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Quase ninguém esperava, mas essa antologia de terror da Netflix entrega algumas das histórias mais perturbadoras do gênero Divulgação / Eros Worldwide

Quase ninguém esperava, mas essa antologia de terror da Netflix entrega algumas das histórias mais perturbadoras do gênero

O cinema tailandês é conhecido por fazer das esquisitices nossas de cada dia filmes cheios de revelações nada óbvias quanto ao modo tão pouco cortês de que lança mão a vida para afogar-nos no oceano de iniquidade que nós mesmos criamos, e “Phobia” mistura uma dose generosa de terror a um drama peculiar, valorizando o realismo mágico.  Compilação de quatro histórias macabras de diretores reconhecidos no gênero, o filme tem o grande mérito de ir muito além do que se espera de tramas assim, mesmo que nem sempre o que é contado faça muito sentido. Banjong Pisanthanakun, Paween Purijitpanya, Youngyooth Thongkonthun e Parkpoom Wongpoom juntam-se numa obra irregular, mas cativante, na qual se percebe talento e apuro técnico em cada cena, levada de modo a deixar que o espectador também participe.

Juventude perturbada

Em “Happiness”, uma garota luta contra a solidão num apartamento no centro de Bangcoc. Ae recebe as cobranças da “bruxa do aluguel” por baixo da porta tentando não importar-se com a comichão na perna esquerda, fraturada depois de um acidente e agora imóvel no gesso. Pelo telefone, ela começa a receber mensagens de texto de um estranho, fica logo animada e a partir desse ponto, Phobia mostra a que veio. Não por acaso, o curta de Youngyooth Thongkonthun abre a antologia que, em alguma proporção, esmiúça desvios de comportamento, em especial nas camadas mais jovens — sob a perspectiva exagerada do terror, por óbvio. Essa tendência perdura, e aqui Maneerat Kam-Uan dosa melancolia, pânico, lirismo e algum humor, numa performance dinâmica sem prejuízo da emoção. E o bom nível se mantém.

Um morto muito louco

Depois de “Last Fright”, sobre uma comissária de bordo que atende uma princesa morta, e antes de “Tit for Tat”, acerca de um nerd vingativo, “In the Middle” surpreende. Banjong Pisanthanakun narra um conto à Stephen King protagonizado por quatro amigos inseparáveis que tem de lidar com uma dúvida: um deles ainda está neste plano ou é agora um zumbi dado à mofa, e faminto? Kantapat Permpoonpatcharasuk, Nattapong Chartpong, Pongsatorn Jongwilas e Wiwat Kongrasri continuam o que Kam-Uan havia principiado em lances de ironia fina, nonsense e uma vertente do slasher, acepipes que mesmo quem não é exatamente um fã do estilo saboreia com muito gosto. E pode até se lambuzar.

Filme: Phobia
Diretor: Banjong Pisanthanakun, Paween Purijitpanya, Youngyooth Thongkonthun e Parkpoom Wongpoom
Ano: 2008
Gênero: Mistério/Terror
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.