Cada velho que morre é uma biblioteca que se incendeia

Cada velho que morre é uma biblioteca que se incendeia

Acendi o cigarro de um bebum e fui pensar naquele provérbio supostamente africano. Nem sempre era assim. Conhecia certos velhotes que, mesmo bem medidos e apurados, não dariam mais que um montinho de folhas secas, de esterco de frango, de absorventes ensanguentados a arderem em chamas no quintal. Homens são incendiários. Tem gente que toca fogo em tudo, vocês sabem. Eu não. Eu preferia inflamar as discussões.

Somos contraditórios. Não aceitamos que nos prendam, mas não admitimos que nos soltem

Somos contraditórios. Não aceitamos que nos prendam, mas não admitimos que nos soltem

Somos a certeza do que não queremos, a dúvida pelo caminho a seguir, o talvez que pende entre o sim e o não, mudando de acordo com o vento. Somos a conformidade dos dias cinzas, o corpo acolhido na cama, o cansaço tardio do tempo em que a vida cabia numa mochila. Somos uma mala remendada e bagunçada, remexida, precavida. Somos a leveza esquecida, a impulsividade amarrada, a risada contida, a paixão amornada.

Troco toda e qualquer certeza por um segundo de leveza

Troco toda e qualquer certeza por um segundo de leveza

Não, eu não tenho certeza de nada. Nada. Aliás, eu não quero, obrigado. Tem gente demais por aí exibindo convicção sobre tudo. Gente demais pontificando sobre as doenças do gado, os novos astronautas, o cio da capivara. Gênios seguros colecionando certezas sobre o que, no fundo, desconhecem. Façam bom proveito! Daqui, do meu canto no mundo cercado de dúvidas, tenho tantas questões a responder, tanta dívida a pagar! Mas certeza, mesmo, nenhuma. Quando muito uma impressão aqui, um palpite ali, uma intuição acolá.

Não, tu não te tornas responsável por expectativa alheia nenhuma!

Não, tu não te tornas responsável por expectativa alheia nenhuma!

Escreve aí em teu caderno. “Eu sou livre!”. Só para lembrar. Tu bem sabes, mas não custa repetir. Amar não é ter posse sobre ninguém. Quando te sentires escravizar, manda às favas! Assim, simples, direto e com toda a força. Fecha teus olhos, respira fundo e manda embora todo aquele, aquela e aquilo que te faz mal. Não carece verbalizar, repetir, soletrar em voz alta, gritar e essas coisas tão deliciosas. Diga a ti mesmo, esculhamba o opressor aí dentro primeiro. Aperta o botão vermelho, dá de ombros, dá as costas e vai em frente para longe dessa lama doentia.

O Ministério da Saúde adverte: Engolir sapos é prejudicial à saúde!

O Ministério da Saúde adverte: Engolir sapos é prejudicial à saúde!

Escapei da prisão que acorrentava a minha alma junto das sombras densas. Me libertei do que os outros pensam sobre mim e do que esperam ao meu respeito. Mandei às favas quem insiste em mandar nas minhas vontades, todos aqueles que questionam a minha conduta e me apontam o dedo com reprovação. Cansei de fazer ouvido de mercador para não me aborrecer, de engolir seco um espinho depois do outro, enquanto o emissor, com sua língua projétil, metralha ofensas na minha direção.

O coração é um tsunami de “sim” e “não”

O coração é um tsunami de “sim” e “não”

Você assiste a um jornal na televisão e, lá pela sexta notícia, percebe que até então nada de bom e feliz foi falado. De repente, um terremoto invade seu coração, bagunçando o alicerce da sua certeza. O mesmo sentimento levantou um turbilhão de angústia quando seu olhar foi arrastado pelo tornado impiedoso que levou casas, árvores e vidas. Você se sentiu desmoronar ao assistir aquelas pessoas perderem seus risos e a esperança.