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Para quem ama arquitetura e filosofia, o delicado filme de Kogonada na Mubi transforma silêncio em emoção Divulgação / Superlative Films

Para quem ama arquitetura e filosofia, o delicado filme de Kogonada na Mubi transforma silêncio em emoção

Tolkien tem uma frase conhecida que diz que “nem todos os que vagueiam estão perdidos”. Ela parece se encaixar bem com o espírito de “Columbus”, longa de estreia de Kogonada, lançado em 2017, realizado com um orçamento modesto de cerca de 700 mil dólares, algo praticamente impensável dentro da lógica industrial de Hollywood. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, Kogonada constrói um drama de extrema sofisticação, sustentado por um roteiro de vocação contemplativa e por uma fotografia que dialoga de maneira orgânica com a arquitetura da cidade de Columbus, elemento intrinsecamente ligado tanto à narrativa quanto ao estado emocional dos personagens.

Casey (Haley Lu Richardson) é uma jovem de pouco mais de vinte anos que trabalha em uma biblioteca e nunca chegou a cursar a faculdade. Ela decidiu adiar seus planos acadêmicos para cuidar da mãe, uma ex-dependente química em processo de recuperação, que tenta reconstruir a própria vida. Casey vive paralisada por uma pergunta: quem ficará para cuidar da mãe quando ela finalmente partir? A chegada de Jin (John Cho), um tradutor de livros e filho de um renomado professor de arquitetura, é um ponto de ruptura para ela.

Ambos vivem em um estado de suspensão. Casey, em relação ao próprio futuro; Jin, à espera de um desfecho para a condição de saúde do pai, internado em estado grave após um colapso repentino. Nenhum dos dois está exatamente perdido, nem confuso sobre seus desejos mais profundos. Eles perambulam porque precisam de tempo. Tempo para que a vida se reorganize ao redor deles. Seus diálogos são feitos de pequenas confissões e revelações discretas, sem melodrama, sem grandes discursos e sem explicações filosóficas. A conexão entre eles nasce do reconhecimento mútuo desses vazios.

Apaixonada por arquitetura, Casey observa o modernismo que permeia Columbus com um olhar afetivo, intuitivo e atento, ainda que desprovido de formação acadêmica. Jin se reconecta com a arquitetura, que ele rejeitou justamente por causa da relação com um pai exigente e emocionalmente distante. A fotografia de Elisha Christian transforma a cidade em uma presença viva, quase uma testemunha silenciosa da conexão que se constrói entre os protagonistas. Com enquadramentos rigorosos, planos médios e câmera majoritariamente estática, o filme cria composições que refletem o estado emocional dos personagens. “Columbus” se afirma, assim, como uma obra feita para ser observada e sentida em silêncio, sem a promessa de grandes espetáculos visuais ou viradas dramáticas, mas com uma atenção rara aos gestos mínimos e às pausas que definem a experiência humana.

Filme: Columbus
Diretor: Kogonada
Ano: 2017
Gênero: Drama
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.