Lola Doillon dirige “Uma Mulher Diferente”, romance francês estrelado por Jehnny Beth, Thibaut Evrard e Mireille Perrier. Katia, documentalista de 35 anos, vive um namoro instável com Fred quando um trabalho sobre autismo a obriga a reler a própria vida. A descoberta reorganiza o presente, mas não suaviza o atrito no amor, no trabalho e na família. Nada se resolve de repente.
Katia trabalha entre pesquisa, pauta e rotina de produtora ou redação, mas o ambiente nem sempre a acolhe. O novo projeto sobre autismo não entra em cena como assunto abstrato, e sim como algo que liga passado e presente, memória e convívio, trabalho e vida afetiva. Barulho, luz, festas e encontros banais aparecem como pontos de desgaste que ela atravessa antes mesmo de saber nomeá-los. Isso pesa no corpo.
A vida prática segue
Doillon acompanha esse acúmulo em lugares comuns, entre mesas, conversas, deslocamentos e momentos em que Katia parece ligeiramente fora do compasso dos outros. Ao não isolar a personagem num mundo à parte, o filme localiza seu mal-estar em cenas simples, no trabalho, na rua, em encontros sociais, e não apenas quando a história fala diretamente de diagnóstico. A vida prática segue ao redor, com colegas, horário e convívio, enquanto ela tenta entender por que certas situações a esgotam tanto. A observação é miúda.
Essa mudança pesa logo sobre Fred. O namorado não recebe a notícia como simples alívio, e a relação passa a conviver com a sensação de que o autismo ocupa um espaço novo e difícil de administrar dentro do casal, seja nas conversas, seja nos desencontros, seja na maneira como Katia relê o que viveu até ali. O romance não aparece como abrigo ideal, mas como terreno de esforço, erro e ajuste, com mensagens, chamadas, aproximações e brigas que expõem o desgaste afetivo dos dois. O atrito fica exposto.
O entorno também reage
A relação com a mãe, Martine, segue caminho parecido. Em vez de acolhimento automático, Katia encontra resistência ao diagnóstico dentro da própria família, o que amplia o isolamento num momento em que ela tenta reorganizar trabalho, namoro e imagem de si. A aproximação com uma associação dedicada a informar o público sobre autismo desloca a personagem para fora do círculo mais imediato e mostra que esse reconhecimento não se limita ao consultório ou ao balanço neuropsicológico. O entorno também reage.
Jehnny Beth sustenta muito do que o longa tem de mais forte. A composição baseada em gestos contidos, olhares fugidios, exaustão e momentos de sobrecarga mantém Katia em atenção permanente, seja no ambiente profissional, seja nos impasses com Fred, seja na convivência difícil com a mãe. Isso impede que a personagem vire abstração e a mantém como mulher atravessada por elementos concretos, da luz excessiva à vida social cansativa, da insegurança amorosa ao peso de rever a própria história aos 35 anos. Fica a luz dura da sala.
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