Paul Valéry e a Marquesa

Paul Valéry e a Marquesa

O poeta simbolista Paul Valéry disse, certa vez, que era impossível escrever um romance, pois detestava a vulgaridade da frase “a marquesa saiu às cinco horas”. Muitos escritores seguiram a recomendação de Valéry e passaram a se dedicar ao experimentalismo literário, algo que é sempre muito bem-vindo.

Mas, olha só, a frase “a marquesa saiu às cinco horas” talvez não seja tão ruim para começar uma narrativa. Pensei em cinco ficções, cada uma em um gênero diferente. Tem policial, ficção científica, drama social, romance histórico e narrativa realista. Sei não, pra mim esse tal de Valéry era só um baita preguiçoso.

A marquesa saiu às cinco horas. O corpo do marquês foi encontrado pela copeira às seis e quarenta e cinco, quando ela entrou na residência do casal para organizar a recepção, que começaria às oito. O porteiro, no entanto, confirma que o marquês chegou em casa por volta das seis da tarde. Então por que a marquesa continuava afirmando que era ela a assassina do marido, embora tivesse um álibi perfeito? O inspetor Canard estava perdido e por isso ligou para o investigador particular Mercutio Pilgrin.

A marquesa saiu às cinco horas, mas o dinossauro só a alcançou quando ela estava chegando à esquina. Tarde demais. Ela já tinha entrado no disco-voador.

A marquesa saiu às cinco horas. A baronesa saiu às cinco e quinze. A condessa saiu às cinco e meia. A princesa saiu às seis da tarde. O jacobino chegou às seis e meia e gritou: “Merde! Se eu não fosse pobre e tivesse dinheiro pra comprar relógio, a história dessa revolução seria muito diferente!”

A marquesa saiu às cinco horas. O ônibus 245 saiu do terminal às cinco e dois. Luizão, o motorista, acelerava feio um louco. O Serjão, do 271, tinha feio uma barbeiragem na hora de sair da garagem e atrasado todo mundo. E o corno do fiscal, aquele filho da puta do Teodoro, estava de olho nos atrasos pra sacanear os motoristas. Luizão precisava daquele emprego. Ainda mais agora, com a mãe no hospital e o pai vivendo daquela aposentadoria de merda. Quando viu a cachorra no meio da rua, ele desviou o ônibus violentamente para a esquerda e acertou a marquesa em cheio. Eram cinco e seis. A marquesa morreu na hora.

A marquesa saiu às cinco horas. O duque de Westinghouse deixou a cama desarrumada e observou discretamente da janela a marquesa tomando a carruagem, que estava estacionada do outro lado da rua. Aquele tinha sido o último encontro dos dois. A marquesa partiria na manhã seguinte para comandar uma tropa de mercenárias na guerra da Crimeia. E ele ficaria na cidade, frequentando os salões vazios e os bailes sem graça. O duque suspirou e, enxugando uma lágrima, murmurou entre dentes: “Eu odeio essa bosta de feminismo!”