Autor: J.C. Guimarães

Michel Houellebecq contra a humanidade Foto / László Mráz

Michel Houellebecq contra a humanidade

Podemos ser qualificados de “humanos” graças à combinação de dor com aquela outra espécie de padecimento exclusivo de nossa espécie: a paixão. O homem é uma criatura essencialmente trágica, e seus dramas constituem desde sempre o alimento da arte. O motivo para o emplasto Brás Cubas é a própria condição do personagem machadiano, e mesmo um certo Fréderíc Hubczejak — personagem secundário mas decisivo do livro analisado — só existe para refletir sobre a humanidade porque é demasiadamente humano.

História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux, um dos maiores testemunhos do humanismo no século 20

História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux, um dos maiores testemunhos do humanismo no século 20

“Livro” ou “biblioteca” é uma permuta aceitável para designar essa obra, na qual estão encerrados os mais importantes e até muitíssimos livros desimportantes de uma área inteira do conhecimento humano: a literatura. Longe de ser o único assunto que o erudito discutia com propriedade, já é o bastante para causar na gente verdadeiro espanto. A começar pelo tamanho invulgar. O percurso coberto se abisma de Homero, no século oitavo antes de Cristo, até Eugen Gomringer, poeta teuto-boliviano concretista da década de 1950. Sem nenhum favor ou chauvinismo, “História da Literatura Ocidental” é, com certeza, o mais completo painel da arte verbal de todos os tempos, em qualquer língua.

A ética de ‘La Casa de Papel’ e a perfeita definição de mocinho e bandido Divulgação / Netflix

A ética de ‘La Casa de Papel’ e a perfeita definição de mocinho e bandido

O cinema espanhol conseguiu realizar a série de streaming mais perfeita que existe, “La Casa de Papel” (2017). A perfeição a que me refiro não tem a ver com técnica (que interessa ao crítico de cinema), e sim com sagacidade. Criada pelo produtor e diretor Álex Pina, esse misto de suspense e drama — cuja linearidade é interrompida por flashbacks — é sobre um assalto na Casa da Moeda da Espanha por um grupo de oito criminosos mascarados de Salvador Dalí.

História e marxismo: estude para não falar besteira

História e marxismo: estude para não falar besteira

O antiglobalismo é o grande pacote da chamada guerra cultural, em curso no Brasil. Entre suas vítimas estão as ciências humanas, implacavelmente atacadas por certas correntes políticas. Extremistas de direita acusam todos os professores da área de engajamento ideológico, que seria então transmitido, Oh, Deus!, a seus filhos, sem o consentimento dos pais. Presos num misto de ignorância e medo provocado, sugerem que a única teoria da história (ciência à qual nos limitaremos neste ensaio) é o marxismo. Nem sequer sabem do que se trata — a não ser que o marxismo tem a ver com um tal de comunismo.

Jorge Luis Borges, o poeta Reprodução / MUBI

Jorge Luis Borges, o poeta

Sempre ouvimos falar de Jorge Luis Borges, o grande ficcionista argentino, como autor de contos fantásticos. Foi como se celebrizou, ao lançar a coletânea “Ficções”, em 1944, na qual se encontra o famosíssimo “Pierre Menard, autor o Quixote”. Como contista, Borges é amplamente devedor de Kafka, embora sempre se fale de sua formação literária como especificamente inglesa. Além de contos, relatos e ensaios memoráveis, Borges foi também um notável poeta — e começou como poeta —, um meticuloso artesão da palavra, sendo portanto curioso que nos reportemos a ele sem nos lembrarmos desse fato.