A história real e premiada da Netflix que irá acalmar sua alma e elevar seu espírito

A história real e premiada da Netflix que irá acalmar sua alma e elevar seu espírito

O ano de 1968 entrou para a história. Manifestações estudantis se projetavam dos câmpi de universidades de todo o mundo para o resto da sociedade e foram capazes de balançar e mesmo derrubar governos, que passaram a temer essa atmosfera de sublevação contra o estabelecido e essa busca incessante por liberdade. A ideia de micronações — experimentos sociológicos que visavam à instituição de territórios autônomos — foram ganhando cada vez mais força, com cada vez mais defensores. Mudar era preciso.

“A Incrível História da Ilha das Rosas” (2020) faz jus ao nome. Como quase toda trama inverossimilmente fantástica, o filme narra um evento da vida real, e o diretor Sydney Sibilia sabe valorizar em seu trabalho o componente de fantasia, precisamente a fim de exaltar o tom de realismo do enredo. No roteiro, escrito em parceria com Francesca Manieri, fica claro sua intenção de levar a história de um lado a outro, ora exaltando o destemor na personalidade de seu protagonista, ora assinalando seu desajuste e mesmo sua suposta loucura.

Giorgio Rosa é um homem movido a sonho. O personagem central de “A Incrível História da Ilha das Rosas”, vivido por Elio Germano, é um engenheiro recém-formado que se desloca por Roma a bordo do carro que ele mesmo fabricou para apresentar na monografia. Se Rosa é um gênio do design e da mecânica, sua destreza com questões sentimentais deixa muito a desejar. Sua visão de mundo excessivamente libertária, mas sempre cartesiana, o criva de problemas com as mulheres, ou melhor, com a mulher que interessa. Gabriella, a encantadora personagem de Matilda De Angelis, o enxerga exatamente como é, um visionário, um homem a frente do seu tempo, mas um entusiasta patológico da utopia, quase um lunático. Ter aceitado a carona que ele lhe oferecera, em seu automóvel exclusivo, mas sem registro, lhe custa uma passagem pela polícia, com direito a ficha criminal, o que certamente implicaria em prejuízo na carreira de jurista. É a gota d’água. Ainda que o ame, Gabriella opta por ficar com Carlo, de Ascanio Balbo, um tipo muito mais estável — e muito mais previsível.

Rosa considera levar a sério o conselho do pai, Ulisse, interpretado por Andrea Pennacchi, e ser um cara normal, como todo mundo tenta ser, com um emprego ordinário, como quase todo mundo tem. Ulisse sempre foi um humilde operário na fábrica de motocicletas de onde tirou o dinheiro para bancar os estudos — e a busca irracional do filho por igualdade entre os homens, liberdade de opinião, poesia no ramerrão da vida diária, essas besteiras — e não vê problema algum nisso, e muito menos em desejar tal sorte para Rosa. Como um animal fora de seu hábitat, o personagem de Germano sente que se renunciar à única coisa que o distingue dos outros pode acabar por não resistir e mantém esse seu instinto de sobrevivência. Sempre atento, o anúncio de uma companhia que monta plataformas de perfuração de petróleo em alto-mar lhe soa como a revelação de que a grande aspiração talvez não seja um devaneio tão absurdo assim. Contando com o incentivo e o patrocínio desonesto do amigo Maurizio, vivido por Leonardo Lidi, Giorgio Rosa passa a se dedicar exclusivamente em erguer um eirado no meio do oceano, quinhentos metros depois do fim da faixa litorânea correspondente à costa italiana, em Rimini. Uma área legalmente soberana, portanto.

O mar se presta a sediar o anseio humano pela verdadeira independência, sem qualquer necessidade de se censurar para o que quer que seja, desde os relatos sobre Simbá, o marinheiro de Bagdá que na Antiguidade cruzava os sete mares à procura de aventuras, decerto, mas também fugindo da obrigação de viver sob o tacão do califado abássida. A primeira noite no país que funda não é nada promissora para Rosa, que enfrenta a fúria da maré e é arremessado sem clemência por ondas gigantes. Antes de findar a tempestade e vir a bonança, quando o tempo firma e as águas serenam, Pietro, sobrevivente da tormenta, depara-se com aquele insólito porto seguro e atraca por ali mesmo. O personagem de Alberto Astorri é o primeiro habitante daquela terra encantada, que depois recebe o nome de Ilha das Rosas, e passa a abrigar também Rudy, interpretado por Tom Wlaschiha, desertor do exército germânico que perdeu a cidadania alemã por esse motivo e agora é um apátrida, e a garçonete Franca, de Violetta Zironi, que ao querer ter seu filho mesmo sem ser casada evoca outra das muitas questões filosófico-morais da trama. Logo a ilha toda vira um eterno carnaval de gente bronzeada e num êxtase infinito, despertando a fúria e o pânico das autoridades da Itália, encarnadas por Fabrizio Bentivoglio e Luca Zingaretti, que têm de recorrer à Organização das Nações Unidas (ONU) para recobrar o mando sobre toda a extensão do país, inclusive aquele diminuto quadrilátero ultramarino.

Sibilia não se esmera muito em explicar detalhadamente de que maneira Rosa e Maurizio realizam a proeza de erigir no meio do mar um terraço inabalável, mesmo com as eventuais procelas — e, repita-se, a história da Ilha das Rosas é verídica, além de incrível. Quanto a narrativa em si, o timing entre os diálogos e o que se passa na tela não é propriamente adequado, apesar da afinação do elenco. A perfeita alquimia entre Germano e De Angelis mantém o interesse pelo filme, mesmo que o romance dos dois só volte a engrenar no encerramento, quando se fica sabendo que se casaram e foram felizes para sempre. A Ilha das Rosas não teve o mesmo fim e foi invadida pela República da Itália, a única intervenção do país sobre um território estrangeiro.

Resta claro que o propósito de Sydney Sibilia é mesmo lembrar ao espectador que sonhar não custa nada, como diz a velha canção, se podendo até, quem sabe, ir um pouco mais adiante. Ainda que a utopia feneça pela mão racional e castradora do outro, sempre fica um alento pela coragem de ter tentado.


Filme: A Incrível História da Ilha das Rosas
Direção: Sydney Sibilia
Ano: 2020
Gênero: Romance/Drama/Biografia
Nota: 8/10