Edward Snowden sugere que conversar pelo celular é compartilhar segredos com quem não conhecemos

Edward Snowden sugere que conversar pelo celular é compartilhar segredos com quem não conhecemos

O ex-agente da CIA lança livro no Brasil, garante que não se tornou espião para a Rússia de Vladimir Putin e diz que potências continuam espionando

Os “santos” do poder têm pés de barro e o que parece limpo, pela liturgia elegante das salas luxuosas, às vezes é de uma sujeira ímpar. O Estado e seus representantes se julgam donos de tudo, inclusive da intimidade dos indivíduos. Mas, aqui e ali, os indivíduos, ou até um indivíduo, reagem. Aí a lama, que reluzia como ouro, começa a cheirar mal. Há seis anos, o jovem Edward Joseph Snowden (de 36 anos) — um indivíduo — destampou a, digamos, “latrina” do governo americano, e por extensão a de alguns de seus aliados, e expôs que se espionava tudo, a respeito de todos. Para não ser preso, escapou para Hong Kong e, depois, para a Rússia de Vladimir Putin — país tido como inexpugnável ao poderio da nação mais rica do mundo. Caçaram e perseguiram Snowden — quiçá para matá-lo, mas não conseguiram capturá-lo. Os agentes da FSB — o novo nome do KGB (vale informar que K significa comitê, uma palavra masculina) — certamente seriam mais eficientes? Talvez. Se fosse russo, é possível, Snowden já estaria morto.

Eterna Vigilância — Como Montei e Desvendei o Maior Sistema de Espionagem do Mundo (Planeta do Brasil, 288 páginas, tradução de Sandra Martha Dolinsky)

O fato é que Snowden escapou e fez revelações extraordinários: estamos vigiados, em tempo integral, por governos e, claro, não só. Quem está na internet, navegando por vários sites, participa de algo de valor — a comunicação globalizada — e de um “comício” internacional. De um big brother universalizado que encantaria ou espantaria George Orwell. Nem todos “veem” (ou ouvem) todo mundo. Mas alguns conseguem ver muita coisa — em geral o que quer e, também, o que não precisa ver, como a intimidade de gente que não está minimamente preocupada com terrorismo ou em cometer crimes de menor escopo. A espionagem, possibilitada pela tecnologia moderna, busca o relevante e, ao mesmo tempo, aquilo que nada importa para Estados e para o benefício da sociedade.

A pergunta de 120 milhões de reais — o prêmio da Mega-Sena levado por petistas — é: Snowden contou tudo? É possível que o ex-funcionário da NSA e ex-espião da CIA só tenha contado parte do que sabe — aquilo que considera como seminal. Entretanto, até como salvaguarda, é provável que tenha mais a revelar — e talvez por isso a caçada americana tenha sido menos intensa. Certamente há cofres, espalhados pelo mundo, com informações detalhadas sobre os ases da espionagem do Tio Sam. Morto Snowden, documentos podem, de repente, aparecer. Há outra pergunta, quiçá de 1917 rubloss: Snowden trabalha para os russos ou, ao menos, para Putin e sequazes? O garoto, mais esperto do que sugere sua cara de anjo barroco, diz que não. Dá para acreditar? Dá, sim. Mas não 100%. Talvez 49%. Governantes russos — como Putin, misto de czar e líder stalinista (seus supostos inimigos são assassinados e, não raro, se matam) — não são como governantes americanos, por exemplo. São durões e implacáveis. Quem não serve a eles não serve à Rússia. Neste país, diria o espírito de Liev Tolstói, Putin é o Estado e o Estado é Putin. É possível que Snowden tenda “dado” alguma coisa — de certa importância — aos russos. Mesmo que, como postula, não esteja trabalhando o país de Dostoiévski, Turguêniev e Tchekhov.

