Autor: Eberth Vêncio

Amigo não é coisa pra se guardar numa lata de lixo

Amigo não é coisa pra se guardar numa lata de lixo

Vivemos as agruras da intransigência. Amigos desconhecem amigos. É quando o sujeito se coisifica, numa metamorfose torpe, para desfavores da reciprocidade. Os órgãos do sentido perdem o rumo. De repente, já não são mais do ramo. É como se já não sentissem. Acontece assim a metamorfose: a primeira estação que seca são os olhos. Cega-se seletivamente.

Precisa pouco amor pra gente viver bem

Precisa pouco amor pra gente viver bem

Contou-me que tomava antidepressivo, uísque e cuidado. Sofria de gastrite, artrite, fibromialgia e saudades-de-nada. Cursava Letras. Namorava firme com um colega de sala. Não era da minha conta, mas, fazia sexo com ele, sim. Não sentia muito prazer naquilo, mas, transava com ele. Fazia psicoterapia. Fazia ioga. Fazia tempo que não cria em Deus.

Cuidado. Pode ser amor

Cuidado. Pode ser amor

Quem já beijou a lona nunca esquece o gosto amargo dos lábios da queda. Quem já patinou na lama sempre se assombra ao lembrar como era tolo ser criança aos olhos de um adulto. Pois digo e reafirmo que vivi os meus melhores momentos na chuva. Foram tempos em que eu brincava de viver sem me importar com o barro, com os resfriados ou com a minha mãe gesticulando, esbravejando conchavos irresistíveis da janela verde de casa, como se fosse possível que eu saísse já daquela chuva e deixasse de ser menino para sempre.

As razões certas para se esfaquear um ser humano

As razões certas para se esfaquear um ser humano

Sinto decepcioná-los, mas, confesso que sou adepto à picanha malpassada e ao sexo sem fins reprodutivos. A carne fraca não gera em mim nenhum sentimento de culpa. Aliás, não conheço um único vegetariano que não sofra de vacilações, palidez e anemia. Isso é o que eu chamo de dar o sangue por uma causa. Espero não ser esfaqueado por pensar assim. Pior que a intolerância ao glúten é a intransigência das ideias.

A vida era simples, feliz e divertida dentro da Kombi

A vida era simples, feliz e divertida dentro da Kombi

Escrevo histórias reais e inventadas. Prefiro as últimas. Esta aqui aconteceu no duro, embora, de tão excêntrica, poderá parecer um embuste. Creiam: sucedeu tal e qual eu vou relatar, sem tirar nem por. Meados dos anos 1970. Partimos de Kombi para Salvador: meus pais e quatro filhos; dentre eles, este escriba. Mil e setecentos quilômetros de estradão do centro-oeste brasileiro até o litoral.