Reviravoltas a conta-gotas que te prendem, consomem e devoram: o suspense da Netflix que você não vai esquecer Divulgação / Netflix

Reviravoltas a conta-gotas que te prendem, consomem e devoram: o suspense da Netflix que você não vai esquecer

O amor, em sua essência, parece estar em um plano além do entendimento racional. Ele desafia a lógica, escapando à análise fria e calculada que rege tantos aspectos da vida. Trata-se de um sentimento que, mesmo nas condições mais adversas, arde com uma intensidade própria, resistindo ao gelo da indiferença e à rigidez do egoísmo. Sua natureza intrinsecamente rebelde repele normas, regras e qualquer tentativa de confiná-lo a métodos, especialmente aqueles que ousam abordar outras emoções humanas. No entanto, é no terreno da fé no outro, esse espaço tão delicado quanto vital, que o amor floresce como a mais íntima e inexpugnável das conexões entre duas pessoas. É aqui que se desenha a forma mais poética e transformadora do amor — aquela que transcende barreiras individuais, tocando milhões de almas e perpetuando-se além do tempo. Em um mundo cada vez mais cético e pragmático, essa magia se torna rara e, por isso mesmo, urgente.

Embora o amor romântico tenha seus próprios encantos, ele encontra paralelos com a mais elevada forma de amar: o amor à humanidade. Este, contudo, parece cada vez mais esmaecido diante das ondas de ódio e preconceito que assolam o globo. A hostilidade gratuita e a intolerância ganham terreno, corroendo valores fundamentais como o respeito à diversidade e o direito à liberdade de ser único. Essas atitudes desumanas contrastam de forma chocante com os princípios que moldaram as bases da civilização: liberdade de expressão, democracia e o direito de cada indivíduo brilhar como uma obra única e irrepetível. Nesse cenário, obras como “Ponto Vermelho”, do sueco Alain Darborg, surgem como reflexos pungentes de discussões sociais prementes. O filme aborda, de forma crítica, uma faceta sutil, porém devastadora, do racismo na Suécia, um país majoritariamente branco que enfrenta o desafio de lidar com a crescente presença de imigrantes negros, vistos por alguns como intrusos em um espaço que julgavam exclusivamente seu.

A narrativa se desenrola em Estocolmo, onde Nadja e David, um casal aparentemente comum, desfrutam de um período de férias. Darborg começa a expor, desde o início, a covardia inerente ao racismo, que só prospera graças à conivência silenciosa de muitos. O roteiro, assinado pelo próprio diretor em parceria com Per Dickson, concentra-se nos protagonistas e nos desafios de seu relacionamento. Nadja, uma estudante de medicina interpretada por Nanna Blondell, é uma mulher negra em um país que não aceita bem sua diferença. Já David, vivido por Anastasios Soulis, é um homem branco cuja apatia diante das agressões sofridas pela parceira reflete um comportamento perturbadoramente comum. A trama ganha contornos mais sombrios quando um incidente aparentemente trivial em um posto de gasolina transforma a viagem do casal ao extremo norte sueco — planejada para ser um momento de reconexão e contemplação da aurora boreal — em um pesadelo.

Com um roteiro que mistura tensão psicológica e viradas inesperadas, “Ponto Vermelho” constrói um suspense que desafia expectativas. Darborg utiliza situações cotidianas para intensificar o desconforto, enquanto Blondell e Soulis entregam performances que sustentam a narrativa, mesmo quando ela se aproxima do limiar da verossimilhança. O desfecho, marcado por sua crueza, pode parecer exagerado, mas não deixa de ecoar os paradoxos da vida real, onde tragédias e absurdos muitas vezes se entrelaçam. Em última análise, o filme não se limita a entreter; ele convida o espectador a refletir sobre as raízes e consequências de um problema tão antigo quanto devastador, lembrando-nos de que, em um mundo cada vez mais dividido, o amor à humanidade é mais necessário do que nunca.

Filme: Ponto Vermelho
Diretor: Alain Darborg
Ano: 2021
Gênero: Drama/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★