O filme da Netflix que vai fazer você dormir de olhos abertos

O filme da Netflix que vai fazer você dormir de olhos abertos

Ao longo de mais de duas décadas de carreira, Mike Flanagan tem se mostrado senhor absoluto de seu ofício, qual seja, o de encontrar o ponto cego de uma história, insistir nisso e apresentar um filme, no mínimo, original.

Hush: A Morte Ouve”, sensação no South by Southwest Film Festival, o SXSW, um apanhado do que o cinema produz no decorrer de um ano, levado a termo durante as primaveras em Austin, Texas, é o típico suspense de gato e rato, com uma casa misteriosa e isolada por cenário. Os parcíssimos 82 minutos do longa-metragem — que se o fariam enquadrar-se melhor como um média-metragem — tem sua parcela de série de terror, à guisa de um “Vingança Sabor Cereja” (2021), de Lenore Zion e Nick Antosca, bem mais objetivo e bem menos limpinho, ou “Missa da Meia-Noite” (2021), que torna meu argumento meio autorreferencial demais, uma vez que esta é uma produção dirigida pelo próprio Flanagan e estrelada por sua mulher, Kate Siegel, protagonista do filme de 2016. A esse propósito, há um Easter egg logo no princípio de “Hust” que diz muito da personalidade do criador, que lambe a cria à vista de todos, sem nenhum pejo de soar autorreferente.

Como em “Vingança Sabor Cereja”, também há mais um gato, ou melhor, uma gata, Vadia, mas as semelhanças param por aí. De acordo com o que se disse, no filme Mike Flanagan não tem qualquer intenção de ser suave. Sendo forçado a fazer escolhas que podem conduzir a narrativa para este ou aquele lado em todos os planos, “Hust” é um thriller superior ao que se expunha na praça até então, e que se valiam de elementos similares, a exemplo de “The Invitation” (2015), de Karyn Kusama. A personagem de Siegel, Maddie Young, enfrenta um bloqueio de inspiração pontual, digladiando-se entre sete possíveis finais para seu romance. A protagonista prepara o jantar, e o que vem em seguida é fundamental a fim de se compreender a profundidade do trabalho de Flanagan. Ouve-se o background de ovos sendo quebrados, o picar de uma cebola, aspargos refogando numa frigideira. Num segundo, tudo isso se cala — e louve-se o trabalho do designer de som — e se fica sabendo que a mulher nem escuta nem pode falar: Maddie é surda-muda desde os 13 anos, por causa de uma meningite.

A performance de Kate Siegel, convincente a ponto de fazer pensar que ela teria mesmo uma deficiência auditiva, é complementada pela leitura de Samantha Sloyan, que dá vida a Sarah, a amiga que mora nas redondezas. Há a insinuação muito singela de um possível envolvimento romântico entre as duas, já superado: Sarah é namorada de John, de Michael Trucco, e espera por ele. Enquanto as duas conversam, usando os sinais que Sarah se empenha em aprender melhor, se dá um dos primeiros jumpscares do enredo, furioso. Resolvida a situação, as duas se despedem e o filme volta ao leito.

Personagens com necessidades especiais que se veem implicados em situações particularmente delicadas, que só dispõem de si mesmos e do que os faria mais vulneráveis diante dos outros dão um molho de sabor marcante ao cinema. Forrest Gump, o bobalhão mais despachado da sétima arte que protagoniza o filme de mesmo nome dirigido por Robert Zemeckis em 1994, não tem nada a ver com Maddie, por óbvio, a não ser pelo fato de também ser um excelente contador de histórias, além de conhecer como poucos a natureza humana. É esse savoir vivre, essa capacidade de se livrar de perigos que se impõem sem prévio aviso, que os une. No caso da mocinha de “Hush”, toda perícia é pouco quanto a manter longe o homem que a quer exterminar sem nenhum motivo específico — quiçá tenha se desagradado de uma das histórias publicadas pela autora —, um arco dramático que remete aos haters de redes sociais elevado à máxima potência, também se assemelhando em alguma proporção à premissa central de “O Homem nas Trevas” (2016), do uruguaio Fede Alvarez. E não chega a ser propriamente uma coincidência, mas o maníaco mascarado que persegue Maddie é John Gallagher Jr., o Emmett de “Rua Cloverfield, 10” (2016), dirigido por Dan Trachtenberg.

Os dois realizadores têm muito em comum, e, no entanto, se destacam cada qual por suas tantas diferenças. Flanagan mantém para com “Hush” um, digamos, distanciamento respeitoso, permitindo que seus atores criem, improvisem, dando à atividade sua real natureza de brincadeira — e observar o limite entre ficar de espectador enquanto se dá a feitura de seu próprio filme e botar a mão na massa com gosto quando preciso é um talento que poucos diretores possuem. Trachtenberg, por seu turno, toma partido de tudo o que se desenrola na cena, e ninguém é melhor ou pior que ninguém aqui, ainda que o método do diretor de “Hush” se revele ideal para o gênero de produções com que prefere se envolver, plena de anticlímax e surpresas impensáveis até o desfecho, do que o trabalho de outro profissional de mesmo gabarito. Dá liga, principalmente quando como nesta história, não se pode gritar.

É uma marca registrada de Mike Flanagan manter a tensão o mais chã possível, até que se vislumbre a oportunidade ideal de se virar a chave e apreciar o transatlântico que é “Hush” levantar voo, com o público devidamente acomodado. Por evidente, há turbulências no caminho, mas o risco é calculado. Às vezes, se precisa de silêncio para se fazer um bom filme.