Deixe o coração sangrar. É na solidão que você descobre a si mesmo

Deixe o coração sangrar. É na solidão que você descobre a si mesmo

Um dia, chega o período conturbado da vida; uma fase em que os mais sinceros sentimentos despertam de suas profundezas. Fica tudo meio confuso. Diante de porquês sem respostas, a angústia surge impiedosa: atropela certezas e derruba conquistas. Morando só ou acompanhado, sua casa parece grande, gelada e vazia. Sem rumo, você não sabe se vai ou se fica, se resiste ou se se entrega. Por fim, você se abandona. E fica completamente sozinho.

‘O amor é sexualmente transmissível’

‘O amor é sexualmente transmissível’

Parece que o mundo vai acabar. Eu te consumo, te quero com urgência. Tenho pressa em me satisfazer, prontidão em saciar a fome de um tipo veloz de amor, de sexo, de companhia. Eu te uso e você me usa pelos mesmos motivos. Precisamos um do outro para que nos fartemos desse algo possante e magnético que somos nós dois juntos. Tragamos o cigarro da nossa relação acessível, disponível, lasciva e despretensiosa. Nos servimos sem o menor pudor e o mínimo sinal de constrangimento. A premência de viver até a última gota estimula o tesão pela vida em si e pela fugacidade do prazer do instante.

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‘O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades’

‘O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades’

Todo ser humano que se presta a viver há de padecer, cedo ou tarde, das imprevisibilidades da vida. A estrada entorta, o leite derrama, o amor esfria ou amarga feito café de ontem. A gente erra, perde, desacerta o passo. É traído pela sorte, toma rasteira, apanha do imprevisto feito condenado. Os planos sofrem fraturas expostas no caminho da estrada real, e nós, momentaneamente privados do prazer, largamos de seguir alegres e contentes no trilho descarrilhado de nossa miserável ilusão.

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As cartas perdidas de Caio Fernando Abreu

As cartas perdidas de Caio Fernando Abreu

Decidi achar as cartas do Caio Fernando Abreu no meu arquivo (soterrado de papéis, acumulados em décadas). Ele escrevia normalmente para mim nos anos 1970, quando por um tempo fomos muito amigos e nos correspondemos, ele em Porto Alegre, eu em São Paulo. Biógrafos e estudiosos já me pediram essas cartas. Uma biógrafa chegou a duvidar da existência delas, já que eu não ofereço a aparência de um capital simbólico suficiente para convencer os deslumbrados. Mas por algum motivo não cedi. Agora vou revisitar cada uma delas, sem obedecer a nenhuma cronologia. São todas cartas legítimas, originais, com a assinatura do amigo que já tinha grande prestígio na época e se transformou num escritor cult, numa celebridade nacional, queridíssimo por muitos milhares de leitores.

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Sinto informar que amor não vence no final

Sinto informar que amor não vence no final

No pesadelo que sonhei acordado joão matava tereza que matava de amores raimundo que morria de medo da polícia que subia o morro armada até os dentes e matava suspeitos muitos deles negrinhos desdentados que matavam serviço o tal do trabalho que enobrecia o homem e enriquecia outros homens que lotavam as igrejas com matilhas de homens em prol da fé que removia montanhas.

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Se for pra ter medo, que seja de uma vida sem graça

Se for pra ter medo, que seja de uma vida sem graça

Somos biologicamente programados para ter medo. Ele é uma forma de precaução, de alertar o corpo sobre as possíveis agruras que alguém possa sofrer. Há quem defenda que tê-lo é sinal de fraqueza. Seja macho!, dizem por aí, como se isso significasse alguma coisa útil além de um traço de misoginia. Ainda bem que a biologia nos impede de adotar indiscriminadamente esses conselhos malucos e inconsequentes. Do contrário, lutaríamos a sangue frio com assaltantes armados e o emprego ficaria para trás ao primeiro dissabor. O medo nos faz prudentes.

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