Há livros sobre Snowden publicados no Brasil, um deles de Glenn Greenwald (o americano para o qual a esquerda brasileira adora “passar pano”). Mas agora chega o livro do próprio Snowden: “Eterna Vigilância — Como Montei e Desvendei o Maior Sistema de Espionagem do Mundo” (Planeta do Brasil, 288 páginas, tradução de Sandra Martha Dolinsky). Nada melhor do que ir direto à fonte — ainda que, quem sabe, a fonte não seja inteiramente confiável. Mas, entre o Estado — o americano ou outro — e o indivíduo, eu, como anarquista conservador, fico com o indivíduo. Indivíduos isolados mentem, mas mentem bem menos do que homens de Estado.

Com a chegada do livro, os repórteres Fernando Molica e Maria Clara Vieira, da revista “Veja”, entrevistaram Snowden. Uma entrevista oportuna.

Tido como traidor pelo governo dos Estados Unidos, Snowden apresenta sua versão: “Ao entrar para a NSA, jurei apoiar e defender não o governo, nem a agência, mas a Constituição americana contra qualquer inimigo. Logo em seguida, assinei um contrato amplo e confuso com o governo, garantindo o sigilo integral das informações com as quais trabalhava. Só que esses dois juramentos colidiram. Os segredos que jurei proteger violavam claramente a Constituição que eu devia respeitar. Está escrito lá: a privacidade é um direito do cidadão”. Crível? De certo modo, sim. Mas, como disse o filósofo anônimo, lá do Cerrado: “Quer pureza? Não vá ao convento”. No mundo da espionagem, da alta espionagem, que é o caso, não há nenhuma inocência. E, se há alguma, meio por cento, logo é destruída. Snowden está dizendo a verdade — a sua. Mas a verdade de um indivíduo eventualmente não é a verdade toda — “a” verdade.

Snowden conta à “Veja” que lidava com o programa Xkeyscore, que ele chama de “o Google dos espiões”. “Monitorava o comportamento de milhões de pessoas, gente que não tinha nada a ver com terrorismo, em busca de alguma anormalidade. Às vezes, o uso do programa era cruel. Jovens colegas meus invadiam e-mails e podiam ler absolutamente tudo. Imagina esse poder nas mãos de uma turma de 18, 20 anos?”

Há seis anos, o jovem Edward Joseph Snowden (de 36 anos) — um indivíduo — destampou a, digamos, “latrina” do governo americano, e por extensão a de alguns de seus aliados

Lembre-se: você tem um celular? Ele é mesmo seu? É, sim. Mas também é de quem está investigando você. Com a facilidade de adquirir programas de alta qualidade, não é só o Estado que pode espioná-lo, e sim qualquer pessoa com conhecimento técnico e tecnologia adequados. “Enquanto seu celular está ligado, ele emite um sinal potente, como um grito que diz: ‘Ei, seu estou aqui’. E assim se abre a porta.” Há pouco tempo, um executivo, da área pública, fazia elogios à segurança do WhatsApp, em conversas com jornalistas. Pouco depois, estava preso, graças, quem sabe, aos diálogos whatsappianos. Liberado pela polícia, continua “matraqueando”, talvez por não acreditar que esteja sendo monitorado. Talvez não esteja.

Pode-se escapar das vigilâncias públicas e privadas? Snowden diz à “Veja”: “Não existe uma maneira 100% segura de fugir do monitoramento de grandes corporações e governos. Mesmo eu, que sou especialista, mudo o tempo todo de método para blindar minha comunicação, além de ter inúmeros aparelhos eletrônicos e jamais usar o wi-fi. Faço sempre uma minicirurgia em meus celulares: retiro microfone, câmera. Em geral, recomendo que as pessoas adotem a criptografia disponível nos aplicativos e evitem SMS e ligações de voz por linhas convencionais. É bom se preservar. A vigilância pode se transformar em algo abusivo”.

Apesar de suas denúncias, Snowden sublinha que os governos continuam espionando. As potências mundiais, como Estados Unidos, China e Alemanha, sabem que informação estratégica é essencial. Por isso estão no “jogo” — o oficial e o não-oficial —, que é inteiramente realista. Na entrevista à “Veja”, o americano comenta até a Vaza-Jato. Vale a pena lê-la integralmente. Ele está falando de você, de todos nós, que estamos à mercê da insídia dos espiões oficiais e dos para-oficiais.