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Há 100 anos, tentaram calar uma poeta; ela recusou o silêncio e desmascarou a hipocrisia moralista

Há 100 anos, tentaram calar uma poeta; ela recusou o silêncio e desmascarou a hipocrisia moralista

Entre vitrines novas e vigilância doméstica, Gilka Machado fez do corpo pensamento e pagou com décadas de silêncio. No Rio reformado por Pereira Passos, publicou versos que afrontaram a patrulha moral e o biografismo. Atuou no Partido Republicano Feminino desde 1910, viu o voto chegar em 1932 e manteve a escrita enquanto criava filhos, enfrentava a viuvez e organizava o legado do marido. Chamaram-na “matrona imoral”; ela respondeu com ofício. Drummond a definiu como a primeira mulher nua da poesia brasileira: nudez da língua, não da pessoa, sem pedir licença.

Pagou para publicar o único livro. Viveu na pobreza. Morreu aos 30. E virou lenda incômoda da poesia

Pagou para publicar o único livro. Viveu na pobreza. Morreu aos 30. E virou lenda incômoda da poesia

Nasceu em 1884, em Sapé, Paraíba, entre canaviais e rachaduras de engenho. Estudou Direito no Recife, deu aulas, escreveu em jornais, exerceu cargos públicos. Mudou-se em 1914 para Leopoldina, Minas Gerais, para dirigir um grupo escolar; ali a tosse virou sentença. Morreu em 12 de novembro, às quatro da manhã, com 30 anos, de pneumonia. Entre a Abolição e a República, atravessou um país que trocava velhos rituais por promessas de progresso. Sua biografia breve guarda fome de precisão, sensibilidade aguda e uma coragem incômoda de nomear o mundo inteiro.

O dia em que a música brasileira ficou órfã: há 36 anos o Brasil chorava a partida do maluco beleza Foto / Dan Dickason

O dia em que a música brasileira ficou órfã: há 36 anos o Brasil chorava a partida do maluco beleza

Há 36 anos, o Brasil perdeu seu maluco beleza e a música brasileira ficou órfã. A morte foi notícia, mas o que permaneceu foi a obra: canções que atravessam décadas, de vitrolas e rádios de pilha até playlists digitais. Do garoto de Salvador ao artista inquieto dos palcos, Raul transformou falha em verdade, contradição em poesia, rebeldia em legado. Hoje, sua voz ainda interrompe conversas em bares, festivais e rodas de amigos, lembrando que alguns refrões nunca envelhecem.

Ele lavava carros na madrugada. Até que um jornalista o reconheceu — e, aos 65, mudou a música brasileira

Ele lavava carros na madrugada. Até que um jornalista o reconheceu — e, aos 65, mudou a música brasileira

Pedreiro, lavador de carros, fundador da Mangueira: a biografia de Cartola atravessa pobreza, doença, esquecimento e renascimento. Nascido no Catete e feito homem no morro, transformou trabalho bruto em delicadeza de linguagem e ética de atenção. Redescoberto numa madrugada chuvosa por um cronista do Rio, reabriu caminho no Zicartola, onde cidade e morro aprenderam a conversar. Tardio na indústria, cedo no talento, partiu em 1980, já reconhecido, embora sem vaidade. duradoura.

A escritora brasileira que ficou órfã aos 7 anos, publicou 46 livros, escandalizou o país e morreu no esquecimento

A escritora brasileira que ficou órfã aos 7 anos, publicou 46 livros, escandalizou o país e morreu no esquecimento

Menina de Vinhedo, 1936, Adelaide aprendeu cedo a dividir cama, silêncio e caderno reaproveitado. Órfã aos sete, cresceu entre disciplina de orfanato, trabalho miúdo e leitura emprestada. No início dos anos 1960, instalou-se na capital, atravessou pensões, filas, empregos apertados, e encontrou voz no ruído das ruas. Escreveu para quem lê no intervalo, com urgência e clareza que não pedem cerimônia. Adotou duas crianças. A vida lhe cobrou pressa e exatidão. Em 1992, o câncer interrompeu o fôlego; ficou a figura inquieta que transformava experiência em aviso e coragem cotidiana.