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O filme que expõe a ferida que quase toda família tenta esconder chegou à Netflix Divulgação / Netflix

O filme que expõe a ferida que quase toda família tenta esconder chegou à Netflix

Dirigido por Cesc Gay e estrelado por Javier Cámara, Carmen Machi, Javier Gutiérrez e Alexandra Jiménez, “53 Domingos” começa com três irmãos reunidos para decidir o que fazer com o pai de 86 anos, cujo comportamento passou a preocupar a família. Tudo se passa na casa de Julián e Carol. A conversa gira em torno de duas saídas concretas, levar o velho para uma instituição ou recebê-lo na casa de um dos filhos, mas já começa marcada por silêncios, impaciência e um mal-estar que ninguém consegue esconder.

Cesc Gay conduz esse início em espaços fechados e poucos cenários, sem tirar a atenção da sala, da mesa, do sofá e das interrupções entre Natalia, Víctor e Julián. A reunião começa educada. Bastam poucos minutos, porém, para o tema do pai empurrar os três para uma discussão áspera, em que ironias, respostas tortas e pequenas crueldades aparecem com a intimidade de quem se conhece demais e já não se suporta como antes.

“53 Domingos” encontra aí seu centro, porque a velhice do pai não serve apenas para reunir a família, mas impõe um limite concreto aos irmãos. A discussão sobre asilo ou acolhimento doméstico não fica no plano abstrato, já que cada hipótese cobra um gesto, uma renúncia, uma presença e uma parcela de trabalho. O pai quase não está ali. Ainda assim, pesa sobre cada frase, cada proposta e cada recuo, enquanto os três passam a falar menos dele e mais do acúmulo de mágoas, culpas e contas que nunca fecharam.

A presença de Carol ajuda a ordenar esse tumulto, porque ela vive na casa de Julián e ao mesmo tempo conserva uma distância que os irmãos já perderam há muito. Carol rompe a quarta parede. O recurso oferece um ponto de observação menos contaminado pelo histórico daquela família, alguém que acompanha o desmanche da reunião de fora do círculo principal do ressentimento. Quando ela entra no jogo, o ambiente fica mais claro, com gente falando ao mesmo tempo, ouvindo pouco e deslocando o problema inicial para uma disputa maior por afeto, memória e responsabilidade.

Corpos presos ao mesmo espaço

Também pesa a origem teatral assumida do projeto, baseado na peça “53 diumenges”, escrita pelo próprio Cesc Gay, porque quase tudo nasce do atrito entre corpos presos ao mesmo espaço e obrigados a permanecer ali. Não há para onde correr. Em vez de abrir a história para fora, “53 Domingos” comprime a ação na casa de Julián e Carol e tira dessa escolha sua forma mais nítida. A graça, quando aparece, nasce do desconforto, do ridículo de certas falas e da dificuldade de repartir cuidado entre pessoas que querem decidir o destino do pai, mas mal conseguem sustentar uma conversa inteira sem se ferir.

“53 Domingos” se sustenta menos em qualquer virada de roteiro do que no acúmulo de falas interrompidas, propostas recusadas e ressentimentos que voltam à tona quando os irmãos se veem obrigados a sentar juntos. Tudo fica mais estreito. Cesc Gay concentra o filme na circulação tensa entre Julián, Natalia, Víctor e Carol, e faz do pai de 86 anos uma presença constante mesmo quando ele não ocupa o centro físico da cena. Ficam uma sala estreita, copos esquecidos sobre a mesa e vozes cruzando o ar sem jamais se alcançar.

Filme: 53 Domingos
Diretor: Cesc Gay
Ano: 2026
Gênero: Drama
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★