Como Joe Biden virou um reptiliano zoófilo

Como Joe Biden virou um reptiliano zoófilo

Foto: Alex Gakos / Shutterstock

O mundo é cheio de ideias esquisitas. Todas essas ideias são criadas pelo homo sapiens, um peculiar mamífero antropoide capaz de formular conceitos abstratos. É a sua glória e a sua tragédia. Nenhuma outra espécie animal se orienta por ficções ingênuas tipo “pátria”, “religião” e “ideologia”.

No passado, a aceitação de uma ideia abstrata era bem difícil. Veja o monoteísmo, por exemplo. Hoje ele é praticamente dominante no Ocidente e ninguém mais oferece sacrifícios a Poseidon antes de fazer um cruzeiro. Mas nem sempre foi assim. Os monoteístas foram pregados em cruzes e jogados aos leões quando começaram a espalhar suas ideias. Isso mudou muito. Graças à Internet, a velocidade da propagação de conceitos é muito mais intensa e, embora eles ainda possam provocar “cancelamentos”, ninguém mais é crucificado. Já é alguma coisa.

Nessa sopa de abstrações existe uma ideia que avança no Planeta inteiro: a teoria conspiratória. Basicamente, é a crença de que alguém — ou alguma coisa — secretamente manipula o mundo. Nada é o que parece ser e um complô gigantesco que envolve governos, mídia e sociedades secretas impede que você perceba a terrível realidade. A conspiração é a catapora do novo milênio e ela é muito mais perigosa do que o Covid. No começo é tudo festa e diversão, até que a paranoia se transforma em desinformação e começa a ser usada como ferramenta política. Tipo assim: atribuir a epidemia de Coronavírus a uma gigantesca trama que envolve a China, a Globo, o Vale do Silício, George Soros e João Dória seria apenas ridículo, se não fosse trágico.

O fenômeno é mundial, mas no Brasil é pior, bem pior. Primeiro porque o poder da mídia tradicional está cada vez menor. Nossos jornais e revistas estão agonizando e a televisão vem sendo rapidamente substituída pelo streaming. Embora lulistas e bolsonaristas adorem falar mal de William Bonner, as pessoas se informam mesmo é pelo WhatsApp, Twitter, Facebook e Google. Quanto mais estridência, mais cliques. E quanto mais cliques, mais dinheiro.

Quando Joe Biden venceu as eleições americanas, o Twitter foi inundado de absurdos. A desinformação menos cretina dizia que ele era um fantoche da China. A mais idiota afirmava que o cara era zoófilo. Tento imaginar o Biden procurando uma égua barranqueira em Washington, mas, graças a Zeus ou Poseidon, a cena não se forma na minha cabeça. Sorte minha.

O pior é que eu gosto de teorias conspiratórias. Escrevi dois livros sobre o tema, com uma distância de 12 anos entre um e outro. O primeiro, de 2004, era um convite bem-humorado a fugir das verdades estabelecidas e investigar o Lado B da realidade. Já o segundo, de 2016, encontrou um mundo complemente diferente, onde as teorias conspiratórias não eram mais a versão “alternativa”, mas uma espécie de realidade “semioficial”.

A verdade, a verdade verdadeira, é que as pessoas precisam acreditar em maluquices. A vida é chata, frustrante, injusta e alguém precisa ser responsabilizado por isso. É mais fácil acreditar que tudo é um complô orquestrado por gente cruel e desumana em vez aceitar que é o resultado das nossas escolhas. Vivemos numa nova Idade Média, só que agora os demônios são os comunistas, os liberais, os alienígenas ou a llluminati. E tudo isso com a ajuda dos reptilianos que, como todo mundo sabe, não valem nada. Olha o que eles fizeram com a princesa Diana…  

Assim como a mitologia politeísta, a conspiração é uma narrativa coletiva na qual todo mundo é autor e divulgador. E a Internet, essa geleca monstruosa e descerebrada, é o ambiente perfeito para essas narrativas se reproduzirem já que, afinal, elas funcionam como memes. O conceito de meme vem da biologia e é definido como uma “unidade de informação que se multiplica sozinha, passando de cérebro para cérebro, onde sofre alterações e mutações”.

Memes se comportam como vírus, assim como as teorias conspiratórias. E já que a contaminação é inevitável, tente ao menos se divertir. Em vez de Terra Plana, fale da Terra Oca, que é muito mais legal. A Terra Oca tem aberturas nos polos e lá dentro mora um monte de dinossauros. É muito melhor do que a Terra Plana, onde as criaturas pré-históricas estão no meio de nós e têm acesso a computadores.