Não se pode definir o que é “Animais Noturnos” com duas ou três palavras. Não é ruim nem fabuloso, para ficar num comentário inicial bastante lacônico, mas decerto é um dos longas mais provocadores já levados à tela em 2016, quase tudo saído da cabeça mirabolantemente inventiva de Tom Ford, estilista, esteta, homem das artes, criador por excelência.
Se ainda há quem diga que, no caso de “Direito de Amar” (2009), sua estreia, o grande responsável por modernizar a centenária grife italiana Gucci foi mais um mecenas que um realizador de fato, contando com um exército de roteiristas e aspirantes a diretores habilidosos, ávidos por uma oportunidade (e por uma remuneração generosa), aqui se nota a sensibilidade de Ford impor-se com firmeza.
“Animais Noturnos” é mais que o empenho de um diretor aplicado à procura de identidade. Os problemas começam quando, por algum motivo, o diretor julga que ter nas mãos uma boa história não é o suficiente e busca o protesto. Ford passa então a emendar um panfleto no outro, e é aí que tudo perde seu viço.
Certamente existe muita gente que se escandalize com as imagens introdutórias de “Animais Noturnos”, em cujo roteiro Ford tem a colaboração de Austin Wright. Os corpos femininos nus que vão despontando não seguem os padrões ditados pela publicidade e, por evidente, pela moda — é curioso se fazer tal observação no filme de alguém que se tornou célebre (e multimilionário) por desenhar roupas para mulheres macérrimas, expostas sobre modelos esquálidas.
Bandeiras de grupos de líderes de torcida cobrem essas afroditesnédias, que agitam pompons e se divertem com estrelinhas luminosas, espetáculo ainda mais grotesco porque Ford opta pela câmera lenta para o registro, como se disposto a, além de escandalizar suscetibilidades hipócritas, torturar os que só esperam que a trama se desenrole. Mais adiante, esse choque diegético tem uma função prática, quiçá mesmo reveladora no enredo, uma vez que não só fornece pistas sobre determinada personagem, como ajuda que se compreenda o que Ford quer dizer mesmo com tal blasfêmia.
As cheerleaders são as estrelas da exposição de arte conceitual de Susan, uma galerista e marchande famosa no mundo da arte alternativa de Los Angeles. O estilo de vida de Susan, vivida por uma Amy Adams que nunca deixa que nada sobre ou falte, é excêntrico e sustentado pelo marido, Hutton, de Armie Hammer, como o da maior parte das pessoas que orbitam o universo deles. Logo se pode inferir que toda a ostentação que a cerca é só uma camuflagem para tirar o foco de sua pobreza existencial, motivada também pelo casamento, que já deveria ter acabado, mas se arrasta ad aeternum, só pelo temor de não ser mais a grande dama de uma sociedade fechada em si mesma e não mais frequentar as altas rodas de gente preconceituosa e vazia.
A chegada de um embrulho contendo a redação do livro de Edward Sheffield, o primeiro marido de Susan, fecha essa breve resenha sobre a personagem de Adams. O pacote e o bilhete escrito por Sheffield, marcante na versatilidade de Jake Gyllenhaal, deixam-na sem norte, a ponto de, num ímpeto, ela perguntar a uma funcionária sobre em que medida nossas escolhas nos definem, para o bem ou para o mal, até não seja mais possível achar um ponto de retorno. Como se poderia suspeitar, Susan não ouve sua resposta de um milhão de dólares.
O filme passa a ser conduzido de forma a dar a impressão de um sonho comprido e fatigante, numa realidade paralela em que Tony Hastings, pai de família cujo requinte é motivo de admiração, parte em viagem pelo Texas com a mulher, Laura, de IslaFisher, e a filha, doce e rebelde como quase todo adolescente, encarnada com vontade por Ellie Bamber.
Ao longo do deslocamento, de automóvel, Hastings, também vivido por Gyllenhaal, tem o carro fechado por Ray, de Aaron Taylor-Johnson, até que os dois veículos saiam da estrada. Resta subentendido, numa das sequências mais impactantes para um filme de suspense, que talvez tudo não passe mesmo de um delírio de Susan, tão perturbada ficou com o texto de Sheffield. Também se depreende que a relação dos dois deixou pontas soltas que talvez tenham de ser amarradas com urgência.
Subtramas envolvendo Susan e Sheffield, ainda balançados por um teimoso sentimento romântico — a contrapelo dos dois —, vêm à lume, inclusive remontando a um passado que pensavam extinto, mas que volta com toda a carga. Ao manejar com segurança discussões sobre o valor da arte, cujo significado soa cada vez mais ambíguo, e o quanto as frágeis emoções humanas interferem no processo criativo do artista, Ford tece um verdadeiro estudo acerca da flexibilização da estética, ou seja, do que vem a ser (ou não) bonito, e por conseguinte, do que vem a ser (ou não) arte — e ele sabe do que está falando. Tanto sabe que exige que também o espectador se questione, sem necessariamente alcançar conclusões inamovíveis, o que dá azo a outras teorias. A arte tem mesmo uma função? A arte deve ter alguma função? A resposta é óbvia: a verdadeira arte é a função por si só.
Filme: Animais Noturnos
Direção: Tom Ford
Ano: 2016
Gêneros: Thriller/Drama
Nota: 8/10