Enclausurado, de Ian McEwan

Enclausurado, de Ian McEwan

Sim, escolhi falar de Enclausurado nessa semana porque é assim que nos sentimos. Conservadas as proporções e contextos, estamos como o narrador: presos em ambientes que parecem diminuir, observando a catástrofe lá fora acontecer e sem ter muito o que fazer além de esperar e, com sorte, nos embriagar.

A proposta de “Enclausurado” é seu ponto forte: uma história de conflitos amorosos, crime e investigação narrada por um feto filosófico e sarcástico. Obviamente o feto gestado por Ian McEwan não é um ser comum. No ventre de sua mãe ele captura informações com a maturidade de um humano apto a viver imediatamente. Ele pondera sua relação com a genitora e se vê obrigado a ser testemunha incondicional do mundo mesquinho e ambíguo que lhe é apresentado. Esbanjando um humor refinado, o feto descreve lindamente os vinhos que degusta por meio da mãe e reflete sobre a vida e o futuro.

Essa narrativa primorosa e envolvente aborda a complexidade dos comportamentos humanos, enquanto nos brinda com momentos de alívio cômico. Dá pra sentir a angústia de cada momento, cada parágrafo, cada diálogo. E assim, sem precisar dizer com todas as letras, o personagem escancara nossa própria clausura.