Ensaios

Roland Barthes: o pesadelo atual é a apoteose da tragédia

Roland Barthes: o pesadelo atual é a apoteose da tragédia

Roland Barthes é o sonho ideal e perfeito do intelectual que eu gostaria de ser. Um crítico literário sim, mas antes de tudo, um homem que serviu à linguagem. Dedicou a sua vida ao estudo dela, amou a humanidade por meio dela. Barthes pesou, mediu, cheirou, sorveu, provou, atritou com a pele o mundo das palavras como poucos de seus pares — se é que ele tem pares —, conseguiram fazer.

A impressionante história da morte de Euclides da Cunha

A impressionante história da morte de Euclides da Cunha

É indeclinável registrar que as circunstâncias envolventes da morte de Euclides da Cunha não tiveram os honestos registros que a verdade histórica impunha a seus biógrafos. Imposição não apenas para projeção dos fatos em toda a sua nudez e significado — encontram-se todos nos autos do processo penal — que em nada diminuem o valor da obra literária euclideana, nem a honestidade e o idealismo que o caracterizaram, mas também para o reconhecimento da dolorosa injustiça que foi a execração pública sofrida por Dilermando de Assis desde os seus 17 anos de idade até a sua morte ocorrida aos 62 anos.

A declaração de amor de Guimarães Rosa a Minas Gerais

A declaração de amor de Guimarães Rosa a Minas Gerais

Num texto publicado em agosto de 1957, o escritor João Guimarães Rosa faz uma declaração de amor ao Estado de Minas Gerais, palco principal de sua obra mais importante: Grande Sertão: Veredas. Minas é a montanha, montanhas, o espaço erguido, a constante emergência, a verticalidade esconsa, o esforço estático; a suspensa região — que se escala. Atrás de muralhas, caminhos retorcidos, ela começa, como um desafio de serenidade.

Um pintor renascentista à altura de Leonardo da Vinci

Um pintor renascentista à altura de Leonardo da Vinci

Em termos de importância para a cultura universal, o Renascimento Italiano só ficaria atrás da arte clássica dos gregos, influência basilar da própria Renascença, que volta às margens do Egeu em busca da fonte inesgotável. Em meio a esse furor criativo, algumas coisas se sobressaíram na segunda metade do chamado Quattrocento (ou Baixa Idade Média), época de transição para o mundo moderno.

Em uma sociedade de analfabetos, ser inteligente na adolescência virou crime

Em uma sociedade de analfabetos, ser inteligente na adolescência virou crime

A indústria cultural, diferentemente de boa parte dos pais, sabe o significado do mito da adolescência moderna. Ultrapassando as pretensas crises emocionais que decorrem do período, as quais são deixadas para reflexão dos psicólogos e dos psicanalistas, cuida-se logo de “empurrar goela abaixo” o estereótipo estupidificante do adolescente bestializado, um “trapo humano” jovem e insensível. Despreza-se a leitura, tida como “tarefa chata da escola”, travestindo de “poesia” os “ex-my love” da vida — como se pudesse haver perenidade artística em algo tão ruim e de criatividade equivalente a de uma bactéria anaeróbia.

As palavras e a fraude ou o malabarismo ideológico

As palavras e a fraude ou o malabarismo ideológico

Às vezes, as palavras revelam mais do que deveriam, vão além do que era a intenção original, escorregam em cascas de banana, cometem atos falhos, deixam rastros nos chistes e expressões. As palavras não são traiçoeiras, mas a forma como são utilizadas, sim. A vingança não demora: elas desmascaram a intenção do mau uso.

Chaplin, Kubrick e Spielberg: o verbo do cinema

Chaplin, Kubrick e Spielberg: o verbo do cinema

Filme é o que enxergamos, inclusive a elipse, quando a cena nos remete a algo fora da tela. O exercício de ver serve para abordar o cinema pelo que ele é, quando estão dispostos os elementos chave para decifrarmos o que é visto. Limpar a obra da Sétima Arte de intenções adventícias é uma atividade valiosa, principalmente quando assistimos o trabalho de cineastas como Kubrick, Spielberg ou Chaplin. Ou quando conseguimos nos esclarecer sobre filmes aparentemente banais que provocam insights importantes para o trabalho ensaístico.

Por que é que os revolucionários foram reacionários

Por que é que os revolucionários foram reacionários

As revoluções levam a açoites de aço, trabalhos forçados e ao encarceramento de grandes escritores. No entanto, o termo “revolucionário” continua a gozar das mais nobres conotações, enquanto que o termo “reacionário” detém, tanto na arte quanto na política, o monopólio do mau. Já se disse que os revolucionários na literatura foram em geral reacionários em matéria de política.

Hannah Arendt: a filósofa como poeta

Hannah Arendt: a filósofa como poeta

A faceta da judia Hannah Arendt filósofa quase militante — dotada de uma coragem intelectual excepcional, mesmo quando enfrentava o reducionismo e o vitimismo do establishment judaico — é por demais conhecida. Nascida em 1906 e falecida em 1975, é frequentemente citada em livros e reportagens e artigos de jornais de todo o mundo tal a vitalidade de suas ideias. Afirma-se que algumas de suas ideias são insight não desenvolvidos — e seu livro clássico, “Origens do Totalitarismo”, mereceu críticas de vários autores, como os judeus Bruno Bettelheim, psicanalista, e Raul Hilberg, historiador. Nos últimos tempos, nos quais dinheiro compra até amor verdadeiro, tem sido mencionada, com constância excessiva, por sua paixão pelo filósofo Martin Heidegger.

As cinco pistas do gênio

As cinco pistas do gênio

Um dos grandes mistérios da arte é o que diz respeito à capacidade de certos autores de escrever tão bem, ao contrário de outros. Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa pertencem, seguramente, àquela categoria relativamente reduzida de ficcionistas e poetas que com seus textos encantam milhares de leitores, geração após geração. É mesmo encantamento, ao pé da letra.