Autor: Eberth Vêncio

Não chore por mim, Valentina

Não chore por mim, Valentina

Eram 11 dias do mês de setembro de 2013. Enquanto meu amor dormia, exausta de mim e do meu mau humor, no Hotel Losermanos, eu caminhava com Valentina, uma prostituta portenha que conheci quando passeava pelo famoso Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, considerado por todos — exceto pelos mortos, é claro — um dos mais belos e portentosos cemitérios do planeta. A moça cumpria o ritual de visitar os túmulos de Evita Perón (um dos mais modestos do pedaço, aliás, considerando a predominante opulência arquitetônico-escultural das catacumbas), do soldado desconhecido, da prostituta desconhecida e da dignidade desconhecida. É isso: a vida é uma guerra diuturna, seus cães.

Manual de autoajuda para deputados

Manual de autoajuda para deputados

Se conselho fosse deputado, o povo não dava, comprava. De gente boa, o plenário e o inferno estão lotados. O que outras pessoas pensam de ti — embora seja a mais pura verdade — não é da conta deles, mas sim, da polícia federal. Não leves as escutas telefônicas tão a sério. Sem a devida autorização judicial, valem menos que discurso de vice-presidente num feriado da Independência.

Os 10 mandamentos da politicagem

Os 10 mandamentos da politicagem

Amarás o adeus, sobre todas as coisas. Fugirás do país, se preciso for. Escaparás dos cercos policiais. Driblarás as devassas fiscais da Receita Federal. Trafegarás elegante, com o nariz empinado, usando o próprio jatinho ou — não custa tentar — um avião requisitado da FAB. Tomarás um delicioso conhaque num café em Paris e rirás da cara de besta do povo que tu abandonaste nesta terra de samba e pandeiro.

Desgraça pouca é bobagem

Desgraça pouca é bobagem

A violência é um despertáculo ao qual não nos acostumamos, senão nos ambientes de guerra, onde o vale-tudo da carnificina se dá em zonas neutras, abençoadas pela justiça humana, onde se pode trucidar o inimigo, e ainda por cima, ganhar uma medalha, uma condecoração por ato de bravura e, com muita sorte, até uma estátua num jardim, a servir de latrina para os passarinhos.

É proibido ser feliz sozinho

É proibido ser feliz sozinho

Aviso: é proibido fazer trocadilhos nesta área. Mais que impossível, é proibido ser feliz sozinho. É proibido sentir ódio de frente ao mar. Já melancolia, paixão e saudade: pode. A regra é clara: é proibido aos goleiros ateus operarem milagres. É proibida a criação de novas duplas sertanejas em cativeiro. É proibido abortar um poema em germinação. Já chega de tanta prosa e literatura de autoajuda. É proibido calar-se frente a tanta iniquidade.

A fantástica entrevista com o papa

A fantástica entrevista com o papa

O combinado com os assessores papais era que o papai aqui falaria com o pontífice após a santa missa em Aparecida do Norte. Então, catei o meu saco de pipocas tamanho dois reais (portas de igrejas que não possuam pipoqueiros, cachorros decadentes, ou pombos defecando, simplesmente não merecem a menor consideração deste energúmeno que vos fala, ou melhor, vos escreve) e arrumei um cantinho no enorme templo, embaixo de uma santa cuja vela de sete dias fumegava e, de tempos em tempos, gotejava cera quente sobre a minha careca, especialmente quando os meus pensamentos se desprendiam da cerimônia rumo às “pernas de louça da moça que passa e eu não posso pegar”.