Autor: Élida Ramirez

Ser presente

Ser presente

Impossível não falar da pandemia neste Dia das Mães. Encontros, almoços, abraços, presentes. Nada disso é recomendado para o controle do Covid-19. A doença tem obrigado a sociedade a readaptar a rotina. Muitos entendem como passos para trás.

Enfrente o machismo de cabeça erguida. Ele revela o medo do poder da mulher

Enfrente o machismo de cabeça erguida. Ele revela o medo do poder da mulher

Vou profanar. Neste 45º Dia Internacional da Mulher começarei pelo fim: a história do machismo estrutural brasileiro é a confissão do medo do poder feminino. Por que entreguei logo o desfecho do meu raciocínio? Porque temos pressa. Depois de 45 anos de celebração mundial, o contexto dos direitos deste 8 de março é muito pior do que a situação nos anos 1970, quando a data foi criada.

O rompimento da barragem de Brumadinho não é acidente: é crime praticado pelas mineradoras e políticos

O rompimento da barragem de Brumadinho não é acidente: é crime praticado pelas mineradoras e políticos

Hoje estamos aflitos por Brumadinho. Os olhos do mundo voltados para mais uma tragédia em nossas Minas Gerais. É tudo tão desavergonhadamente esfregado em nossas caras que, às vezes, temos dificuldade de enxergar e agir. Sinto necessidade e obrigação de reagir. Escrever, denunciar, protestar. E, ao tentar fazer isso, como cidadã, jornalista e ativista, vislumbro um cenário de pouca mudança.

Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta

Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta

A frase, atribuída à escritora Gloria Steinem, passou a ter a autoria disputada depois de viralizar na internet. Independente do autor, entende-se o sucesso. Ela transpõe uma infinidade de conceitos e teorias acerca do feminino no mais eficaz do imagético, o absurdo. Impossível não pensar no bicho em cima da bike! E rir daquilo que ainda é drama para muitas mulheres: a crença deturpada e mentirosa de que é preciso de um homem para ser feliz, completa e realizada.

Armas foram feitas para matar. O resto é o argumento primitivo do olho por olho, dente por dente

Armas foram feitas para matar. O resto é o argumento primitivo do olho por olho, dente por dente

Rejeito veementemente a noção infantil, rasa e preconceituosa que anda circulando por aí de cidadão do bem. A falta de dinheiro não é a única responsável pelo crime. Reconheçamos, a conjuntura interfere. E justificar assassinatos de supostos bandidos com o argumento da autoproteção é optar pelo conformismo imediatista, primitivo e perigoso do olho por olho, dente por dente.

Por que diabos nós, mulheres, ainda carregamos a casa nas costas?

Por que diabos nós, mulheres, ainda carregamos a casa nas costas?

Desigualdade. Opressão. Preconceito. Assim têm me destratado ao longo de uma vida. Elas, as ofensivas roupas do meu varal. Secas e prontas para ser recolhidas, anseiam por estar devidamente dispostas no armário. Querem urgentemente cumprir o ofício de vestir, vestir e vestir. Insatisfeitas com minha suposta negligência doméstica, lançam silenciosos e potentes insultos.

Não deixe que distorçam os fatos: a vítima é sempre a parte frágil no abuso sexual

Não deixe que distorçam os fatos: a vítima é sempre a parte frágil no abuso sexual

Estupro não tem a ver com vestimenta nem comportamento. E já caiu por terra a hipótese da falta de controle físico do homem no sexo. O estupro fala é de como o homem lida com o poder em relação à mulher. Poupem-me do discurso do short curto ou da rua escura como agentes de abusos. Sejamos coerentes. O início de uma paquera não garante beijo ou sexo no fim da noite. Sentar-se a uma mesa para jantar ou ir ao cinema sozinha não sinalizam uma fêmea desesperada para acasalar.