de imediato. Sobretudo quando os imprevistos puxam o tapete da gente. As pegadinhas do acaso nos deixam de mãos nuas. Nossas pretensas certezas vão de repente para o ralo. Tudo pode acontecer a qualquer hora. Mas a gente nunca acha que o destino, ou o que seja, armará feio para o nosso lado. É o outro quem se arrebenta, machuca, quebra a cara, a coluna, fica em coma, adoece inexplicavelmente. É o outro quem morre.

Oração para o Brasil ganhar a Copa do Mundo

Rezem comigo, seis vezes consecutivas, miseráveis ufanistas, ou a taça não virá: “Pai nosso, brasileiro de Chapadão do céu, venha a nós e traga sal, picanha e pimenta-do-reino. Seja feita a vossa vontade, e não a da FIFA, assim no gramado, como nos bastidores. O gol nosso de cada jogo nos dai hoje. Perdoai as nossas gracinhas, assim como nós perdoamos as de quem nos tem desgraçado ao longo da história. E não nos deixeis cair na tentação de aceitarmos comissão. Ah, néim”.

Carta de amor para um feliz dia a dia dos namorados

Em cada canto do mundo, esposas desiludidas surpreenderam seus maridos em trabalhos domésticos há tanto ignorados, palavras de afeição invadiram as casas e adoçaram o café, gestos de ternura encontraram casais novos e velhos, amantes de todas as cores e classes e sexos chegaram atrasados ao trabalho. Do canil dos amores sem dono, criaturas encantadoras, sorrindo suas bocarras abertas de língua de fora, os rabos num pra lá e pra cá de alegria comovente, vieram correndo fazer festa entre nós.

O universo que me perdoe, mas o tempo podia passar mais lento

Ê, tempo que passa rápido! De repente, a gente sente que vai-se a juventude, como o domingo que anoitece. De um segundo ao outro, seu filho bebê acorda um moço ousado, lindo, seguro. Assim, num estalo, você sente a saúde frágil e acusa o pavor de um dia faltar aos seus. Então, você tem a impressão de que já entrou na segunda metade da vida e um medo danado congela suas vísceras.

Eu tento mas a desesperança não morre

Ninguém dá crédito a um louco, senão outro louco, o psiquiatra ou uma árvore. Se o maluco em questão for uma pessoa idosa, então, pior ainda: vai jogar palavras ao vento até que a própria brisa dele se amofine e pare de assoprar. Porque, no que tange ao solidário aparato à senectude, quanto mais atrasada uma nação, mais profunda será a amizade entre velhos, gatos e cápsulas de rivotril.

Sobre homens, árvores e amores

Eu quero me dar o direito de mostrar que além do vazio, e além de toda a dureza, há também no repertório do meu existir, jardins e pomares, e que, na época certa, se bem cuidados, estão sempre a florescer e frutificar, mas que para isso enfrentam chuvas fortes, cortes, secas, estiagens, como a natureza perfeitamente ordena e funciona. Eu espero que o amor seja um plantio em solo arado, preparado, cultivado, cuidado, molhado, respeitado, para na hora certa, colher os frutos ou perfumar o ar com suas flores.

Livros para ler numa ilha deserta

Escrevi aqui na Bula sobre a Belo Horizonte dos escritores modernistas e, por isso, muitas pessoas ficaram curiosas em relação a Pedro Nava, pouco conhecido atualmente. Nada de novo no front: Nava, autor de seis magníficos livros de memórias, louvado pelos colegas escritores até, creio, o final da década de 80, foi depois esquecido pelos intelectuais brasileiros e parece não despertar muito interesse naqueles que poderiam divulgar a sua literatura.

Deixaram a porta aberta e Deus fugiu da igreja

A regra é rubra; os dogmas, claros. Abre aspas: “É vedado aos crentes solteiros desta igreja, não somente se afeiçoarem aos crentes de outras agremiações religiosas que também concorrem a Pimenta-do-Reino dos Céus, assim como contrair com os mesmos chato, bubão ou matrimônio. É vedado aos casais fazerem amor sobre o harmônio antes do culto, principalmente com as luzes dos castiçais acesas. Se a música e a fantasia libertam, com certeza deve ser pecado.

E afinal, você sabe de onde vem o amor?

Amar vem de acreditar. É lá, no lugar seguro onde impera a confiança, que se formam as primeiras possibilidades amorosas. Lá são geradas as populações de borboletas que esvoaçam incômodas no ventre dos apaixonados, as noites memoráveis de lua e conversa, os pássaros e sons que nascem com o dia. Lá também, nos campos verdes da esperança, as paixões incendiárias refrescam seus ímpetos para aos poucos se transformar no amor que é entendimento, respeito, apreço, afeto e essas coisas que deixam a vida mais leve.

Lester Bangs, o santo beatnik da crítica

Lester Bangs, santo beatnik. Morreu em 1982, aos 33, idade de Cristo. Não foi crucificado, mas certamente alçado à cruz do jornalismo, no subgênero gonzo, de qualidade extremamente contestada, ainda que tenha saído do ventre do new journalism (Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote). A exemplo de Hunter S. Thompson, escreveu motivado por substâncias psicotrópicas, em fluxo vertiginoso, e pôs-se, muitas vezes, à frente do próprio objeto do texto — e quem não está, prisioneiro de sua própria subjetividade, em posição soberana ao alvo da análise?

Ministério da Cultura confunde ciência com religião ao falsificar Machado de Assis

Se o Ministério da Cultura tivesse um mínimo de respeito pela nação brasileira, ao invés de construir um túnel com 60 mil livros, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, para marcar o lançamento da falsificação de “O Alienista”, de Machado de Assis, perpetrada pela escritora-empresária Patrícia Secco, ele mandaria diretamente para a reciclagem os 600 mil exemplares do livro, adaptado juntamente com “A Pata da Gazela”, de José de Alencar.